São doces
meus pensamentos
porque em mim é
indimensionado
o que desconheço.
Existo:
tenho dois olhos
e os mexo.
Existo:
tolo, sorrio
e pouco penso.
Mas sou sucesso!
Isso compensa
dos meus passos
os tropeços.
São doces
meus pensamentos
porque em mim é
indimensionado
o que desconheço.
Existo:
tenho dois olhos
e os mexo.
Existo:
tolo, sorrio
e pouco penso.
Mas sou sucesso!
Isso compensa
dos meus passos
os tropeços.
Agora, um brinde.
Pois apesar das modas
diferentes
algo permanente
existe.
Agora
então
um brinde.
Há tanta novidade no mundo
mas o mesmo grito surdo
há no fundo de todos
os desejos: ser amado
ainda é
o último humano
anseio.
O bebê foi substituído
o céu foi substituído
a beleza foi substituída
e o beijo.
As casas foram substituídas
as árvores foram substituídas
os inícios foram substituídos
e os meios.
Porém o fim
irmãos
é o mesmo: ser amado
ainda é
o último humano
anseio.
Mesmo a quem irrite
a necessidade do amor
persiste.
A mendicância do amor
irmãos
persiste.
Isso não merece
então
um brinde?
Para Jorge Isah e Sammis Reachers
Ruínas de árvores rasgadas
e nos restos das bandeiras
brasões recordando fogueiras.
Antigos reinos, galerias, salas
e as antigas fronteiras
cravejadas de antigas muralhas.
Às vezes penso nessas armas
idas pelos aedos cantadas
à terra mais que a si mesmas.
Às vezes penso nestas armas
que também poemas
brandimos chamadas Palavra.
Ainda há poetas de batalha.
Ainda há pois a mesma
cruz pesa mais que a espada.
Para Michele e o nosso 4º aniversário de casamento
Nos casamos no dia do livro
que é também o dia do choro.
Jorge de Lima tornou-se vivo
Shakespeare tornou-se morto
dentro deste mesmo dia lindo
que hoje faz bodas de outono.
O repentino dourado do café
quando sobre ele pousa o sol.
Pedras iluminadas em lençol
no leito de um rio da infância.
A luz do outono que avança
sob a safra futura e que já é.
Em completude ao meu poema A ética aérea do esteta, caso a ironia tenha sido nebulosa
Ver algo bonito é como desvendar um mistério.
Achar que algo existe bem, ou seja, que é belo.
Não a toa a palavra deslindar significa descobrir.
Tirar a coberta do não ver o que realmente há ali.
Nos sentirmos feios machuca tanto então
pois com isso pensamos existirmos mal
o que pode ser mentira, ou não, ou nau.
Conheci tanta coisa bela proclamada feia
e tanta feiura arvorada a coisa bela
tanto pó de ouro confundido com areia
tanta liberdade chamada de cela
que por esporte me tornei o especialista
em coisa nenhuma chamado poeta.
Vivo de procurar diamantes em pedreira
nas joalherias deslindar foscas pedras
e sorrio ao ver os véus da chuva longe
a logo trazer flores do lamaçal da terra.
Assim como deste às árvores
a unidade chamada floresta
e assim como deste às nuvens
a unidade chamada tempestade
dá, Senhor, aos dias que vivi
e às noites por mim vividas
a unidade chamada sabedoria.
"Quem desta vida amputa vinte anos, corta esses vinte do temor da morte" - Shakespeare, em Júlio César Quem tem medo da morte e morre ainda jovem ganha os anos que deixou de temer pois por menos anos terá sentido este triste temor.
Quem tem medo da morte e morre já velho aguarda mais tempo para atestar a certeza de que irá morrer e assim prolonga o seu martírio.
Não ter medo da morte. Talvez nesta frase caiba quase toda a minha felicidade.
“Porque para mim o viver é Cristo e o morrer é ganho”, disse Paulo aos filipenses esculpindo aquele momento com as mãos do fim do medo.
Não deixe que estes cacos
te convençam do contrário.
Ser sensível é tão lindo
quanto é lindo o orvalho
que existe pouco tempo
mas suficiente e exato
tempo brilhando vive
o vidro sol inevitável.
Era íntegro o copo transparente
e sua serventia foi a de ser oco.
Num dia foi areia quente.
Gelo e líquido, no outro.
Como coração de gente
esculpiram o seu corpo
pois vazio existe
quebra, se solto
e cheio exerce o carente
destino que a nós todos
foi dado: amar, encher-se,
não previne o ser quebrado
mas justifica nos beberem
isto é, sermos amados.
Entre
a segunda-feira de chamas
e a quarta-feira de cinzas
há um pêndulo
que possui ao centro
a terça-feira de brasas.
Na terça-feira de brasas
há o Brasil
um grande brasil
um sol de ícaro cio
a queimar as ceras
de todas as asas.
O som do fogo, irmão do som do mar
preencheu o silêncio sem o incomodar
igual ao do vento, este som uterino
que fez do silêncio seus cem hinos
e igual a calma canção das raízes hoje
ao interno da terra o silêncio responde.
Corredor onde reina a ausência de curvas
o nosso tempo é um labirinto em linha reta.
Longo túnel circundado por lisas paredes
tão claras e de muita branca luz estridente.
Retornar é inútil. Do atrás é que se veio
roendo passo a passo o olhar pra baixo.
Avançar é inútil. Não há ali porta futura
no fim do túnel não se vê algum escuro.
Portanto, avança-se. Mas para chegar
à metade do caminho é preciso chegar
à metade da metade do fim e para isso
à metade da metade da metade do fim.
Então, para-se. E parados estamos
tão cansados como se andássemos.
Triste ser inútil trazer o fio
de Ariadne a esse labirinto!
Antes perder-se às curvas linhas paralelas
que ao tédio de um labirinto em linha reta.
O furacão enfrenta
a borboleta
Se sem asas
mera larva
torço pro que venta
Se com asas
violetas
torço pra borboleta
A ética aérea
do esteta
torce pra beleza
Aquela lagarta esmagada
contra a folha que comia
em algum tempo seria
uma pétala alada
E voaria em poucos dias
sobre esta terra arrasada
a doar doce alegria
às vidas amargas
Quem a esmagou pensava
com isso polir o mundo
do arcaico conteúdo
do horror da praga
Pensava salvar sobretudo
a beleza da folha alada
na borboleta, o futuro
no presente, a lagarta
Do dia que conheci Inhotim, no meu aniversário de 30 anos
Nublado mas com feridas de azul
tempestava o sol a chuva tucanuçu.
Os buritis os antúrios os jequitibás
regozijavam o cambacica a cantar.
Provei jambu fiz trinta anos e beijei
os olhos da amada e da cor dos ipês.
Dia Inhotim e adiante Diadorim
que ousadia o canto do fim-fim!
O calor bom do estarmos vivos
tal qual o ir indo do regato fino.
Envelheceu a tarde nós também
jovem jaz porém te querer bem.
"Digo-vos que não sabeis o que acontecerá amanhã. Porque, que é a vossa vida? É um vapor que aparece por um pouco, e depois se desvanece." - Tiago 4:14
Nós somos
diante do ano novo
como a criança
pondo-se na ponta dos pés
para alcançar o que não vê
sobre a mesa de janeiro
Ou o adolescente
que ofega e tem a boca seca
diante do manancial
da outra boca
chamada primeiro beijo
Ficamos
semelhantes ao homem
às vésperas de receber
o filho ainda quente de mãe
em seus braços de leito
Assim somos
às portas do tempo
ainda quentes de útero
inquietos lidando
com o próximo ano
e seu mistério
novo dentro
Uma vida vivida sem
pensamento e beleza
se faz rápida refém
de terrível trincheira
Agachada e cheia
de medo, carência
tal vida só tem
a sobvivência
Farpadas cercas
seu corpo também
envolvem em presas
A vida que viva sem
pensamento e beleza
não vive: rasteja