14 de fevereiro de 2026

Enquanto é carnaval

Tentativa de desenhar a bandeira do Brasil em um poema

Eu amo o Brasil como amo seus fins de tarde no verão
quando o laranja também de brasas é o adeus do sol
no horizonte após os dias de chuva intermitente

É tão fácil o amor ao Brasil porém tão difícil
como pensar em seus tantos quilômetros
pobres e ricos que jamais verei inteiramente

Eu jamais te verei inteiramente com estes olhos
agora úmidos de pensarem nisso e de verem o sol
que o verão guarda entre os seios enquanto é carnaval

9 de fevereiro de 2026

O pouco e o Todo

"Mas, amados, não ignoreis uma coisa, que um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia. O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a têm por tardia; mas é longânimo para conosco, não querendo que alguns se percam, senão que todos venham a arrepender-se." - 2 Pedro 3:8,9

Falta pouco, tão pouco

para a carcaça da terra
receber as estrelas
da visita do fogo.

Falta pouco, tão pouco

para um novo fôlego
soar na trombeta
o som de seu sopro.

Falta pouco, tão pouco

para a justiça eterna
vir e trazer com ela
o fim, o início, o Todo.

3 de fevereiro de 2026

ela e ele

ela disse eu amo o verão
os campos verdes as chuvas torrenciais
depois o sol terrível o azul vivo do céu
as nuvens gordas e triunfantes

ele disse
você não pensa nos que não têm casa
e nos que têm mas sofrem com enchentes
a mastigar seus muros?

ela disse eu amo o inverno
com seu jeito ameaçador de uivar
aos músculos estriados das árvores
com seu cheiro de chá e de colo
com seu vitorioso cheiro de casa

ele disse
você não pensa nos que não têm comida
e nos que têm mas não da que precisam
para esquentar as suas noites?

um dia ele morreu
triunfante o sol parece sorrir
ela disse
com o azul do céu entre os dentes
após uma tempestade daquelas

16 de janeiro de 2026

Breves cartas aos ansiosos: carta 10, pantera

"A pantera negra; e as estrelas?"

Essa frase (escrita solta assim mesmo por João Guimarães Rosa em seu Ave, palavra) é uma boa ilustração de como estar insatisfeito com o presente pode enfeiar a realidade.

Você, imagine, está diante de uma pantera negra, uma das coisas mais lindas da criação inumerável. O seu corpo esguio, o seu olhar altivo e o seu pelo brilhando negro como a noite! Espera, como a noite? Pois, então, onde estão as estrelas?!

Olhos ansiosos sempre buscam pelo que não há, para então se lamentarem sobre isso.

Estar satisfeito? Mas isso seria como cuspir nos seus sonhos! Assim o ansioso cogita. Como estar satisfeito com a vida, se você ainda não foi a Paris? Se você ainda não se casou, se ainda não teve um filho, se ainda não viu o seu time ser campeão? 

Parece que falta algo. Mas quando não parecerá que falta algo? Porque a ansiedade muitas vezes atende pelo nome completo de não ter aprendido a estar satisfeito. Você medita sobre o futuro, ansioso pelos marcos imaginários. Um prêmio, uma casa, achar-se suficientemente belo. "E as estrelas?"

Os sonhos são projetos de realidade, como mapas. Não se espera que a integralidade de um lugar esteja no mapa, mas que esse desenho seja um esboço que nos guie dentro da realidade. Em outras palavras, a vida é superior ao que se sonha sobre ela.

A pantera negra, como a noite sem estrelas. Porque há noites sem estrelas, também, e é bom que seja assim. Esteja satisfeito em contemplá-la. Apenas cuidado (sem ansiedade, se possível) com os seus dentes.

14 de janeiro de 2026

A desigualdade da tempestade

A tempestade esta espada
forjada em relâmpago
arde suas chamas
inunda as estradas
e cheira a sândalo

Em outras palavras
a tempestade é bela
nos jardins herdados
e terrível nas favelas
de becos inundados

A tempestade esta espada
afiada no relâmpago
ergue suas garras
rosna cem guitarras
e adormece ronronando

Sua dor é mais onde
tempestade
sua dor é mais onde
do que quando

10 de janeiro de 2026

Fuga

Onde deixei, o piano perguntou,
aquela carta de amor?
Aquela mesma que dizia
ter alguém amado um dia
o que fui e o que sou?

Onde deixei?
O piano perguntou.
E a viola disse: eu não sei,
senhor.

Já buscou, perguntou a viola,
no jardim entre as rosas?
E em meus olhos, já buscou?
Assim ela perguntou
sorrindo como quem chora.

Já buscou?
Insistiu a viola.
E o piano então soou
uma alegria nova.