28 de setembro de 2024

O tigrinho e os boizinhos

Havia naquela sala cinco telas acesas e dez olhos quase estáticos sobre quatro delas. 

O pai e a mãe, olhando seus respectivos celulares, às vezes riam pelo nariz, em pequenas bufadas, mas os dois adolescentes nem isso faziam e pareciam congelados nas extremidades leste e oeste do longo sofá. 

O volume dessas quatro telas era inaudível uns aos outros, pela distância, e apenas a TV se fazia uma ponte de som entre todos ali. 

Como a luz estava apagada e ninguém prestava atenção na TV, levaram um bom tempo para perceber que a luz tinha acabado. Quem percebeu foi o pai que, depois de rir um pouco pelo nariz, após ver o vídeo de dois políticos trocando socos, resolveu se espreguiçar e tomou nota da ausência da novela.

– Ué, a luz acabou?

Ele era um homem baixo, gordo e com bastante cabelo para sua idade. Tinha por volta dos 55 anos, mais de 5 décadas de vida quase sem pensamentos profundos, o que talvez explicasse seus olhos castanhos levemente bovinos.

Como ninguém respondesse, ele insistiu.

– Vanusa, a luz acabou?

Ao ouvir o próprio nome, a mãe parecia como que despertando de súbito de um sonho mau. Olhou para os filhos, olhou para o marido, olhou para a lâmpada e depois para a TV.

– Não sei, Cido, parece que acabou.

Resmungando, ela se levantou da cadeira em que uma hora antes tinha jantado e testou o interruptor. Realmente, a luz tinha acabado.

– Essa agora! Minha bateria tá quase acabando!

A palavra “bateria”, assim como antes a palavra “Vanusa”, parecia ser o nome em comum dos dois adolescentes, já que, como um relâmpago, ambos pareciam acordar agora de um sonho mau. Eles se olharam.

A menina se chamava Flávia e tinha algum princípio de beleza, de queixo pequeno e boca sarcástica, mas sem muita vida em suas feições. Era levemente histérica e trazia o mesmo olhar bovino do pai.

O menino se chamava Miguel e era como se não existisse. Ao contrário da irmã, sequer consolava-se nele o princípio de beleza jovem que logo ela também perderia. Havia uma espécie de temor contínuo em seu rosto, por baixo do cabelo seboso.

– E agora? Eu só boto pra carregar na hora de dormir, tá quase acabando aqui também! – disse Flávia.

O pai, a mãe e a filha, então, puseram a debater aquilo. O pai estava consternado, contava com a luz para ver o jogo de logo mais. A mãe, que ainda não tinha lavado a louça, odiava a ideia de dormir com pratos e panelas sujos aguardando na pia e disse que procuraria a lanterna em algum lugar. A filha, falando cada vez mais alto, apenas soltava reclamações soltas e pensava se não seria mesmo melhor sumir da conversa com o ficante para soar misteriosa.

Os três, cada um a seu modo, esperavam pelo fim das baterias como quem espera uma catástrofe inevitável. “Aí vem o caminhão do matadouro”, diria um boi, ao passo que o outro lhe responderia algum “foi bom pastar com você, amigo”.

Claro, havia um exagero em tudo isso. E, conforme, nos próximos minutos, os sons de aviso dos celulares se intensificaram, eles andavam pelos cômodos da casa escura, perdidos, com exceção do rapaz.

Uma hora depois, quando já não havia energia nas baterias dos celulares da filha, do pai e da mãe, lembraram do Miguel, já que não encontraram a lanterna e o único lugar em que havia luz ainda era a tela do celular dele.

– Filho, você ainda tem bateria? - disse o pai, lambendo os beiços diante da perspectiva de acompanhar o jogo pelo celular de Miguel.

O menino levantou os olhos, aterrorizado. Puxou para mais perto do rosto o celular e, como em um casulo, curvou o corpo magro sobre o sofá.

A mãe, vendo aquilo e achando estranho, pediu para ver o que ele estava fazendo. Aterrorizado, quase tremendo, ele negou o pedido.

– Menino, o que você está fazendo? Me dá esse celular, Miguel!

Ele, sem ousar tirar os olhos do celular, balançava nervosamente a cabeça. A irmã então arrancou inesperadamente o celular da mão dele, com a força da curiosidade nos pulsos. Olhou para a tela e entregou o celular para a mãe. 

– Eu não acredito nisso! Miguel, você tá jogando o jogo do tigrinho?!

Em uma das raras conversas recentes que tinham construído, a família havia citado o assunto. Um dos colegas de trabalho do Cido estava internado em uma clínica para dependentes após vender quase tudo o que tinha em casa para jogar em um site de apostas como aquele.

Na ocasião do assunto, o pai contou que o seu avô tinha perdido há muito tempo algumas fazendas em jogos de sua época. “Talvez eu fosse rico hoje em dia”, ele disse, lamentoso. 

Considerando isso, o pai e a irmã estavam boquiabertos olhando para Miguel. A mãe gritava, com mínimas variações, o que disse inicialmente. 

– Eu não acredito que você tá jogando! Eu não acredito!

Como quem toma fôlego, Miguel resolveu contar o que estava acontecendo. Antes, porém, precisava afastar a cortina e olhar pela janela, para confirmar o que já desconfiava.

– Gente, eu juro que comecei ganhando! Eu juro! Achei que ia dar pra mudar de vida!

Miguel não ousava mais olhar para ninguém e seus olhos estavam fixos para a própria mão aberta, como se ali ainda houvesse a tela de um celular.

– Foi por isso que eu peguei um dinheiro emprestado, eu…

Pai, mãe e irmã disseram as piores interjeições que conheciam e interromperam o que ele dizia. Ele levantou a voz, porém, e começou a falar rápido, porque precisava terminar de contar para a família.

– Eu tinha certeza que a cartinha ia vir, que eu ia ganhar, ficar rico! Por isso peguei dinheiro com o Marcos agiota! Quem me apresentou foi o vizinho de cá, achei que daria! E olha, eu perdi quase tudo, não consegui pagar! Hoje… Eu… Ele disse que ia me pegar e eu estava tentando ganhar alguma coisa agora pra pagar e o vizinho quando eu contei disse que ele costuma cortar a luz um tempo antes de invadir a casa de quem deve pra cobrar, olhem pra fora, olhem! É só aqui em casa que tá sem luz!

Eles olharam.

Estupefatos, agora, não disseram nada por alguns segundos. Quando Vanusa ia abrindo a boca de novo, dois murros explodiram na porta. 

O desespero escorreu pelos olhos de todos. Mais dois socos na porta, porém, e aquele som lembrou ao pai o vídeo que ele vira há pouco, dos políticos se batendo.

Então ele riu, pelo nariz, uma bovina bufada derradeira.

26 de setembro de 2024

Canção de elogio à adolescência

Adolescência muita opinião pouca inteligência No entanto ah que multidão só ali teve essência

Quantos só ali poemas farão sob sebo, carência

Espinhos, espinhas
carnegão
e indolência

Quantos só ali ah
roerão da paixão
a sua violência

E roerão da vida
seu verão
sua ardência

Vale a pena ah
tanta confusão
vale a penitência

23 de setembro de 2024

O aproveitar a vida

"Mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede, porque a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que salte para a vida eterna." - João 4:14

Muitos há que percorrem oceanos
e cruzam matas, montes, anos
em busca do aproveitar a vida.

Muitos há que percorrem mil vilas
e cidades, entre litorâneas e andinas
em busca deste grande sonho.

Poucos, porém, destes percebem
que a vida que tanto perseguem
neles jaz aproveitada e habita.

Como alguém que morresse de sede
nadando num rio contra a corrente
ao buscar além a fonte prometida.

11 de setembro de 2024

As duas cidades da minha infância

Ao passar por Bebedouro
achei que teria sede
assustei em pouco tempo
que o nome era de enfeite
montei de manhã num touro
manso, avoado, gordo
e fui embora de repente

Ao passar por Valentim
achei que teria coragem
mas como era diminutiva
a valentia da viagem
montei logo num pinguim
mais bom do que ruim
e fui embora sem saudade

27 de agosto de 2024

A morte daquele que fazia versos

Texto de 2017, revisitado na ocasião do falecimento do poeta Castro Guerra

Quando um poeta morre, morre um som dentro da voz do vento.

As águas sentem um menor movimento dos peixes, a terra um menor trotar dos cavalos, o ar um menor trovejar de pássaros. Enquanto a melancolia esculpe os gestos com chuva em torno dos castelos, rainhas incendeiam os livros, misturando as cinzas das páginas a suas lágrimas, quando um poeta morre.

Os anciões se curvam, com boa voz, para tentar explicar às crianças o que aconteceu: "O poeta dizia o que a gente não podia, quer dizer, o amanhecer das palavras". "Mas então", uma menininha pode perguntar, "não tem mais de manhã?". "Se vocês continuarem sendo o que são, sempre teremos", eles respondem. Então as crianças entendem que devem continuar inventado o mundo e saem dali correndo tristes porém sorrindo.

Quando um poeta morre nasce um poeta nos olhos de cada menino.

Quando um poeta morre, nuvens diferentes deslocam-se do oriente e aninham-se no peito dos sensíveis. Os alicerces azuis que sustentam os astros fremem mansamente pelo sopro de pesar das musas. 

As musas, inclusive, que por muito tempo forçaram-se indiferentes ao amor que o poeta lhes dedicava, agora podem chorar uma saudade amendoada de ouvir a voz dele, de cheirar seus cabelos, de saber-se objeto de um amor impossível aos homens menores, em seus olhos que se aligeiram em parecer olhos de futuras mães - pois é sempre pelo ventre de uma musa de outrora que um poeta nasce.

Por isso é preciso ser poeta, para que a nossa morte desloque grandes coisas sobre a Terra.

17 de agosto de 2024

O elogio das artes: literatura

Se o mundo fosse jardim, cada um pensaria ser a flor única.

Se o mundo fosse tessitura, cada um pensaria ser o fio de ouro
entre tantos fios de algodão cru.

Por isso, literatura, teu é o reinado das artes.

Porque és o espelho que veste a todos de protagonista.

Porque és o espelho que veste a todos de musa.

Porque há vaidade, literatura, e a tua nobreza é dar de beber a todos
os que quiserem da água do sonhar ser.

Tua é a razão de haver heróis.

E canções, histórias, pinturas, esculturas sobre eles
que queríamos sermos nós.

Tua é, enfim, a razão da haver musas.

E por ti tantas vidas sonhadas passaram a existir. 

Do exagero, da palavra, do entusiasmo de estar vivo.

E saber-se um dia morto.

Sendo a vida cotidiana menor do que a vida imaginada.

Literatura, mentira não nos contaste.

Mas fantasia nos deste.

Todos os meus músculos, que são reais, estremecem
diante de tua voz solar.

A fuligem da história, a lâmina da rima, o chover do ritmo.

Todos os meus músculos tornam-se os fios de ouro
que eu, se o mundo fosse tessitura, pensaria ser.

Teu é o reinado das artes.

E sob teu cetro prosa e tua coroa poesia
marcham as demais artes.

Sonhando pela tua língua serem lembradas.

16 de agosto de 2024

O elogio das artes: pintura

Uma folha pincelada por vez.

O sol, aos poucos o céu.

Depois os olhos de alguém.

De aos poucos, sim, é feita a pintura.

Um azul por vez.

Lembra a manhã, aos poucos tingindo
de rosa e laranja a madrugada.

Lembra amadurecer, embora se pintada verde
a banana do quadro nunca apodrece.

Lembra amadurecer porque a vida é
as flores serem pinceladas uma por vez.

A luz, farol de pintar, aos poucos revelada.

Brilhando mais e mais até ser dia perfeito.

A cor de certa ruga, a doença de certa moda.

A manga, a mangueira, a fome.

Velhice, juventude, o jamais apodrecer.

Tempo.

Pintar as coisas exige tempo.

Demora muito, para durar mais.

Esperar a verde cor da paciência amadurecer.

O elogio das artes: arquitetura

O coração da arquitetura
é o habitar seguro de maneira bela.

Morar, demorar, rememorar.

Esculpir a paz com tijolos de terra.

Antiquíssimo sonho és, arquitetura.

E lembras o sorriso familiar
da minha amada.

Arquitetura, teus contornos cantam
como canta uma criança.

Porque embora sejas grandiosa.

E de grandiosas mãos.

Sempre cabe a ti o espanto.

De nomear o que é recém nascido.

E sempre cabe a ti realizar.

Do antigo sonho a novidade.

Por ser teu dom o de durar
e teu corpo o de ser útil, arquitetura.

Que de cada canto
dos prédios flores nasçam.

Como de cada canto de ti
nasce a audácia.

E que o consolo a nós
que não temos casa.

Seja a beleza que deixas escorrer
por entre as frestas.

Do concreto, que diferente de ti.

É sem asas.

14 de agosto de 2024

O elogio das artes: teatro

O mundo é um palco.

Disse uma voz antiga.

O nojo de ser visto, as faces de desprezo na plateia.

Tornar-se outro para fazer o parto do som de aplausos.

Tornar-se outro, muitos outros.

Para ser amado.

Ou odiado, conforme convém.

Sim, o mundo é um palco.

E o teatro é o palco menor dentro.

De um imenso palco que é o mundo.

Vocês riem? Vocês choram?

Têm medo?

Não tenham medo, ainda sou eu.

Por baixo desta horrenda máscara.

Ainda sou eu, ainda mais horrendo.

Por baixo desta horrenda máscara.

Um dia, teatro, você era sombra
na parede da caverna.

Dançando heróis para dentro
das sombras do coração humano.

Hoje, permaneces isso.

Sombra, teatro.

Sombra.

Pensando bem, sim, tenham medo.

Muito medo.

Afinal, o mundo é um palco.

De cortinas abertas.

Que ficou velho antes de ficar sábio.

13 de agosto de 2024

O elogio das artes: música

Dentro do ventre materno estavas.

Estavas porque você, música, é das artes a única
que mesmo feita fora percebe-se dentro.

O cheiro do som espalha-se através.

Através dos anos.

Através dos muros.

Através da tempestade.

Através, também, das paredes do útero.

Erudita, popular, universal.

Talvez por isso tão torturada, tão retalhada.

Tuas costas em sangue, teu dorso de sonho
rasgado pelos que te cantam sem te amar.

Música, quanto te devo.

Rainha, princesa, prisioneira.

Do desprezo de amor dos ondes.

Do amor de desprezo dos quandos.

Pouco pedes, música, tudo dás.

Embala os órfãos entre os teus seios.

Eu te amo, música, eu te amo de um amor
doente de não poder compô-la.

Em perfume, cordas, sopro, percussão.

Cálices de consolo, de alegria e tristeza.

Nada tenho com o que presenteá-la.

Nada.

Mas tudo o que tenho, música, te dou.

Tudo.

Isto é, o meu silêncio.

12 de agosto de 2024

O elogio das artes: dança

Das artes, a dança é a única que só existe no agora.

É a única arte túnica, que voa no vento.

Mesmo a música, tão ao vivo, é suas partituras.

Mesmo o teatro é a sua literatura.

Mas a dança é a escultura do corpo vivo.

A dança é a arquitetura do corpo vivo.

O poema em suor e ossos.

A dança é síncrona, sempre.

Talvez a que menos se assemelhe às outras
em ser afeita aos museus.

Acho a dança o contrário do museu.

O museu é túnica que guarda para revelar.

A dança é túnica que revela para guardar.

Ambos se movem, é verdade, sob os olhos.

Mas só a dança é levada pelo vento.

11 de agosto de 2024

O elogio das artes: escultura

O mármore esculpido parece ser a memória.

A palavra memória mesmo recorda a palavra mármore.

É o momento congelado em um determinado espaço
embora o tempo seja outro.

Não parece ser a lembrança, o mármore esculpido.

O que diferencia memória e lembrança, você me pergunta.

A memória é a cumbuca cheia de sopa, esculpida para este fim.

A sopa que está nela sopramos, então sentimos o seu aroma
e isso nos dá fome.

Lembrança, porém, é o descer a colher para dentro da sopa
e levá-la de volta até a boca.

A escultura é a memória.

Estática.

Mas em movimento quando lembrada,
escultura bem feita, no mármore estático de ter vivido.

6 de agosto de 2024

Casar-se

A minha esposa tem na porta de seu quarto
um bordado que ela mesma bordou pendurado.
Quase todos os dias deixo ali uma florzinha
posta no vão entre a porta e o bordado.
Ela todo dia se espanta.

3 de agosto de 2024

O smartphone

Como se aos homens fosse agora dado
o cetro de governar mundos inteiros
e fosse ordenado a eles como pagamento
que não governassem mais a si mesmos
- o smartphone reina e é reinado.

Embora vibre como as coisas vivas
pulsam sob a pele que lhes cobre
o smartphone não respira, embora
haja ar dentro dele que se move.

Este morto cetro plano, fino, quadrado
feito de quinas e plástico, de luz e aço
possui esquinas macias
como macia não é a vida
e como macia é a sua tela ao tato.

Macios são seus olhos filmando
os rostos macilentos mas filtrados
com macias câmeras cujo pastoreio
consiste em fazer belo o feio
e mutilar dos corpos o errado.

Como se aos homens fosse agora dado
o cetro de governar mundos inteiros
e fosse ordenado a eles como pagamento
que não governassem mais a si mesmos
- o smartphone reina e é reinado.

O rei mantém essa coroa como refém
sendo igualmente refém dela o coroado.
Eis o cetro cujo controle é ser também
ele próprio controlado.

31 de julho de 2024

Hoje faz 10 anos que publiquei o meu primeiro livro. Eu tinha 19 anos e aquele foi um dos dias mais felizes da minha vida.

Desde então, no que diz respeito ao meu trabalho como escritor, publiquei mais quatro livros. Embora esse primeiro livro tenha sido um fracasso de público, assim como todas as minhas obras posteriores até hoje, fico feliz ao relembrá-lo.

Isso faz dele, contraditoriamente, também um grande sucesso, já que publicar foi a materialização entre capas daquilo que faço e continuo a fazer por amor.

O volume 2 dessa mesma obra, inclusive, é dedicado para meu avô Luiz e para minha avó Teresa, que faleceria poucos meses depois, ainda em 2014. Por amor escrevi e dediquei a eles, como por amor se deve viver.

Relendo-o, não o considero um bom livro. Mas considero bom ter acreditado nisso que existe em mim, não como um hobby, nisso que existe em mim como trabalho, razão, vida e amor: escrever.

Parabéns, primeiro livrinho. 


28 de julho de 2024

O chá no domingo à noite

O chá é uma espécie de beijo
desde que se soprado arome
descanso no morno silêncio
e que a ele também se some
uma noite de clima ameno
- noite, a espécie de beijo
feito de melissa ou medo
quando nela percebemos
o tempo que foi perdido
com o medo
de não perdermos tempo.

23 de julho de 2024

Humanos todos quase são poças

Rasas, rasas, pequenas
ou grandes, as poças
desconhecem asas
a não ser quando
refletem-nas
sem pensá-las.

Poças, poças, se pisadas
turvam-se e enxaguam
pés e patas, turvam-se
quando cospem-nas
também as bocas.

Humanos, húmus
rebanho, todos
quase são poças
(poucos os poços)
poças pisadas, rasas
insensíveis mesmo
se as asas do céu
elas refletem
pois sem de volta
olhá-las.

20 de julho de 2024

O senti nela

Toda noite é o fim do mundo.
Toda manhã, o seu recomeço.
Bandeiras tremulam no escuro.
Trovejam. Cantai, eu adormeço.

Toda noite é o fim do mundo.
Toda manhã, o seu recomeço.
Espadas inúteis contra muros
são meus olhos nos imensos

abismos da noite, tão fundos
e feitos de solidão, silêncio.
Toda noite é o fim de tudo.
Mas da manhã ela tem medo.

9 de julho de 2024

O não ser lido

Mesmo se não houvesse portos
os navios existiriam, porém
também aos portos eles rumam.

Mesmo se não houvesse ouro
os adornos brilhariam, porém
também pelo ouro eles brilham.

Mesmo se não houvesse outros
eu ainda escreveria, porém
também para os outros escrevo.

Quais outros?
Qual ouro?
Quais portos?

Teu é o dia e tua é a noite, Senhor.
A mim coube apenas escrever.

5 de julho de 2024

Oratórios Ipês

Eu quis adornar de palavras
o meu país pra quê? Já há ipês.
Em dificuldades de pouca chuva
o ipê em vendavais flore, embora.
Finais de junho, às vezes, pipas
decorando árvores quase secas.

Eu quis fingir flores na língua.
Pra quê? Há ipês. Alguns
rosa-melodia, cor no beijo
da esposa, outros ouro-sim
ou branco-sal e roxo-sol.

Ipês (vivos) faço de oratório.
E agradeço no haver ipês
o anúncio de Deus haver
quando neles ajo meus olhos.