20 de junho de 2026

O navegar

A vida é
a novidade da chuva
sobre a rotina do rio
sob a ira das margens
rumo à euforia do mar

A vida é
o imprevisível vento
na envelhecida vela
da solitária jangada
rumo ao véu do mar

A vida é
tão ruim de entender
mas boa de navegar
se navegada como
rumo ao colo do mar

10 de junho de 2026

As nossas copas do mundo

Ficávamos ali, sentados na calçada
à noite
depois de jogarmos bola na rua a tarde toda.
O Tiago, o Vinicius, o Fubeca (que já morreu)
embaixo da luz amarela dos postes da infância
descansávamos.
O Rafael, a Valdiane, o Alex, o Rodrigo, o Gustavo
tínhamos pretas as solas dos nossos pés
por fazermos de chinelos as traves dos gols
e mesmo se não fizéssemos
porque o asfalto daquele tempo
grudava-nos às raízes
de sermos meninos no Brasil.
A Jéssica, o Leandro, o Marquinho
o Breno, o Raphinha, o Luiz
e eu também
descansávamos ali
sob a luz amarela dos postes
verdes da infância
as nossas copas do mundo.

2 de junho de 2026

A poça, os porcos, a pérola

O verdadeiro artista é o refletir da lua em uma poça de lama no centro de um chiqueiro.

Os porcos pisam a lua, pérola da noite, e apagam na lama a luz antes refletida.

Porém a lua verdadeira, a arte, no alto permanece, mesmo depois do amanhecer.

O verdadeiro artista não é a poça, nem a lua: ele é o refletir da lua na poça.

E os porcos são os que pisam as ruas, poças, nomeadas em honra a artistas mortos.

A arte, sem o artista, não seria pisada pelos porcos, é verdade.

Mas a arte, sem o artista, também não presentearia a terra com o seu reflexo.

1 de junho de 2026

O Hexa do Brasil

Os operários que vi lixarem MDF
enquanto fofocavam a vida alheia

As donas de casa que vi catarem feijão
enquanto lamentavam o fim da feira

As idosas que vi contarem moedas
enquanto vendiam o fim da feira

As crianças que vi correrem rua
enquanto esfomeadas e birrentas

As ricas que vi sorrirem diamantes
enquanto alimentadas e satisfeitas

Os ricos que vi demitirem milhões
enquanto erigiam uma nova seita