Não deixe que estes cacos
te convençam do contrário.
Ser sensível é tão lindo
quanto é lindo o orvalho
que existe pouco tempo
mas suficiente e exato
tempo brilhando vive
o vidro sol inevitável.
Não deixe que estes cacos
te convençam do contrário.
Ser sensível é tão lindo
quanto é lindo o orvalho
que existe pouco tempo
mas suficiente e exato
tempo brilhando vive
o vidro sol inevitável.
Era íntegro o copo transparente
e sua serventia foi a de ser oco.
Num dia foi areia quente.
Gelo e líquido, no outro.
Como coração de gente
esculpiram o seu corpo
pois vazio existe
quebra, se solto
e cheio exerce o carente
destino que a nós todos
foi dado: amar, encher-se,
não previne o ser quebrado
mas justifica nos beberem
isto é, sermos amados.
Entre
a segunda-feira de chamas
e a quarta-feira de cinzas
há um pêndulo
que possui ao centro
a terça-feira de brasas.
Na terça-feira de brasas
há o Brasil
um grande brasil
um sol de ícaro cio
a queimar as ceras
de todas as asas.
O som do fogo, irmão do som do mar
preencheu o silêncio sem o incomodar
igual ao do vento, este som uterino
que fez do silêncio seus cem hinos
e igual a calma canção das raízes hoje
ao interno da terra o silêncio responde.
Corredor onde reina a ausência de curvas
o nosso tempo é um labirinto em linha reta.
Longo túnel circundado por lisas paredes
tão claras e de muita branca luz estridente.
Retornar é inútil. Do atrás é que se veio
roendo passo a passo o olhar pra baixo.
Avançar é inútil. Não há ali porta futura
no fim do túnel não se vê algum escuro.
Portanto, avança-se. Mas para chegar
à metade do caminho é preciso chegar
à metade da metade do fim e para isso
à metade da metade da metade do fim.
Então, para-se. E parados estamos
tão cansados como se andássemos.
Triste ser inútil trazer o fio
de Ariadne a esse labirinto!
Antes perder-se às curvas linhas paralelas
que ao tédio de um labirinto em linha reta.
O furacão enfrenta
a borboleta
Se sem asas
mera larva
torço pro que venta
Se com asas
violetas
torço pra borboleta
A ética aérea
do esteta
torce pra beleza
Aquela lagarta esmagada
contra a folha que comia
em algum tempo seria
uma pétala alada
E voaria em poucos dias
sobre esta terra arrasada
a doar doce alegria
às vidas amargas
Quem a esmagou pensava
com isso polir o mundo
do arcaico conteúdo
do horror da praga
Pensava salvar sobretudo
a beleza da folha alada
na borboleta, o futuro
no presente, a lagarta
Do dia que conheci Inhotim, no meu aniversário de 30 anos
Nublado mas com feridas de azul
tempestava o sol a chuva tucanuçu.
Os buritis os antúrios os jequitibás
regozijavam o cambacica a cantar.
Provei jambu fiz trinta anos e beijei
os olhos da amada e da cor dos ipês.
Dia Inhotim e adiante Diadorim
que ousadia o canto do fim-fim!
O calor bom do estarmos vivos
tal qual o ir indo do regato fino.
Envelheceu a tarde nós também
jovem jaz porém te querer bem.
"Digo-vos que não sabeis o que acontecerá amanhã. Porque, que é a vossa vida? É um vapor que aparece por um pouco, e depois se desvanece." - Tiago 4:14
Nós somos
diante do ano novo
como a criança
pondo-se na ponta dos pés
para alcançar o que não vê
sobre a mesa de janeiro
Ou o adolescente
que ofega e tem a boca seca
diante do manancial
da outra boca
chamada primeiro beijo
Ficamos
semelhantes ao homem
às vésperas de receber
o filho ainda quente de mãe
em seus braços de leito
Assim somos
às portas do tempo
ainda quentes de útero
inquietos lidando
com o próximo ano
e seu mistério
novo dentro
Uma vida vivida sem
pensamento e beleza
se faz rápida refém
de terrível trincheira
Agachada e cheia
de medo, carência
tal vida só tem
a sobvivência
Farpadas cercas
seu corpo também
envolvem em presas
A vida que viva sem
pensamento e beleza
não vive: rasteja
De óculos, sou homem branco.
Sou careca. Asceta, nem tanto.
O mundo não me deve nada
nem eu nada devo ao mundo.
Nem fui eu a construir a arca
nem fui eu a circundar o muro.
Entre mortos e feridos
fui meu poeta favorito.
Entre doentes e saudáveis
vivi 30 tempos cantáveis.
De óculos, escrevi uns livros.
Careca e anônimo, eu os vivo.
Amei e amo. Sou e fui amado.
E embora eu pressinta olhares
irados e ternos vindos do mato
não sou lido, lindo, nem odiado.
Também, acho, não sou lerdo.
Tenho barba, um bárbaro afeto
e com metro e noventa de altura
quase tenho minha própria lua.
Sob sol e tempestade, 30 anos!
Meu rosto, trovão de espanto,
agradece, Senhor, o entretanto.
Embora seja um amor que possa ofender a muitos, eu amo o verão.
Chove, faz sol, venta, faz calor e suor. As mangueiras, também, cheias de frutos.
Talvez pensando nisso, acabo de publicar "Sol e tempestade" - o livro que resume os meus trinta verões, que em breves três dias espero completar.
Este meu sexto livro publicado, em suas mais de quatrocentas páginas, é dividido em seis partes.
"Viola dos 30 Anos" é feito de poemas.
"Para Michele" reúne textos dedicados à minha esposa.
"Pés de Bronze, Voz de Águas" traz ensaios sobre a Bíblia.
"Prosas Gerais" é feito de (quem diria) textos soltos em prosa.
"O Século dos Invejados" é o meu livro de Filosofia publicado originalmente em 2023.
Para encerrar, "Fragmentos do Templário" traz um romance inacabado.
O link para aquisição está a seguir: Sol e tempestade ⋆ Loja Uiclap
Para um desconto exclusivo na loja, use o cupom UAC1558685V1VREPT6L
Disponível também (mas um pouco mais caro e sem cupom) para compra na Amazon: Sol e tempestade - Amazon
Agradeço, de antemão, a todos os que quiserem comprar esse livro feito de água e fogo, por assim dizer, feito de verão.
Obrigado!
O cheiro da manga recém-colhida
antecipa algo nela o apodrecer
da própria vida, que é assim
Não comer dela até o fim
significará ter que conviver
com a sua carne apodrecida
Melhor sugá-las ainda vivas
(vida e manga) e fazer de ambas
(velho sol a velar novas plantas)
o sabor grato de dizer sim
Melhor sugá-las ainda vivas
para evitar nelas (manga e vida)
o beijo morno das moscas
(a habitar carcaças e jardins)
No dia 23 de novembro de 2024, se Deus assim permitir, farei 30 anos. Pensando nisso, tenho adicionado uma música por dia em minha conta do Instagram, desde que faltavam 100 dias para o meu aniversário, e com isso criei a playlist que se segue.
Hoje estamos no dia 86, mas a playlist até agora possui 87 músicas. Isso aconteceu porque adicionei duas músicas no mesmo dia (34), corrigindo, sem querer, um erro anterior: a contagem havia começado um dia antes.
Dois erros fizeram um acerto, aparentemente. O que é a vida, ehm?
Feliz o que contempla em sua própria tristeza
aquilo que a árvore contempla em seu inverno
o seu cálice de descanso, de paciência
e de contemplação.
A alegria é boa e cálida mas quem quiser
viver somente nela
se verá como um animal de cio infinito
insaciável, histérico, ansioso.
É preciso saber o frio
para que o fogo seja bom.
É preciso saber a fome
para que o pão seja de prazer.
Feliz o que contempla em sua própria tristeza
aquilo que o dia contempla em sua noite
o seu cálice de descanso, de paciência
e de contemplação.
As luzes, Lourdes,
habitam os céus
e também os véus
sobre a terra, amiúde.
Seus irmãos, Lourdes,
exemplos de luzes
que chegaram antes
te ajudarão adiante
do chão que cruzes.
Seus pais, Lourdes,
exemplos de luzes
de ainda antes
igualmente adiante
da estrada que cruzes.
E eu peço, Lourdes,
ao Senhor das Luzes
Deus desde bem antes
que ilumine adiante
de todos nós, amiúde.
Escreva um poema que desperte o humano do seu sono de silício.
E seja uma mão a levantar da terra os corações, de modo a escorrer entre os dedos toda a letargia.
Para isso torne-se alguém sensível, sem miasmas de frescura, como aquele que na guerra e mesmo cego ainda tem olhos para uma flor.
Guarde nele algum veneno que fira, não mate, e seja o mel colhido entre ferrões.
Que ele tenha ritmo, rima, soe como um repentino vento fresco em uma noite quente, e lembre a morte, o nascimento, o sol, a tempestade.
Escreva um poema com o sangue do sonho a navegar por suas veias inexistentes.
Quero que ele seja sério, terrível, sincero, feliz.
Tenha a boca irônica, os olhos enormes, uma compaixão inesgotada.
Arome o cheiro do amor recusado, isto é, jasmim.
Arome o cheiro do amor recíproco, isto é, suor.
Que seja longo, como longas são as raízes de árvores antigas que há muito alimentam a muitos.
Tenha paredes como ruínas de castelo, inúteis e tomadas pelo musgo.
Tenha e seja o jardim abandonado da infância.
Escreva um poema, principalmente, feito de palavras como mapas antigos em sua ausência de portos.
E que a todos diga algo, mesmo sem ser lido por ninguém.
Imagino angustiados e gordos
meus contemporâneos futuros
sem poesia, filhos, trabalho
robôs escorrendo simpatia
inútil a eles pelas esquinas
Compaixão um pouco
sinto ao imaginá-los
na epidemia de suicídios
dentro de elétricos carros
o fim dos museus, ocos
muitos olhos fechados
depressivos e gordos
ante o fim do imaginário
Farei da tua voz um hino distante para a minha alma cansada
e peço, amada, que eu mesmo seja isto em teu coração.
Não mais que uma voz de águas sobre a terra árida
ou o descanso da luz que pousa doce sobre teu hálito.
Não mais que um cálice de memórias sem nódoas
ou as mãos macias das velas acesas sobre o pátio.
Peço que penses em mim do modo como ali vimos as nuvens
admirando nelas o que era momento de lua e tempestade.
Então serei para ti aquilo que és para mim, a chuva.
Pois para mim teu riso manso é o orvalho do alívio
e o vento a espalhar flores brancas sobre os ombros da noite.
Pois em mim teu olhar sempre será o perfume do relâmpago
e teu gesto calmo, em meu âmago, sempre um cântico terrível.