Ser racional a ponto
de me tornar sensível
ser minucioso a ponto
de me fazer objetivo
aquele que quero ser
carrego em sonho
aqui eu ele comigo
convém ele viver
à véspera de pronto
enquanto eu vivo.
24 de maio de 2026
Enteléquia
20 de maio de 2026
Os dias às vésperas de
Que grande quando há
nos dias às vésperas de!
É só ali que a espera fará
habitar no ainda o já ser.
Cem mil rios indo ao mar
são os dias às vésperas de.
Não convém se apressar...
Logo mais nós vamos ver.
13 de maio de 2026
13 de maio de 1888, 15 de novembro de 1889
Não sabeis?
A ilha
fez-se república.
E então
enfim
chamam-se irmãos
os de costas marcadas
e os donos das mãos
que os chicoteavam.
Este cheiro francês
de lavanda
os campos cheios de sol
a língua acariciada
pelo torresmo
ainda quente.
Não sabeis, irmão?
Apesar dos braços
o coração, um músculo
invencível e vermelho
como farol, vísceras
de liberdade e arrebol
enquanto
sangues e espadas
chicotes e facas
cheiram a ferro
irmão
e futebol.
1 de maio de 2026
Elogio da Nostalgia
Perder um amor não é apenas tristeza.
Há, de repente, em tudo o que houve
um alastrar de chamas da maior beleza
chamas coloridas pelo impossível azul
dos céus que há na memória da infância
e que no coração de cada um rastejam.
Perder um amor não é apenas dor.
Mesmo quando não banhada a perda
pelas melhores músicas e manhãs
douradas, circundadas, leves
o seu fim é a longa coroação breve
de ter havido ali outrora a certeza
chamada amor, mesmo que agora
a perda triunfe o seu reinado
por fim nostalgia nomeado
ou cinzas ou chamas, que seja.
Todo elogio a nostalgia elogia
ao que guardou a ela em si
este azul belo imenso dia.