Novo Cântico
26 de abril de 2026
A lava e seca
que a vida tem
limpam
apesar das pancadas
fintam
o lavar
o secar
apesar
das pancadas
dos pesares
e do girar
que a vida dá
no final tem música
pinga
e roupa limpa.
18 de abril de 2026
Bodas de Raiz
Para Michele, minha esposa, em seu 27º aniversário
e às vésperas de nosso 5º aniversário de casamento
Amor, olhe. Aqueles são os dias
com as suas lindas solares ilhas.
Aquelas (lembra?) são as noites
a verter o lunar sangue das dores.
Os ventos, as árvores, seus ninhos.
Estes, amor, estes são os caminhos
que até aqui nós dois percorremos
sorrindo na maior parte do tempo.
Amor, olhe: com você sou feliz.
Dez desertos, cem rios, um país
já cruzamos e cruzaremos tantos
outros quantos Deus nos permitir.
Os dias e as noites, seus mantos!
Enquanto raízes dançamos, aqui.
12 de abril de 2026
Uma última ordem real
Quando enfim eu tiver morrido
mesmo que vocês ainda
não tenham compreendido o que eu digo
levem o meu corpo a qualquer lugar
falem qualquer coisa ou coisa alguma
deem a coroa ao que for mais nobre
e esqueçam o meu rosto.
Não esqueçam
porém
o que eu disse
como eu disse
quando eu disse.
Há muito mais de mim no que ficará
do que naquilo que morreu.
Tropas, moedas, terras?
Não.
Minhas foram
afinal
apenas as palavras
que realizei.
30 de março de 2026
A graviola tomada por formiga
Ah graviola feia fruta
grave está a sua pele
tomada por formiga
Esta fartura suja
a mim entristece
e também ensina
O fim a morte tua
mesmo podre fere
vida na chaga viva
Na fome dura
a carne recebe
mil mordidas
Que meu nome suma
que meu sumo seque
a minha semente fica
21 de março de 2026
No Dia Mundial da Poesia
Ah se vocês soubessem
como é bom ser poeta
olhar a própria vida
nos poemas antigos
como quem assiste
a uma novela
e ter cantos
nestas palavras
que se bifurcam
em muitas setas
apontando aqui ali
um entender depois
o que aconteceu
ao escrever
a rima certa
como ficam belos
os rios antigos
e belas ficam
as antigas pedras
e no hoje ficam
lindos os dias
lindas as noites
mesmo as sérias
feitas de castelos
mesmo os feios
lá dentro a ventania
de todos os verbos
e o olhar o olhar
de tantas coisas
tingido no azul
de ser poeta
verso foz vida faz
a vida
esta clareira aberta
ah se vocês soubessem
como é bom ser poeta
ninguém não seria
juro
ninguém teria
outra cela
10 de março de 2026
Axiologia
O som das águas é o som do pensamento
de todos os rios ou do rio da infância
à sombra de diferente e idêntico cajueiro
Tudo dorme e no entanto
é como se tudo estivesse desperto
de imenso desespero
amoroso, pacífico, terrível
imenso desespero
à sombra daquele cajueiro
em que estive criança
e em que estou ainda
desde então, inteiro
5 de março de 2026
Antes de Dante, Olívia havia
Antes de Dante, Olívia havia
esperando nascer Dante
um dia.
Um dia nasceu Dante
grande alegria
e dali em diante
Olívia tinha Dante
e Dante Olívia tinha
dois irmãos, vibrantes
rimas.
Antes de Dante
Olívia havia.
Agora há Dante
agora há Olívia
e há essa bonita
coisa pequenina
chamada gigante
verdadeira alegria!
Que até já existia
mas não tão brilhante
aos seus pais radiantes
nem com tanta vida.
3 de março de 2026
Terceiro canto da desaparição
Aqui é o fim do mundo oh aqui é o fim do mundo
canta um corvo sobre o teu triste corpo insepulto.
Nenhum outro canto se ouve, nem ainda túmulos
existem a recolher nestas covas sequer sussurros.
Mas o corvo canta, enquanto as suas asas cansam
o mesmo vento que às bandeiras rasga uma dança.
Teu cadáver não ouve o mal estalar das flâmulas
cuja música soa igual ao perfume de mil chamas
e que te fariam sorrir, pobre soldado, por ouvir
nestas árias toda a ruína sobre a guerra porvir.
Contra quantos antigos hinos inúteis seria elixir
este torto canto corvo em tanta nenhuma vida!
Aqui, quem diria, muito cântico perfuma ainda
este tão longo fim do mundo que não termina.
14 de fevereiro de 2026
Enquanto é carnaval
Tentativa de desenhar a bandeira do Brasil em um poema
Eu amo o Brasil como amo seus fins de tarde no verão
quando o laranja também de brasas é o adeus do sol
no horizonte após os dias de chuva intermitente
É tão fácil o amor ao Brasil porém tão difícil
como pensar em seus tantos quilômetros
pobres e ricos que jamais verei inteiramente
Eu jamais te verei inteiramente com estes olhos
agora úmidos de pensarem nisso e de verem o sol
que o verão guarda entre os seios enquanto é carnaval
9 de fevereiro de 2026
O pouco e o Todo
"Mas, amados, não ignoreis uma coisa, que um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia. O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a têm por tardia; mas é longânimo para conosco, não querendo que alguns se percam, senão que todos venham a arrepender-se." - 2 Pedro 3:8,9
Falta pouco, tão pouco
para a carcaça da terra
receber as estrelas
da visita do fogo.
Falta pouco, tão pouco
para um novo fôlego
soar na trombeta
o som de seu sopro.
Falta pouco, tão pouco
para a justiça eterna
vir e trazer com ela
o fim, o início, o Todo.
3 de fevereiro de 2026
ela e ele
ela disse eu amo o verão
os campos verdes as chuvas torrenciais
depois o sol terrível o azul vivo do céu
as nuvens gordas e triunfantes
ele disse
você não pensa nos que não têm casa
e nos que têm mas sofrem com enchentes
a mastigar seus muros?
ela disse eu amo o inverno
com seu jeito ameaçador de uivar
aos músculos estriados das árvores
com seu cheiro de chá e de colo
com seu vitorioso cheiro de casa
ele disse
você não pensa nos que não têm comida
e nos que têm mas não da que precisam
para esquentar as suas noites?
um dia ele morreu
triunfante o sol parece sorrir
ela disse
com o azul do céu entre os dentes
após uma tempestade daquelas
16 de janeiro de 2026
Breves cartas aos ansiosos: carta 10, pantera
"A pantera negra; e as estrelas?"
Essa frase (escrita solta assim mesmo por João Guimarães Rosa em seu Ave, palavra) é uma boa ilustração de como estar insatisfeito com o presente pode enfeiar a realidade.
Você, imagine, está diante de uma pantera negra, uma das coisas mais lindas da criação inumerável. O seu corpo esguio, o seu olhar altivo e o seu pelo brilhando negro como a noite! Espera, como a noite? Pois, então, onde estão as estrelas?!
Olhos ansiosos sempre buscam pelo que não há, para então se lamentarem sobre isso.
Estar satisfeito? Mas isso seria como cuspir nos seus sonhos! Assim o ansioso cogita. Como estar satisfeito com a vida, se você ainda não foi a Paris? Se você ainda não se casou, se ainda não teve um filho, se ainda não viu o seu time ser campeão?
Parece que falta algo. Mas quando não parecerá que falta algo? Porque a ansiedade muitas vezes atende pelo nome completo de não ter aprendido a estar satisfeito. Você medita sobre o futuro, ansioso pelos marcos imaginários. Um prêmio, uma casa, achar-se suficientemente belo. "E as estrelas?"
Os sonhos são projetos de realidade, como mapas. Não se espera que a integralidade de um lugar esteja no mapa, mas que esse desenho seja um esboço que nos guie dentro da realidade. Em outras palavras, a vida é superior ao que se sonha sobre ela.
A pantera negra, como a noite sem estrelas. Porque há noites sem estrelas, também, e é bom que seja assim. Esteja satisfeito em contemplá-la. Apenas cuidado (sem ansiedade, se possível) com os seus dentes.
14 de janeiro de 2026
A desigualdade da tempestade
A tempestade esta espada
forjada em relâmpago
arde suas chamas
inunda as estradas
e cheira a sândalo
Em outras palavras
a tempestade é bela
nos jardins herdados
e terrível nas favelas
de becos inundados
A tempestade esta espada
afiada no relâmpago
ergue suas garras
rosna cem guitarras
e adormece ronronando
Sua dor é mais onde
tempestade
sua dor é mais onde
do que quando
10 de janeiro de 2026
Fuga
Onde deixei, o piano perguntou,
aquela carta de amor?
Aquela mesma que dizia
ter alguém amado um dia
o que fui e o que sou?
Onde deixei?
O piano perguntou.
E a viola disse: eu não sei,
senhor.
Já buscou, perguntou a viola,
no jardim entre as rosas?
E em meus olhos, já buscou?
Assim ela perguntou
sorrindo como quem chora.
Já buscou?
Insistiu a viola.
E o piano então soou
uma alegria nova.
31 de dezembro de 2025
Janeiro aberto como uma rede
Os olhos abertos
diante da noite enorme
não distinguem
a distância das árvores
nem os tecidos
da chuva a frente
e abrem-se ainda mais
em busca de luz
Talvez por isso
os fogos de artifício
O que virá a seguir?
O olhar aberto
como um relâmpago
a noite aberta
a toda sede
e em todo canto
janeiro aberto
como uma rede
Esperança
teu nome é valioso
Vai
e faz jus a ele
30 de dezembro de 2025
O gado
Por vezes tenho que conter o gado
enquanto os bois bebem água
pela inquietude que os domina.
Angustiam-se muito
coitados
pelo futuro imediato.
Restará para mim ainda água?
Haverá para mim no pasto
espaço?
Por vezes tenho que conter o gado
enquanto bebem água
pela inquietude que os domina.
Ê boi! eu grito
aos seus cornos assustados.
Daí ficam sossegados.
6 de dezembro de 2025
Epitáfio possível
"Minhocas arejam a terra; poetas, a linguagem." - Manoel de Barros em Livro de pré-coisas
Enquanto está vivo
de que serve um poeta?
De que serve o vento
sem pipas ou setas
guiadas pelo aceno
da tempestade correta?
Enquanto está vivo
de que serve um poeta?
Apenas agora o lemos
em língua materna
só agora entendemos
seus vermes e pétalas.
Enquanto está vivo
de pouco vale o poeta.
Apenas aqui dentro
do útero da terra
é útil o seu reino
feito de palavra, pena
perda e pedra.
3 de dezembro de 2025
Breves cartas aos ansiosos: carta 9, riacho
Não deixe os seus traumas ditarem o seu pensamento, nem os seus medos anteciparem a realidade de problemas hoje inexistentes.
Havia um riacho, no caminho dos viajantes. Eles estavam há muito tempo na estrada, cansados e sedentos. Quando ouviram o som de suas águas, correram até ele, extasiados.
Chegando, ajoelharam-se diante do riacho, dele beberam e próximo a ele descansaram. Depois de um tempo ali, renovados, decidiram que era momento de seguir viagem.
Um deles, de tamanha felicidade, começou a chorar, conforme se afastava do som pacífico de haver riacho. Isso perturbou um dos seus colegas de jornada.
"Por que você está chorando?", perguntou o que se perturbara.
"De alegria por não ter mais sede", disse o outro.
"Use sua alegria para guardar a água que acabou de beber, não para jogá-la fora. Na sede de amanhã você pode se arrepender de gastar as lágrimas de hoje", falou, sério, o primeiro.
"A sede amanhã será saciada com a água de amanhã, assim como a sede hoje foi saciada com a água de hoje", falou, sorrindo, o segundo.
Então, seguiram viagem.
Prudência é algo importante, mas não faça da prudência a sua sempre presente razão de desconforto.
O trauma, que gerou medo, hoje nomeia a ansiedade pelo amanhã que ainda não existe. Lembre-se: a sede hoje é saciada com a água de hoje, a sede amanhã será saciada com a água de amanhã. E a sede de ontem já foi vencida, pois você sobreviveu a ela.
Basta a cada dia a sua própria sede.
1 de dezembro de 2025
Ler o mundo, Lía
Precisaremos, Lía
de você, um dia
para ler o mundo.
Pois é da criança
dar essa esperança
ao adulto.
Para isso brinque
e cante e pisque
a todo assunto.
É da sua vida
nova e bonita
que é feito o futuro.
Precisaremos, Lía
de você, um dia
para ler o mundo!
E reescrever tudo
o que nele for mudo
de poesia.
23 de novembro de 2025
Agradecimento dos 31 anos
O que mais busquei
embora não pareça
foi ser sábio.
A sabedoria, porém
é esta figura sorridente
que conheço apenas de longe.
Eu dou um passo, ela dá outro
e parece fugir
embora sorria e dance.
Não sinto que zombe de mim
mas sei que não quer
que eu a alcance.
O que mais busquei
foi ser sábio.
Porém, Senhor
usarei esse pequeno espaço
para agradecer
o não ser sábio.
Quantas coisas
por não conhecê-las
acabei por fazer
como se fossem as primeiras?
E quantos críticos
por não saber que me odiavam
eu amei
apesar disso?
Talvez nenhum
talvez cinco.
O não reconhecê-los me fez bem
como faz bem só estar vivo
com a sabedoria ao longe
sorrindo.
Obrigado, Senhor
por eu não ser sábio
embora eu prefira ser
e ter sido.
E prefira não ter dito
tanta besteira
e esquecido
tantos dias.
O prazer novo
que toda velha palavra
me causa
talvez venha disso.
Talvez eu tenha dançado
até aqui
com a novidade
da sabedoria
e nem tenha percebido
que a sua fuga
é uma dança comigo.
Obrigado, Senhor!
Sinceramente
me sinto
a cada dia
menos sábio.
E se esse for
por ironia
um sinal de sabedoria?
Senhor, obrigado.