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15 de maio de 2025

Lamento no banquete dos modernos

Agora, um brinde.

Pois apesar das modas
diferentes
algo permanente
existe.

Agora
então
um brinde.

Há tanta novidade no mundo
mas o mesmo grito surdo
há no fundo de todos
os desejos: ser amado
ainda é
o último humano
anseio.

O bebê foi substituído
o céu foi substituído
a beleza foi substituída
e o beijo.

As casas foram substituídas
as árvores foram substituídas
os inícios foram substituídos
e os meios.

Porém o fim
irmãos
é o mesmo: ser amado
ainda é
o último humano
anseio.

Mesmo a quem irrite
a necessidade do amor
persiste.

A mendicância do amor
irmãos
persiste.

Isso não merece
então
um brinde?

27 de agosto de 2018

Chacota no banquete de exposição da Política

Contemplai, contemporâneos, a Política!
Mulher alheia, selvagem, insubmissa
olhando altiva enojada para todos nós!
Contemplai o dentro em luz dessa face
a nudez honrosa de após um desastre
altivez de outrora rainha e viúva cativa.
Dói, sangra, ser olhado em fogos assim
acorrenta negro em véus o desejo de rir
nunca mais, para contemplá-la. Olhem
como seus dois seios são como mordaças
ao pequeno coração, aos quietos lábios
em cujo silêncio oleoso há mormaço
e uma sentida ausência de asas. Olhem
meus irmãos de tempo, como seu rapto
dilata o orgulho nela inédita vaidade
de se enfeiar para nos ver! Política!
É de fato verdade o que diziam
que se a vida dói a todos
a alguns a miséria purifica.

23 de novembro de 2017

Apontamento no banquete de aniversário

Os campos não aprenderam a reter mais verde e os rios ainda fluem com idêntica maestria de há 23 anos. O sol se mantém indiferente à nossa condição ínfima e mortal (indiferente à mortalidade dele próprio) e nada aponta que as intempéries rosnem com mais ferocidade. No entanto: a diferença é que desde lá existo, tenho olhos e cheiro, tenho pele e vejo, tenho nariz e toco. O universo já existia, antes de mim, a diferença é que agora ele existe.

7 de novembro de 2017

Ensinamento no banquete dos jovens pais

Se o filho pródigo não tivesse levado sua parte em ouro, ele nunca retornaria à casa paternal. Em primeiro lugar porque se desde o início ele nada tivesse a perder, ele nada teria para recuperar. Em segundo lugar porque o consentimento da família transforma a transgressão em exercício de estilo, em fruto espontâneo da adolescência. Em terceiro lugar porque ele foi odiando a mansidão do pai, seu consentimento, e a despedida banhada em ódio já planeja o retorno. Nas três razões, o mesmo mote: é o ódio quem afia o amor e o torna perfeito.

28 de outubro de 2017

Discurso no banquete dos militares

Irmãos, irmãs: vejam como parte à nossa direita o sol que surgiu de nossa esquerda, imerso de esplendor como outrora emergiu. Olhem como se vai em amálgama róseo e magma, em cascata brônzea, mênstruo e nostalgia. Quando veio, há pouco, era fogo sobre esta face do planeta. Agora nos deixa, confiante que com a parte dele em nós absorvida iluminaremos a noite. Oh, meus iguais! Conseguiremos? Antes, aos soldados era dada a honra de protagonizar os cantos heroicos que se iniciavam com a invocação da aurora. Houve o dia quando a guerra habitava o coração da poesia. Agora, a nós fica resguardado o crepúsculo, apenas, e sua subsequente anti-esperança. Antes, entre macedônios, aborígenes, entre rodas de bigas e hussardos alados, habitava o anseio pelo heroísmo que fosse cantável. Porque antes respiravam homeros, porque antes não explodíamos nossos rivais, ao detonar de um explosivo, mas olhávamos fixamente para seus olhos. Vejam como se dispõem ciclicamente as estações: ainda morremos. Porém, sem a redenção de ser pela mão direta do inimigo. Vejam como glória alguma nos oposiciona em front, quando mortos em bombardeio. Vejam como o mesmo sol que engrandecia Aquiles nos diminui! Vejam o medo, a impessoalidade, a burocracia. O tambor, sem mais demoras aqui proponho, o tambor tem que nos ser novamente a principal artilharia.

27 de outubro de 2017

Solilóquio no baquete do náufrago

O amor muito dá, tudo tira.

Deu-me a areia, o engenho
áspero da fogueira e o mar.
Deu-me na espuma o vir ao
lar de sal e a uma nova vida.
Deu-me de não dar, tal vida.

O amor me tirou até
o que eu não tinha.

Pois quando o amor muito dá
é porque logo a falência
tocará sua lira.

O amor e seus olhos. O amor
e sua ira. A boca temporal
que nada diz. Aqui, longe,
porém: estou feliz e melodia.

Mas confesso uma saudade
tempestade de sofrer o vão
onde sou, na ilha.

Pois até isso o amor me levou.
Até a compensação
em haver melancolia.

24 de outubro de 2017

Exposição no banquete dos bonachões

Sou como o Bobo a quem permitem dizer tudo, por estar tão próximo da sabedoria quanto o sol está próximo do viaduto. Assim sendo, aproveito para contar do meu jeito um ocorrido de ontem à tarde, de durante a tempestade. Eu ia para uma consulta médica, bem longe de casa. Teria que pegar dois ônibus, ou, como fiz, pegar apenas um e andar alguns quilômetros, poucos e rápidos. Logo que comecei a caminhar, no entanto, trombetas trovoaram e a água me veio. Que chuva! Sempre carrego a sombrinha, então abri suas asas (uma delas: quebrada) bem rápido e fiquei numa boa. Estava no centro da cidade, por isso vi, como os senhores devem imaginar, as pessoas surpreendidas correndo correndo correndo, tendo que parar de correr quando diante de um sinal vermelho. Ora, era uma tempestade! E aquelas pessoas tinham que ficar debaixo dela enquanto os motoristas passavam intactos e eu me resguardava na pequena sombra, esperando o verde pintar no longínquo outro lado da avenida. "Vou oferecer para esperarem comigo aqui embaixo", pensei. E fiquei pensando. O sinal abriu e continuei lá, pensando. Ora! Não riam: é preciso muita coragem para ser bom. Ontem percebi isso. Porque falhei em muitas ruas, ao tentar me aproximar de pessoas encharcadas, para tentar ajudá-las. Então parei para comer uma broa de fubá e tomar um queimado, aquele leite quente com canela, virado para a rua, olhando. Se fosse por mal, seria fácil. Se fosse por vaidade... Bem, é, talvez fosse por vaidade, quando se pensa que estou falando aqui para todos vocês o quão bom sou ao tentar ajudar... Mas vejam: o Homem de Face Serena já se irritava com o filho que diz "irei trabalhar hoje para você, meu pai" e não vai. Quem sou? Pois bem: eu continuei meu caminho, insatisfeito de covardia. Parei em mais um sinal, desistido. As gotas quebravam meu rosto contra o ruído crepitante do asfalto molhado. Olhei para o lado e vi um senhor de muleta, descalço, atravessando entre carros e fora da faixa. Quase atropelado! Fui até ele e o ajudei, dando meu ombro, a secura por alguns minutos, algum apoio. Vejam: não importa o quanto eu quisesse, antes, ter ajudado. Até para isso há momento propício! Porque, enquanto eu o levava, caí e por isso estou com a mão enfaixada.

23 de outubro de 2017

Excerto de louvor no banquete dos ex-escravos

vocês os que sabem que vão morrer a simplicidade mais limpa e elegante olhos milenares fundos e sem par os que souberam que morreriam sobrevivemos nós o fogo queimado por algo ainda mais quente louvados sejam sobreviventes do ferro das correntes que sugavam nutrição de nossa carne e que hoje nos alimentam com a memória a partir dessa dor louvada seja a notícia de que morreremos mas não hoje nem agora louvada seja nossa força de estuprados nas galerias horrendas bem-vindos ao mundo exterior irmãos aqui a cabeça erguida de quem sabe que vai morrer haverá de localizar um local de valor um terreno ansiando sementes sim meus irmãos morreremos mas não hoje nem agora o mais difícil já foi feito sobrevivemos

21 de outubro de 2017

Brinde no banquete do sonhador

Shakespeare e Cervantes morreram em abril de 1616. Desde então, sou um homem sozinho num front onde caberiam milhões de vocês, aliados. À frente, o inimigo ressentido de ter estratosférica vantagem e ainda assim estar prestes a ser derrotado. Moinhos caiados. Caberia uma citação valorosa e marcial! Qual, no entanto, o tom? Quem tocaria os tambores para minha voz andar ao lado?

25 de agosto de 2017

Confissão no banquete de nós dois

Os unicórnios são poderosíssimas feras prateadas de sonho, muito superiores aos cavalos no que diz respeito ao vigor - porém muito mais frágeis no que diz respeito à beleza. São caçados por sua magia em vastos campos, vencendo armadilhas e ataques cobiçosos contra sua liberdade, sendo ferozes na batalha e ágeis na proteção. Eles, no entanto, possuem a fraqueza dos poetas: os unicórnios se pacificam diante de uma donzela e, tal a ternura, adormecem em seu regaço de fonte. Presa fácil, daí em diante. Eu estava pensando nisso, enquanto você fazia um ninho para os seus dedos com o meu cabelo. Há homens, a maioria absoluta, que por nada deitariam com a cabeça no colo de uma mulher em público, por maior o amor que sentissem. E ali estávamos, sob um ipê em flor, no gramado da praça, onde muitos esperavam o ônibus: minha cabeça exposta no seu colo. Eu derrubei um pouco de cerveja em mim e você me repreendeu, entre maternal e lua. "Você é mais antiga do que ipês, mais antiga do que a morte, a vida e a volúpia acelerada das estrelas", observei de mim para mim, olhando assim, do porto de você. Mais antiga do que a própria noite. Mas eu dizia que estava pensando em unicórnios. Sim. E veio a questão: antes ser um cavalo, fraco onde todos os mortais são, escravo forte pela insensibilidade?, ou ser o heráldico, o grande, o perseguido e forjado com as cordas do sonho, para ser assassinado enquanto adormeço sob as mãos do amor? Você, entretanto, me protegeu - e sobrevivi.