30 de março de 2026

A graviola tomada por formiga

Ah graviola feia fruta
grave está a sua pele
tomada por formiga

Esta fartura suja
a mim entristece
e também ensina

O fim a morte tua
mesmo podre fere
vida na chaga viva

Na fome dura
a carne recebe
mil mordidas

Que meu nome suma
que meu sumo seque
a minha semente fica

21 de março de 2026

No Dia Mundial da Poesia

Ah se vocês soubessem
como é bom ser poeta
olhar a própria vida
nos poemas antigos
como quem assiste
a uma novela
e ter cantos
nestas palavras
que se bifurcam
em muitas setas
apontando aqui ali
um entender depois
o que aconteceu
ao escrever
a rima certa
como ficam belos
os rios antigos
e belas ficam
as antigas pedras
e no hoje ficam
lindos os dias
lindas as noites
mesmo as sérias
feitas de castelos
mesmo os feios
lá dentro a ventania
de todos os verbos
e o olhar o olhar
de tantas coisas
tingido no azul
de ser poeta
verso foz vida faz
a vida
esta clareira aberta
ah se vocês soubessem
como é bom ser poeta
ninguém não seria
juro
ninguém teria
outra cela

10 de março de 2026

Axiologia

O som das águas é o som do pensamento
de todos os rios ou do rio da infância
à sombra de diferente e idêntico cajueiro

Tudo dorme e no entanto
é como se tudo estivesse desperto
de imenso desespero
amoroso, pacífico, terrível
imenso desespero
à sombra daquele cajueiro
em que estive criança
e em que estou ainda
desde então, inteiro

5 de março de 2026

Antes de Dante, Olívia havia

Antes de Dante, Olívia havia
esperando nascer Dante
um dia.

Um dia nasceu Dante
grande alegria
e dali em diante
Olívia tinha Dante
e Dante Olívia tinha
dois irmãos, vibrantes
rimas.

Antes de Dante
Olívia havia.

Agora há Dante
agora há Olívia
e há essa bonita
coisa pequenina
chamada gigante
verdadeira alegria!

Que até já existia
mas não tão brilhante
aos seus pais radiantes
nem com tanta vida.

3 de março de 2026

Terceiro canto da desaparição

Aqui é o fim do mundo oh aqui é o fim do mundo
canta um corvo sobre o teu triste corpo insepulto.
Nenhum outro canto se ouve, nem ainda túmulos
existem a recolher nestas covas sequer sussurros.

Mas o corvo canta, enquanto as suas asas cansam
o mesmo vento que às bandeiras rasga uma dança.
Teu cadáver não ouve o mal estalar das flâmulas
cuja música soa igual ao perfume de mil chamas

e que te fariam sorrir, pobre soldado, por ouvir
nestas árias toda a ruína sobre a guerra porvir.
Contra quantos antigos hinos inúteis seria elixir

este torto canto corvo em tanta nenhuma vida!
Aqui, quem diria, muito cântico perfuma ainda
este tão longo fim do mundo que não termina.