23 de julho de 2026

O que é a janela?

Se a janela convida ao passeio
quando lá fora há sol ameno

Se a janela chama ao descanso
quando lá há chuvisco manso

O que é a janela?

O amor é a janela
em cada um aberta

Ao céu que somos
seremos
ou fomos
abre-se ela
o amor, frestas
do que dentro é casa
ao que lá fora é festa

13 de julho de 2026

A flor de bucha

Fragmento é todo o tempo
pr'essa flor de bucha brotar.
Cinco pétalas são ou serão
a sua recordação do sertão
tão sem pressas do mar...

Cinco pétalas, cinco ondas
e o ser tão linda a ondular...
Flor de bucha, áspera a vida
mas mesmo assim tão linda
tal o ser tão sertão do mar.

12 de julho de 2026

Carta ao Kafka

Tuas obras, caro amigo Franz, apesar de sua vontade triste, no futuro não estão queimadas. No futuro há muitos que leram as tuas duras palavras feitas de subterrâneo, incluindo eu, obviamente, razão pela qual escrevo esta carta.

Toda autoria morreu. Os livros podem ser escritos sozinhos pelas máquinas, chamadas inteligências artificiais. Creio que você teria algo a dizer sobre isso, talvez tenha dito. Agora estamos livres. Mas nem todos sorriem. Talvez seja o calor?

A mesma angústia corrói o ser, neste meu século, aqui, adiante do seu. Não há, porém, os consolos de outrora, mas muitos outros. A existência é mais longa, mais enfadonha, aqui.

Uma criança com muitos brinquedos pode mesmo assim fazer birra na hora de brincar. Não. Dizer "mesmo assim" está errado. É "por isso", pela abundância de brinquedos, que ela faz birra. Ela não sabe o que fazer e se perde com as próprias vontades na hora de brincar.

O nosso tempo, a despeito das carências de sempre, trouxe abundância de "brinquedos". Tenho impressão que você teria algo a dizer sobre isso.

Fique bem, meu caro amigo. Mando os mesmos aplausos inúteis e póstumos que os homens comuns, como eu, dedicam aos gênios, como você.

É bom que os teus papéis não tenham sido queimados. Creio que você também não foi, e nos encontraremos ainda, talvez em breve.

Atenciosamente,
Luiz. 

10 de julho de 2026

Eu, epiléptico

"Jesus, porém, ouvindo, disse-lhes: Não necessitam de médico os sãos, mas, sim, os doentes." - Mateus 9:12

Dos limites incendiados da existência
sob o arco sombrio do sonho
vi subir o dormente turbilhão atônito
que cobriu de mim a realidade.

Em outras palavras
eu recém descobri
que tenho epilepsia.

E quando recém de mim fugia
a tempestade chamada coragem
pelos braços do amor fui acolhido
no momento em que essa acolhida 
era em mim mais necessária
eu, epiléptico, senti-me amado
interiormente fortalecido e firme
em outras palavras.

4 de julho de 2026

O batuque da língua (brasileira)

O batuque da língua
sobre o corpo não arde
mas brinca de ser coração
como se pulsasse
sendo dentes pra mordida
do tempo que parte
o fruto vermelho da lava
de todas as tardes

O batuque da língua
sobre o corpo queima
suas inquietudes
suas longanimidades
mas teima ser sonho
e queima então como
se não queimasse

Venta o sopro da boca
sopra o vento da tarde
vermelha que como
se não ardesse
(língua) arde