Que grande quando há
nos dias às vésperas de!
É só ali que a espera fará
habitar no ainda o já ser.
Cem mil rios indo ao mar
são os dias às vésperas de.
Não convém se apressar...
Logo mais nós vamos ver.
Que grande quando há
nos dias às vésperas de!
É só ali que a espera fará
habitar no ainda o já ser.
Cem mil rios indo ao mar
são os dias às vésperas de.
Não convém se apressar...
Logo mais nós vamos ver.
Não sabeis?
A ilha
fez-se república.
E então
enfim
chamam-se irmãos
os de costas marcadas
e os donos das mãos
que os chicoteavam.
Este cheiro francês
de lavanda
os campos cheios de sol
a língua acariciada
pelo torresmo
ainda quente.
Não sabeis, irmão?
Apesar dos braços
o coração, um músculo
invencível e vermelho
como farol, vísceras
de liberdade e arrebol
enquanto
sangues e espadas
chicotes e facas
cheiram a ferro
irmão
e futebol.
Perder um amor não é apenas tristeza.
Há, de repente, em tudo o que houve
um alastrar de chamas da maior beleza
chamas coloridas pelo impossível azul
dos céus que há na memória da infância
e que no coração de cada um rastejam.
Perder um amor não é apenas dor.
Mesmo quando não banhada a perda
pelas melhores músicas e manhãs
douradas, circundadas, leves
o seu fim é a longa coroação breve
de ter havido ali outrora a certeza
chamada amor, mesmo que agora
a perda triunfe o seu reinado
por fim nostalgia nomeado
ou cinzas ou chamas, que seja.
Todo elogio a nostalgia elogia
ao que guardou a ela em si
este azul belo imenso dia.
Para Michele, minha esposa, em seu 27º aniversário
e às vésperas de nosso 5º aniversário de casamento
Amor, olhe. Aqueles são os dias
com as suas lindas solares ilhas.
Aquelas (lembra?) são as noites
a verter o lunar sangue das dores.
Os ventos, as árvores, seus ninhos.
Estes, amor, estes são os caminhos
que até aqui nós dois percorremos
sorrindo na maior parte do tempo.
Amor, olhe: com você sou feliz.
Dez desertos, cem rios, um país
já cruzamos e cruzaremos tantos
outros quantos Deus nos permitir.
Os dias e as noites, seus mantos!
Enquanto raízes dançamos, aqui.
Quando enfim eu tiver morrido
mesmo que vocês ainda
não tenham compreendido o que eu digo
levem o meu corpo a qualquer lugar
falem qualquer coisa ou coisa alguma
deem a coroa ao que for mais nobre
e esqueçam o meu rosto.
Não esqueçam
porém
o que eu disse
como eu disse
quando eu disse.
Há muito mais de mim no que ficará
do que naquilo que morreu.
Tropas, moedas, terras?
Não.
Minhas foram
afinal
apenas as palavras
que realizei.
Ah graviola feia fruta
grave está a sua pele
tomada por formiga
Esta fartura suja
a mim entristece
e também ensina
O fim a morte tua
mesmo podre fere
vida na chaga viva
Na fome dura
a carne recebe
mil mordidas
Que meu nome suma
que meu sumo seque
a minha semente fica
Ah se vocês soubessem
como é bom ser poeta
olhar a própria vida
nos poemas antigos
como quem assiste
a uma novela
e ter cantos
nestas palavras
que se bifurcam
em muitas setas
apontando aqui ali
um entender depois
o que aconteceu
ao escrever
a rima certa
como ficam belos
os rios antigos
e belas ficam
as antigas pedras
e no hoje ficam
lindos os dias
lindas as noites
mesmo as sérias
feitas de castelos
mesmo os feios
lá dentro a ventania
de todos os verbos
e o olhar o olhar
de tantas coisas
tingido no azul
de ser poeta
verso foz vida faz
a vida
esta clareira aberta
ah se vocês soubessem
como é bom ser poeta
ninguém não seria
juro
ninguém teria
outra cela
O som das águas é o som do pensamento
de todos os rios ou do rio da infância
à sombra de diferente e idêntico cajueiro
Tudo dorme e no entanto
é como se tudo estivesse desperto
de imenso desespero
amoroso, pacífico, terrível
imenso desespero
à sombra daquele cajueiro
em que estive criança
e em que estou ainda
desde então, inteiro
Antes de Dante, Olívia havia
esperando nascer Dante
um dia.
Um dia nasceu Dante
grande alegria
e dali em diante
Olívia tinha Dante
e Dante Olívia tinha
dois irmãos, vibrantes
rimas.
Antes de Dante
Olívia havia.
Agora há Dante
agora há Olívia
e há essa bonita
coisa pequenina
chamada gigante
verdadeira alegria!
Que até já existia
mas não tão brilhante
aos seus pais radiantes
nem com tanta vida.
Aqui é o fim do mundo oh aqui é o fim do mundo
canta um corvo sobre o teu triste corpo insepulto.
Nenhum outro canto se ouve, nem ainda túmulos
existem a recolher nestas covas sequer sussurros.
Mas o corvo canta, enquanto as suas asas cansam
o mesmo vento que às bandeiras rasga uma dança.
Teu cadáver não ouve o mal estalar das flâmulas
cuja música soa igual ao perfume de mil chamas
e que te fariam sorrir, pobre soldado, por ouvir
nestas árias toda a ruína sobre a guerra porvir.
Contra quantos antigos hinos inúteis seria elixir
este torto canto corvo em tanta nenhuma vida!
Aqui, quem diria, muito cântico perfuma ainda
este tão longo fim do mundo que não termina.
Tentativa de desenhar a bandeira do Brasil em um poema
Eu amo o Brasil como amo seus fins de tarde no verão
quando o laranja também de brasas é o adeus do sol
no horizonte após os dias de chuva intermitente
É tão fácil o amor ao Brasil porém tão difícil
como pensar em seus tantos quilômetros
pobres e ricos que jamais verei inteiramente
Eu jamais te verei inteiramente com estes olhos
agora úmidos de pensarem nisso e de verem o sol
que o verão guarda entre os seios enquanto é carnaval
"Mas, amados, não ignoreis uma coisa, que um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia. O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a têm por tardia; mas é longânimo para conosco, não querendo que alguns se percam, senão que todos venham a arrepender-se." - 2 Pedro 3:8,9
Falta pouco, tão pouco
para a carcaça da terra
receber as estrelas
da visita do fogo.
Falta pouco, tão pouco
para um novo fôlego
soar na trombeta
o som de seu sopro.
Falta pouco, tão pouco
para a justiça eterna
vir e trazer com ela
o fim, o início, o Todo.
ela disse eu amo o verão
os campos verdes as chuvas torrenciais
depois o sol terrível o azul vivo do céu
as nuvens gordas e triunfantes
ele disse
você não pensa nos que não têm casa
e nos que têm mas sofrem com enchentes
a mastigar seus muros?
ela disse eu amo o inverno
com seu jeito ameaçador de uivar
aos músculos estriados das árvores
com seu cheiro de chá e de colo
com seu vitorioso cheiro de casa
ele disse
você não pensa nos que não têm comida
e nos que têm mas não da que precisam
para esquentar as suas noites?
um dia ele morreu
triunfante o sol parece sorrir
ela disse
com o azul do céu entre os dentes
após uma tempestade daquelas
"A pantera negra; e as estrelas?"
Essa frase (escrita solta assim mesmo por João Guimarães Rosa em seu Ave, palavra) é uma boa ilustração de como estar insatisfeito com o presente pode enfeiar a realidade.
Você, imagine, está diante de uma pantera negra, uma das coisas mais lindas da criação inumerável. O seu corpo esguio, o seu olhar altivo e o seu pelo brilhando negro como a noite! Espera, como a noite? Pois, então, onde estão as estrelas?!
Olhos ansiosos sempre buscam pelo que não há, para então se lamentarem sobre isso.
Estar satisfeito? Mas isso seria como cuspir nos seus sonhos! Assim o ansioso cogita. Como estar satisfeito com a vida, se você ainda não foi a Paris? Se você ainda não se casou, se ainda não teve um filho, se ainda não viu o seu time ser campeão?
Parece que falta algo. Mas quando não parecerá que falta algo? Porque a ansiedade muitas vezes atende pelo nome completo de não ter aprendido a estar satisfeito. Você medita sobre o futuro, ansioso pelos marcos imaginários. Um prêmio, uma casa, achar-se suficientemente belo. "E as estrelas?"
Os sonhos são projetos de realidade, como mapas. Não se espera que a integralidade de um lugar esteja no mapa, mas que esse desenho seja um esboço que nos guie dentro da realidade. Em outras palavras, a vida é superior ao que se sonha sobre ela.
A pantera negra, como a noite sem estrelas. Porque há noites sem estrelas, também, e é bom que seja assim. Esteja satisfeito em contemplá-la. Apenas cuidado (sem ansiedade, se possível) com os seus dentes.
A tempestade esta espada
forjada em relâmpago
arde suas chamas
inunda as estradas
e cheira a sândalo
Em outras palavras
a tempestade é bela
nos jardins herdados
e terrível nas favelas
de becos inundados
A tempestade esta espada
afiada no relâmpago
ergue suas garras
rosna cem guitarras
e adormece ronronando
Sua dor é mais onde
tempestade
sua dor é mais onde
do que quando
Onde deixei, o piano perguntou,
aquela carta de amor?
Aquela mesma que dizia
ter alguém amado um dia
o que fui e o que sou?
Onde deixei?
O piano perguntou.
E a viola disse: eu não sei,
senhor.
Já buscou, perguntou a viola,
no jardim entre as rosas?
E em meus olhos, já buscou?
Assim ela perguntou
sorrindo como quem chora.
Já buscou?
Insistiu a viola.
E o piano então soou
uma alegria nova.
Os olhos abertos
diante da noite enorme
não distinguem
a distância das árvores
nem os tecidos
da chuva a frente
e abrem-se ainda mais
em busca de luz
Talvez por isso
os fogos de artifício
O que virá a seguir?
O olhar aberto
como um relâmpago
a noite aberta
a toda sede
e em todo canto
janeiro aberto
como uma rede
Esperança
teu nome é valioso
Vai
e faz jus a ele
Por vezes tenho que conter o gado
enquanto os bois bebem água
pela inquietude que os domina.
Angustiam-se muito
coitados
pelo futuro imediato.
Restará para mim ainda água?
Haverá para mim no pasto
espaço?
Por vezes tenho que conter o gado
enquanto bebem água
pela inquietude que os domina.
Ê boi! eu grito
aos seus cornos assustados.
Daí ficam sossegados.
"Minhocas arejam a terra; poetas, a linguagem." - Manoel de Barros em Livro de pré-coisas
Enquanto está vivo
de que serve um poeta?
De que serve o vento
sem pipas ou setas
guiadas pelo aceno
da tempestade correta?
Enquanto está vivo
de que serve um poeta?
Apenas agora o lemos
em língua materna
só agora entendemos
seus vermes e pétalas.
Enquanto está vivo
de pouco vale o poeta.
Apenas aqui dentro
do útero da terra
é útil o seu reino
feito de palavra, pena
perda e pedra.