16 de agosto de 2024

O elogio das artes: arquitetura

O coração da arquitetura
é o habitar seguro de maneira bela.

Morar, demorar, rememorar.

Esculpir a paz com tijolos de terra.

Antiquíssimo sonho és, arquitetura.

E lembras o sorriso familiar
da minha amada.

Arquitetura, teus contornos cantam
como canta uma criança.

Porque embora sejas grandiosa.

E de grandiosas mãos.

Sempre cabe a ti o espanto.

De nomear o que é recém nascido.

E sempre cabe a ti realizar.

Do antigo sonho a novidade.

Por ser teu dom o de durar
e teu corpo o de ser útil, arquitetura.

Que de cada canto
dos prédios flores nasçam.

Como de cada canto de ti
nasce a audácia.

E que o consolo a nós
que não temos casa.

Seja a beleza que deixas escorrer
por entre as frestas.

Do concreto, que diferente de ti.

É sem asas.

14 de agosto de 2024

O elogio das artes: teatro

O mundo é um palco.

Disse uma voz antiga.

O nojo de ser visto, as faces de desprezo na plateia.

Tornar-se outro para fazer o parto do som de aplausos.

Tornar-se outro, muitos outros.

Para ser amado.

Ou odiado, conforme convém.

Sim, o mundo é um palco.

E o teatro é o palco menor dentro.

De um imenso palco que é o mundo.

Vocês riem? Vocês choram?

Têm medo?

Não tenham medo, ainda sou eu.

Por baixo desta horrenda máscara.

Ainda sou eu, ainda mais horrendo.

Por baixo desta horrenda máscara.

Um dia, teatro, você era sombra
na parede da caverna.

Dançando heróis para dentro
das sombras do coração humano.

Hoje, permaneces isso.

Sombra, teatro.

Sombra.

Pensando bem, sim, tenham medo.

Muito medo.

Afinal, o mundo é um palco.

De cortinas abertas.

Que ficou velho antes de ficar sábio.

13 de agosto de 2024

O elogio das artes: música

Dentro do ventre materno estavas.

Estavas porque você, música, é das artes a única
que mesmo feita fora percebe-se dentro.

O cheiro do som espalha-se através.

Através dos anos.

Através dos muros.

Através da tempestade.

Através, também, das paredes do útero.

Erudita, popular, universal.

Talvez por isso tão torturada, tão retalhada.

Tuas costas em sangue, teu dorso de sonho
rasgado pelos que te cantam sem te amar.

Música, quanto te devo.

Rainha, princesa, prisioneira.

Do desprezo de amor dos ondes.

Do amor de desprezo dos quandos.

Pouco pedes, música, tudo dás.

Embala os órfãos entre os teus seios.

Eu te amo, música, eu te amo de um amor
doente de não poder compô-la.

Em perfume, cordas, sopro, percussão.

Cálices de consolo, de alegria e tristeza.

Nada tenho com o que presenteá-la.

Nada.

Mas tudo o que tenho, música, te dou.

Tudo.

Isto é, o meu silêncio.

12 de agosto de 2024

O elogio das artes: dança

Das artes, a dança é a única que só existe no agora.

É a única arte túnica, que voa no vento.

Mesmo a música, tão ao vivo, é suas partituras.

Mesmo o teatro é a sua literatura.

Mas a dança é a escultura do corpo vivo.

A dança é a arquitetura do corpo vivo.

O poema em suor e ossos.

A dança é síncrona, sempre.

Talvez a que menos se assemelhe às outras
em ser afeita aos museus.

Acho a dança o contrário do museu.

O museu é túnica que guarda para revelar.

A dança é túnica que revela para guardar.

Ambos se movem, é verdade, sob os olhos.

Mas só a dança é levada pelo vento.

11 de agosto de 2024

O elogio das artes: escultura

O mármore esculpido parece ser a memória.

A palavra memória mesmo recorda a palavra mármore.

É o momento congelado em um determinado espaço
embora o tempo seja outro.

Não parece ser a lembrança, o mármore esculpido.

O que diferencia memória e lembrança, você me pergunta.

A memória é a cumbuca cheia de sopa, esculpida para este fim.

A sopa que está nela sopramos, então sentimos o seu aroma
e isso nos dá fome.

Lembrança, porém, é o descer a colher para dentro da sopa
e levá-la de volta até a boca.

A escultura é a memória.

Estática.

Mas em movimento quando lembrada,
escultura bem feita, no mármore estático de ter vivido.

6 de agosto de 2024

Casar-se

A minha esposa tem na porta de seu quarto
um bordado que ela mesma bordou pendurado.
Quase todos os dias deixo ali uma florzinha
posta no vão entre a porta e o bordado.
Ela todo dia se espanta.

3 de agosto de 2024

O smartphone

Como se aos homens fosse agora dado
o cetro de governar mundos inteiros
e fosse ordenado a eles como pagamento
que não governassem mais a si mesmos
- o smartphone reina e é reinado.

Embora vibre como as coisas vivas
pulsam sob a pele que lhes cobre
o smartphone não respira, embora
haja ar dentro dele que se move.

Este morto cetro plano, fino, quadrado
feito de quinas e plástico, de luz e aço
possui esquinas macias
como macia não é a vida
e como macia é a sua tela ao tato.

Macios são seus olhos filmando
os rostos macilentos mas filtrados
com macias câmeras cujo pastoreio
consiste em fazer belo o feio
e mutilar dos corpos o errado.

Como se aos homens fosse agora dado
o cetro de governar mundos inteiros
e fosse ordenado a eles como pagamento
que não governassem mais a si mesmos
- o smartphone reina e é reinado.

O rei mantém essa coroa como refém
sendo igualmente refém dela o coroado.
Eis o cetro cujo controle é ser também
ele próprio controlado.

31 de julho de 2024

Hoje faz 10 anos que publiquei o meu primeiro livro. Eu tinha 19 anos e aquele foi um dos dias mais felizes da minha vida.

Desde então, no que diz respeito ao meu trabalho como escritor, publiquei mais quatro livros. Embora esse primeiro livro tenha sido um fracasso de público, assim como todas as minhas obras posteriores até hoje, fico feliz ao relembrá-lo.

Isso faz dele, contraditoriamente, também um grande sucesso, já que publicar foi a materialização entre capas daquilo que faço e continuo a fazer por amor.

O volume 2 dessa mesma obra, inclusive, é dedicado para meu avô Luiz e para minha avó Teresa, que faleceria poucos meses depois, ainda em 2014. Por amor escrevi e dediquei a eles, como por amor se deve viver.

Relendo-o, não o considero um bom livro. Mas considero bom ter acreditado nisso que existe em mim, não como um hobby, nisso que existe em mim como trabalho, razão, vida e amor: escrever.

Parabéns, primeiro livrinho. 


28 de julho de 2024

O chá no domingo à noite

O chá é uma espécie de beijo
desde que se soprado arome
descanso no morno silêncio
e que a ele também se some
uma noite de clima ameno
- noite, a espécie de beijo
feito de melissa ou medo
quando nela percebemos
o tempo que foi perdido
com o medo
de não perdermos tempo.

23 de julho de 2024

Humanos todos quase são poças

Rasas, rasas, pequenas
ou grandes, as poças
desconhecem asas
a não ser quando
refletem-nas
sem pensá-las.

Poças, poças, se pisadas
turvam-se e enxaguam
pés e patas, turvam-se
quando cospem-nas
também as bocas.

Humanos, húmus
rebanho, todos
quase são poças
(poucos os poços)
poças pisadas, rasas
insensíveis mesmo
se as asas do céu
elas refletem
pois sem de volta
olhá-las.

20 de julho de 2024

O senti nela

Toda noite é o fim do mundo.
Toda manhã, o seu recomeço.
Bandeiras tremulam no escuro.
Trovejam. Cantai, eu adormeço.

Toda noite é o fim do mundo.
Toda manhã, o seu recomeço.
Espadas inúteis contra muros
são meus olhos nos imensos

abismos da noite, tão fundos
e feitos de solidão, silêncio.
Toda noite é o fim de tudo.
Mas da manhã ela tem medo.

9 de julho de 2024

O não ser lido

Mesmo se não houvesse portos
os navios existiriam, porém
também aos portos eles rumam.

Mesmo se não houvesse ouro
os adornos brilhariam, porém
também pelo ouro eles brilham.

Mesmo se não houvesse outros
eu ainda escreveria, porém
também para os outros escrevo.

Quais outros?
Qual ouro?
Quais portos?

Teu é o dia e tua é a noite, Senhor.
A mim coube apenas escrever.

5 de julho de 2024

Oratórios Ipês

Eu quis adornar de palavras
o meu país pra quê? Já há ipês.
Em dificuldades de pouca chuva
o ipê em vendavais flore, embora.
Finais de junho, às vezes, pipas
decorando árvores quase secas.

Eu quis fingir flores na língua.
Pra quê? Há ipês. Alguns
rosa-melodia, cor no beijo
da esposa, outros ouro-sim
ou branco-sal e roxo-sol.

Ipês (vivos) faço de oratório.
E agradeço no haver ipês
o anúncio de Deus haver
quando neles ajo meus olhos.

29 de junho de 2024

Às portas dos 30 anos

Juventude, passagem
entre o entusiasmo
e a seriedade, levo
teus olhos (duas aves)
e tua boca (espasmo
íntimo) comigo: estou
vivo contigo saliva
e imagem embora
envelheça-me o juízo
e vença-me a idade

Juventude, tenra
pastagem da tolice
verde florida pela
bosta ingenuidade
- aqui me despeço

Antes tarde
do que sempre
antes perto
e às portas
do que em parte

21 de junho de 2024

Outro e ouro

Quem diz que tudo sempre é feio
(um feio de impossível novidade)
nunca amou, nunca viu o ribeiro
em que o amor transforma a cidade
infeccionando o cimento com o sol
(e com pétalas vivas suas partes)
nunca amou, nunca se fez o farol
à beleza que enfebrece a realidade.

Queres conhecer a beleza? Ame.
O amor faz sempre o mundo novo.
Terrivelmente belo é seu enxame
que tudo faz em mel outro e ouro.

16 de junho de 2024

Latumia

Há muitos meses não chove, meu irmão.
Há muitos meses eu oro por chuva
os joelhos como as pedras maceradas
contra o chão.
Se não fosse pelos olhos da amada
eu sequer lembraria em castanho
de como o cheiro de chuva abre
a beleza da espera na gente.
É fato que a falta
de haver água rasga
e seca meu coração
como esta terra.
É fato que estou cansado
como um santo
sem a alegria da santidade.
Pois se eu clamasse
por justiça, irmão
clamaria contra mim mesmo.
Eu clamo por piedade.

11 de junho de 2024

Os nomes das estrelas

"Conta o número das estrelas, chama-as a todas pelos seus nomes. Grande é o nosso Senhor, e de grande poder; o seu entendimento é infinito." - Salmos 147:4,5

É bom que tudo passe
exceto o que é eterno.

É bom que morra o mortal
e renasça o cíclico inverno.

É bom, Senhor, teres feito
o que fizeste, sem excesso.

Estrelas, talvez já mortas
mas cujo brilho externo

até nós demora, distantes
de seus nomes diversos.

É bom que tudo passe
exceto o que É eterno.

O que existe, existe: bom
é ser exato o universo.

26 de maio de 2024

O peão no xadrez

O peão muito ensina
do xadrez que é a vida.

Mover-se e atacar
de formas distintas.

Entregar-se ao que é
mais forte e acima.

Não desprezar sequer
esta ilusão mínima

em tornar-se cavalo
bispo, torre, rainha

ou ser o xeque-mate
(coisa maior ainda)

na rival aristocracia

e do escudo à espada
atravessar a fina linha.

5 de maio de 2024

Contemporâneo

A angústia mais importante
no coração contemporâneo
parece mesmo ser a grande
sensação de ter perdido
o tempo certo de fazer algo

As estações que lotearam
a dor de nossos antepassados
parecem não funcionar

Nossas estações hoje
são estações de consumo
dia das mães, dos namorados
natal, descontos, promoções
e o tédio do comprar
e o medo de ser obsoleto

Safra, seca, semeadura, colheita
palavras que pouco nos dizem
hoje
um dia foram responsáveis
por organizarem em campos
o tempo antigo

Ali era tempo de semear
ali era tempo de colher
e o afastar-se disso nos diz
algo como "tudo pode acontecer
a qualquer momento
angustie-se"

E a angústia mais importante
no coração contemporâneo
parece mesmo ser a grande
sensação de ter perdido
o tempo certo de fazer algo

Enriquecer, casar
ter filhos
conseguir retirar
de forma autônoma 
os medos de dentro
de suas armaduras

Construir um legado
que abarque
ao outro a totalidade
do que é mais belo
dentro de cada um

Amar, como se tempo
de amar
houvesse

Ai de nós
mastigados pela propaganda
ansiosos
por uma vida de rede social
ai de nós
a terra já pouco nos fala
o céu já pouco nos fala
e ficamos apenas
com nossas próprias vozes
ecos incertos
por não saberem
se estão no tempo certo
de lamentar