Nasceu uma floresta úmida
nas fecundas ruínas interiores
daquele que amou a justiça
em um mundo de injustiça.
Do teto, rasgou-se uma fenda.
Aos poucos, pássaros vieram.
Quem não quiser amar, que não ame.
Eu, porém, dobrarei a minha aposta.
Nasceu uma floresta úmida
nas fecundas ruínas interiores
daquele que amou a justiça
em um mundo de injustiça.
Do teto, rasgou-se uma fenda.
Aos poucos, pássaros vieram.
Quem não quiser amar, que não ame.
Eu, porém, dobrarei a minha aposta.
Já que nos tornamos números
quando eu for contado
eu serei contado entre as putas
e entre os jardineiros
eu serei contado entre os garis
e entre as professoras.
Não serei contado entre as juízas
não serei contado entre os senadores
e entre os acionistas majoritários.
Eu conheço a minha classe
eu sei de onde vim
e para onde vou
embora não conheça
completamente os meus passos.
Mas
(e a este Mas
eu dou o nome de Política)
quando eu for contado
serei contado entre
os que pouco têm
os que no pouco ter
menos culpa possuem.
Eu serei contado entre
os da classe chamada
trabalhadora.
Se há entre nós uma competição
podem se considerar vencedores
por desistência da minha parte.
A minha vida tem sido apenas
ler poemas, escrever poemas
e com os ipês florindo
fazer amizades.
Não venci
sequer competi
nem conhecia
tal possibilidade...
Fiquem com o pódio
fiquem com o ódio
e fiquem tranquilos
com os seus dourados trajes!
Pois daqui distante
eu já desisti
lhes sorrindo grande
com os dentes pequenos
da nenhuma saudade.
"Esse absurdo de sempre existirem poetas apesar de tudo — deve significar alguma coisa..." - Mario Quintana em "A vaca e o hipogrifo"
Não sei em quem estas palavras aportarão. Não sei se as máquinas já terão feito sucumbir todos os portos quando (e se) estas palavras forem lidas.
Você é um escultor? Você é uma pintora? Vocês são dançarinos? Eu não sei a quem estas palavras chegarão.
Mas eu sei o peso de carregar o amor à beleza.
Agora, de quando falo, a Inteligência Artificial avança. Os de pouca sensibilidade abraçarão facilmente o que ela criar, os de pouca sensibilidade cantarão em roda dela conforme o mercado ditar.
Não parem, porém, de agir, meus caros. Não parem de atuar, não parem de cantar.
Considerem o desprezo dos não artistas como liberdade. Se aquele que quer nos desprezar sempre encontrará motivo para fazê-lo, não faz sentido viver para agradá-lo. É livre, na arte, todo aquele que não faz questão de aplausos.
O rio da vida flui, apesar do cheiro de morte que toma o ar. Continuem! Há uma Renascença no horizonte. Apesar do fluxo contrário, os gênios de todos os tempos surgiram deste rio furioso, o da vida.
Esse absurdo de sempre existirem poetas apesar de tudo significa alguma coisa, significa o amor à beleza. Não deixem que este amor cesse.
Renascença ou morte! Eis o clamor, isto é, arte ou morte.
Arejadas as toadas que ela toca ao violão
floridos os vasos às vésperas da primavera
velado o sol há nove anos sendo canção
em seus doces olhos castanhos de aquarela.
Michele é a minha biblioteca.
Dançadas as pétalas em suas pequenas mãos
cantados os seus versos em suas muitas festas
bordado o sol há nove anos sendo consolação
em seus olhos de mel dourados em uma tela.
Michele é a minha biblioteca.
Michele é a coleção
das páginas mais belas
que trago no coração
e chamo de biblioteca.
Hoje faz nove anos que comecei a ler ela.
O Brasil não tem Nobel
ou o Nobel não tem Brasil
se quiser bordar bandeira
morena
traga o seu próprio fio
traga o seu próprio fio
Na escrita, Jorge de Lima
Medicina, Carlos Chagas
Villas-Bôas teve o trio
coisa boa não acaba
O Chico Mendes resistiu
e existiu a Zilda Arns
não faltou foi brasileiro
pra ganhar o Nobel da Paz
O Brasil não tem Nobel
ou o Nobel não tem Brasil
se quiser bordar bandeira
morena
traga o seu próprio fio
traga o seu próprio fio
Na Química, Eloisa Mano
muito fez, pouco ganhou
teve outro Jorge, o Amado
falecido em Salvador
Intelectual é xingo
no país do carnaval
mas não tem nenhum motivo
de tratar César Lattes mal
O Brasil não tem Nobel
ou o Nobel não tem Brasil
se quiser bordar bandeira
morena
traga o seu próprio fio
traga o seu próprio fio
traga o seu próprio fio
traga o seu próprio fio...
O ar seco, esta sede
antecipada de calor
e de amoras verdes.
Se já está assim
no inverno
o verão será
quão mais quente?
O eclipse, esta rede
unindo nosso temor
às amoras verdes.
A pipa agora voa sozinha
agarrada a um galho alto.
Nela um pouco de linha
prende o hoje ao passado.
Prende o antes ser movida
por crianças, mãos e saltos
a este agora dançar sozinha
com vento tão atravessado.
Memória ou pipa, eis a vida
no ter medo de ser pássaro.
Presa, mas viva, eis a fina
consolação do apavorado
sobrevivente que fascina
apenas a secura do galho.
"Felizes aqueles que têm o coração puro, pois verão Deus. Narciso, porém, só quer ver a si mesmo." - Louis Lavelle em "O erro de Narciso"
Os Narcisos quando têm filhos
creem ser um espelho
aquilo que pariram.
Creem ser um reflexo
do seu próprio labirinto
interno e inteiro
aquele ser belo, alheio
e sanguíneo
chamado filho.
Como é tinto o vinho
em que se refletem
pensam ver um exemplo
de si mesmos no filho
recém-nascido
com o rubor silvestre
que há nos vermes
e o cinismo vermelho
dos assassinos.
Narcisos, narcótico ínfimo
é o valor que dão
ao tesouro chamado amor
ou mãe ou pai ou amigo
ou vizinho ou gato
ou cão (e é claro) ou filho.
Se a janela convida ao passeio
quando lá fora há sol ameno
Se a janela chama ao descanso
quando lá há chuvisco manso
O que é a janela?
O amor é a janela
em cada um aberta
Ao céu que somos
seremos
ou fomos
abre-se ela
o amor, frestas
do que dentro é casa
ao que lá fora é festa
Fragmento é todo o tempo
pr'essa flor de bucha brotar.
Cinco pétalas são ou serão
a sua recordação do sertão
tão sem pressas do mar...
Cinco pétalas, cinco ondas
e o ser tão linda a ondular...
Flor de bucha, áspera a vida
mas mesmo assim tão linda
tal o ser tão sertão do mar.
Tuas obras, caro amigo Franz, apesar de sua vontade triste, no futuro não estão queimadas. No futuro há muitos que leram as tuas duras palavras feitas de subterrâneo, incluindo eu, obviamente, razão pela qual escrevo esta carta.
Toda autoria morreu. Os livros podem ser escritos sozinhos pelas máquinas, chamadas inteligências artificiais. Creio que você teria algo a dizer sobre isso, talvez tenha dito. Agora estamos livres. Mas nem todos sorriem. Talvez seja o calor?
A mesma angústia corrói o ser, neste meu século, aqui, adiante do seu. Não há, porém, os consolos de outrora, mas muitos outros. A existência é mais longa, mais enfadonha, aqui.
Uma criança com muitos brinquedos pode mesmo assim fazer birra na hora de brincar. Não. Dizer "mesmo assim" está errado. É "por isso", pela abundância de brinquedos, que ela faz birra. Ela não sabe o que fazer e se perde com as próprias vontades na hora de brincar.
O nosso tempo, a despeito das carências de sempre, trouxe abundância de "brinquedos". Tenho impressão que você teria algo a dizer sobre isso.
Fique bem, meu caro amigo. Mando os mesmos aplausos inúteis e póstumos que os homens comuns, como eu, dedicam aos gênios, como você.
É bom que os teus papéis não tenham sido queimados. Creio que você também não foi, e nos encontraremos ainda, talvez em breve.
Atenciosamente,
Luiz.
"Jesus, porém, ouvindo, disse-lhes: Não necessitam de médico os sãos, mas, sim, os doentes." - Mateus 9:12
Dos limites incendiados da existência
sob o arco sombrio do sonho
vi subir o dormente turbilhão atônito
que cobriu de mim a realidade.
Em outras palavras
eu recém descobri
que tenho epilepsia.
E quando recém de mim fugia
a tempestade chamada coragem
pelos braços do amor fui acolhido
no momento em que essa acolhida
era em mim mais necessária
eu, epiléptico, senti-me amado
interiormente fortalecido e firme
em outras palavras.
O batuque da língua
sobre o corpo não arde
mas brinca de ser coração
como se pulsasse
sendo dentes pra mordida
do tempo que parte
o fruto vermelho da lava
de todas as tardes
O batuque da língua
sobre o corpo queima
suas inquietudes
suas longanimidades
mas teima ser sonho
e queima então como
se não queimasse
Venta o sopro da boca
sopra o vento da tarde
vermelha que como
se não ardesse
(língua) arde
A vida é
a novidade da chuva
sobre a rotina do rio
sob a ira das margens
rumo à euforia do mar
A vida é
o imprevisível vento
na envelhecida vela
da solitária jangada
rumo ao véu do mar
A vida é
tão ruim de entender
mas boa de navegar
se navegada como
rumo ao colo do mar
Ficávamos ali, sentados na calçada
à noite
depois de jogarmos bola na rua a tarde toda.
O Tiago, o Vinicius, o Fubeca (que já morreu)
embaixo da luz amarela dos postes da infância
descansávamos.
O Rafael, a Valdiane, o Alex, o Rodrigo, o Gustavo
tínhamos pretas as solas dos nossos pés
por fazermos de chinelos as traves dos gols
e mesmo se não fizéssemos
porque o asfalto daquele tempo
grudava-nos às raízes
de sermos meninos no Brasil.
A Jéssica, o Leandro, o Marquinho
o Breno, o Raphinha, o Luiz
e eu também
descansávamos ali
sob a luz amarela dos postes
verdes da infância
as nossas copas do mundo.
O verdadeiro artista é o refletir da lua em uma poça de lama no centro de um chiqueiro.
Os porcos pisam a lua, pérola da noite, e apagam na lama a luz antes refletida.
Porém a lua verdadeira, a arte, no alto permanece, mesmo depois do amanhecer.
O verdadeiro artista não é a poça, nem a lua: ele é o refletir da lua na poça.
E os porcos são os que pisam as ruas, poças, nomeadas em honra a artistas mortos.
A arte, sem o artista, não seria pisada pelos porcos, é verdade.
Mas a arte, sem o artista, também não presentearia a terra com o seu reflexo.
Os operários que vi lixarem MDF
enquanto fofocavam a vida alheia
As donas de casa que vi catarem feijão
enquanto lamentavam o fim da feira
As idosas que vi contarem moedas
enquanto vendiam o fim da feira
As crianças que vi correrem rua
enquanto esfomeadas e birrentas
As ricas que vi sorrirem diamantes
enquanto alimentadas e satisfeitas
Os ricos que vi demitirem milhões
enquanto erigiam uma nova seita
Ser racional a ponto
de me tornar sensível
ser minucioso a ponto
de me fazer objetivo
aquele que quero ser
carrego em sonho
aqui eu ele comigo
convém ele viver
à véspera de pronto
enquanto eu vivo.
Que grande quando há
nos dias às vésperas de!
É só ali que a espera fará
habitar no ainda o já ser.
Cem mil rios indo ao mar
são os dias às vésperas de.
Não convém se apressar...
Logo mais nós vamos ver.
Não sabeis?
A ilha
fez-se república.
E então
enfim
chamam-se irmãos
os de costas marcadas
e os donos das mãos
que os chicoteavam.
Este cheiro francês
de lavanda
os campos cheios de sol
a língua acariciada
pelo torresmo
ainda quente.
Não sabeis, irmão?
Apesar dos braços
o coração, um músculo
invencível e vermelho
como farol, vísceras
de liberdade e arrebol
enquanto
sangues e espadas
chicotes e facas
cheiram a ferro
irmão
e futebol.
Perder um amor não é apenas tristeza.
Há, de repente, em tudo o que houve
um alastrar de chamas da maior beleza
chamas coloridas pelo impossível azul
dos céus que há na memória da infância
e que no coração de cada um rastejam.
Perder um amor não é apenas dor.
Mesmo quando não banhada a perda
pelas melhores músicas e manhãs
douradas, circundadas, leves
o seu fim é a longa coroação breve
de ter havido ali outrora a certeza
chamada amor, mesmo que agora
a perda triunfe o seu reinado
por fim nostalgia nomeado
ou cinzas ou chamas, que seja.
Todo elogio a nostalgia elogia
ao que guardou a ela em si
este azul belo imenso dia.
Para Michele, minha esposa, em seu 27º aniversário
e às vésperas de nosso 5º aniversário de casamento
Amor, olhe. Aqueles são os dias
com as suas lindas solares ilhas.
Aquelas (lembra?) são as noites
a verter o lunar sangue das dores.
Os ventos, as árvores, seus ninhos.
Estes, amor, estes são os caminhos
que até aqui nós dois percorremos
sorrindo na maior parte do tempo.
Amor, olhe: com você sou feliz.
Dez desertos, cem rios, um país
já cruzamos e cruzaremos tantos
outros quantos Deus nos permitir.
Os dias e as noites, seus mantos!
Enquanto raízes dançamos, aqui.
Quando enfim eu tiver morrido
mesmo que vocês ainda
não tenham compreendido o que eu digo
levem o meu corpo a qualquer lugar
falem qualquer coisa ou coisa alguma
deem a coroa ao que for mais nobre
e esqueçam o meu rosto.
Não esqueçam
porém
o que eu disse
como eu disse
quando eu disse.
Há muito mais de mim no que ficará
do que naquilo que morreu.
Tropas, moedas, terras?
Não.
Minhas foram
afinal
apenas as palavras
que realizei.
Ah graviola feia fruta
grave está a sua pele
tomada por formiga
Esta fartura suja
a mim entristece
e também ensina
O fim a morte tua
mesmo podre fere
vida na chaga viva
Na fome dura
a carne recebe
mil mordidas
Que meu nome suma
que meu sumo seque
a minha semente fica
Ah se vocês soubessem
como é bom ser poeta
olhar a própria vida
nos poemas antigos
como quem assiste
a uma novela
e ter cantos
nestas palavras
que se bifurcam
em muitas setas
apontando aqui ali
um entender depois
o que aconteceu
ao escrever
a rima certa
como ficam belos
os rios antigos
e belas ficam
as antigas pedras
e no hoje ficam
lindos os dias
lindas as noites
mesmo as sérias
feitas de castelos
mesmo os feios
lá dentro a ventania
de todos os verbos
e o olhar o olhar
de tantas coisas
tingido no azul
de ser poeta
verso foz vida faz
a vida
esta clareira aberta
ah se vocês soubessem
como é bom ser poeta
ninguém não seria
juro
ninguém teria
outra cela
O som das águas é o som do pensamento
de todos os rios ou do rio da infância
à sombra de diferente e idêntico cajueiro
Tudo dorme e no entanto
é como se tudo estivesse desperto
de imenso desespero
amoroso, pacífico, terrível
imenso desespero
à sombra daquele cajueiro
em que estive criança
e em que estou ainda
desde então, inteiro
Antes de Dante, Olívia havia
esperando nascer Dante
um dia.
Um dia nasceu Dante
grande alegria
e dali em diante
Olívia tinha Dante
e Dante Olívia tinha
dois irmãos, vibrantes
rimas.
Antes de Dante
Olívia havia.
Agora há Dante
agora há Olívia
e há essa bonita
coisa pequenina
chamada gigante
verdadeira alegria!
Que até já existia
mas não tão brilhante
aos seus pais radiantes
nem com tanta vida.
Aqui é o fim do mundo oh aqui é o fim do mundo
canta um corvo sobre o teu triste corpo insepulto.
Nenhum outro canto se ouve, nem ainda túmulos
existem a recolher nestas covas sequer sussurros.
Mas o corvo canta, enquanto as suas asas cansam
o mesmo vento que às bandeiras rasga uma dança.
Teu cadáver não ouve o mal estalar das flâmulas
cuja música soa igual ao perfume de mil chamas
e que te fariam sorrir, pobre soldado, por ouvir
nestas árias toda a ruína sobre a guerra porvir.
Contra quantos antigos hinos inúteis seria elixir
este torto canto corvo em tanta nenhuma vida!
Aqui, quem diria, muito cântico perfuma ainda
este tão longo fim do mundo que não termina.
Tentativa de desenhar a bandeira do Brasil em um poema
Eu amo o Brasil como amo seus fins de tarde no verão
quando o laranja também de brasas é o adeus do sol
no horizonte após os dias de chuva intermitente
É tão fácil o amor ao Brasil porém tão difícil
como pensar em seus tantos quilômetros
pobres e ricos que jamais verei inteiramente
Eu jamais te verei inteiramente com estes olhos
agora úmidos de pensarem nisso e de verem o sol
que o verão guarda entre os seios enquanto é carnaval
"Mas, amados, não ignoreis uma coisa, que um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia. O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a têm por tardia; mas é longânimo para conosco, não querendo que alguns se percam, senão que todos venham a arrepender-se." - 2 Pedro 3:8,9
Falta pouco, tão pouco
para a carcaça da terra
receber as estrelas
da visita do fogo.
Falta pouco, tão pouco
para um novo fôlego
soar na trombeta
o som de seu sopro.
Falta pouco, tão pouco
para a justiça eterna
vir e trazer com ela
o fim, o início, o Todo.
ela disse eu amo o verão
os campos verdes as chuvas torrenciais
depois o sol terrível o azul vivo do céu
as nuvens gordas e triunfantes
ele disse
você não pensa nos que não têm casa
e nos que têm mas sofrem com enchentes
a mastigar seus muros?
ela disse eu amo o inverno
com seu jeito ameaçador de uivar
aos músculos estriados das árvores
com seu cheiro de chá e de colo
com seu vitorioso cheiro de casa
ele disse
você não pensa nos que não têm comida
e nos que têm mas não da que precisam
para esquentar as suas noites?
um dia ele morreu
triunfante o sol parece sorrir
ela disse
com o azul do céu entre os dentes
após uma tempestade daquelas
"A pantera negra; e as estrelas?"
Essa frase (escrita solta assim mesmo por João Guimarães Rosa em seu Ave, palavra) é uma boa ilustração de como estar insatisfeito com o presente pode enfeiar a realidade.
Você, imagine, está diante de uma pantera negra, uma das coisas mais lindas da criação inumerável. O seu corpo esguio, o seu olhar altivo e o seu pelo brilhando negro como a noite! Espera, como a noite? Pois, então, onde estão as estrelas?!
Olhos ansiosos sempre buscam pelo que não há, para então se lamentarem sobre isso.
Estar satisfeito? Mas isso seria como cuspir nos seus sonhos! Assim o ansioso cogita. Como estar satisfeito com a vida, se você ainda não foi a Paris? Se você ainda não se casou, se ainda não teve um filho, se ainda não viu o seu time ser campeão?
Parece que falta algo. Mas quando não parecerá que falta algo? Porque a ansiedade muitas vezes atende pelo nome completo de não ter aprendido a estar satisfeito. Você medita sobre o futuro, ansioso pelos marcos imaginários. Um prêmio, uma casa, achar-se suficientemente belo. "E as estrelas?"
Os sonhos são projetos de realidade, como mapas. Não se espera que a integralidade de um lugar esteja no mapa, mas que esse desenho seja um esboço que nos guie dentro da realidade. Em outras palavras, a vida é superior ao que se sonha sobre ela.
A pantera negra, como a noite sem estrelas. Porque há noites sem estrelas, também, e é bom que seja assim. Esteja satisfeito em contemplá-la. Apenas cuidado (sem ansiedade, se possível) com os seus dentes.
A tempestade esta espada
forjada em relâmpago
arde suas chamas
inunda as estradas
e cheira a sândalo
Em outras palavras
a tempestade é bela
nos jardins herdados
e terrível nas favelas
de becos inundados
A tempestade esta espada
afiada no relâmpago
ergue suas garras
rosna cem guitarras
e adormece ronronando
Sua dor é mais onde
tempestade
sua dor é mais onde
do que quando
Onde deixei, o piano perguntou,
aquela carta de amor?
Aquela mesma que dizia
ter alguém amado um dia
o que fui e o que sou?
Onde deixei?
O piano perguntou.
E a viola disse: eu não sei,
senhor.
Já buscou, perguntou a viola,
no jardim entre as rosas?
E em meus olhos, já buscou?
Assim ela perguntou
sorrindo como quem chora.
Já buscou?
Insistiu a viola.
E o piano então soou
uma alegria nova.