12 de julho de 2026

Carta ao Kafka

Tuas obras, caro amigo Franz, apesar de sua vontade triste, no futuro não estão queimadas. No futuro há muitos que leram as tuas duras palavras feitas de subterrâneo, incluindo eu, obviamente, razão pela qual escrevo esta carta.

Toda autoria morreu. Os livros podem ser escritos sozinhos pelas máquinas, chamadas inteligências artificiais. Creio que você teria algo a dizer sobre isso, talvez tenha dito. Agora estamos livres. Mas nem todos sorriem. Talvez seja o calor?

A mesma angústia corrói o ser, neste meu século, aqui, adiante do seu. Não há, porém, os consolos de outrora, mas muitos outros. A existência é mais longa, mais enfadonha, aqui.

Uma criança com muitos brinquedos pode mesmo assim fazer birra na hora de brincar. Não. Dizer "mesmo assim" está errado. É "por isso", pela abundância de brinquedos, que ela faz birra. Ela não sabe o que fazer e se perde com as próprias vontades na hora de brincar.

O nosso tempo, a despeito das carências de sempre, trouxe abundância de "brinquedos". Tenho impressão que você teria algo a dizer sobre isso.

Fique bem, meu caro amigo. Mando os mesmos aplausos inúteis e póstumos que os homens comuns, como eu, dedicam aos gênios, como você.

É bom que os teus papéis não tenham sido queimados. Creio que você também não foi, e nos encontraremos ainda, talvez em breve.

Atenciosamente,
Luiz.