Dentro da biblioteca
ouve-se o cair da chuva
e seu som é um véu
de pequenas asas.
Envolto nesta túnica
curva-se
o silêncio do sábio
feito de perguntas
sobre as páginas.
Então
o trovão.
Tranquilidade
tempestade
fogo, arte
solidão.
Dentro da biblioteca
ouve-se o cair da chuva
e seu som é um véu
de pequenas asas.
Envolto nesta túnica
curva-se
o silêncio do sábio
feito de perguntas
sobre as páginas.
Então
o trovão.
Tranquilidade
tempestade
fogo, arte
solidão.
Pinga da pedra paciente
pureza no vaso de água.
Estável, ecoante entre
espera e sede, ela salta
(a gota) sobre o frescor
escuro do nada, parente
do mar à frente, do amor
e da chuva sobre a casa.
Forjei a espada de ser maduro
com o aço da arte: afastar-se.
Aprendi com os pintores
que se afastam da pintura
para vê-la mais nua
e mais tarde.
Afasto-me de cidades
e de suas ruas
afasto-me da pessoa
cuja arquitetura
não escala
ao estado da arte.
Quando surge a luta
ela é a minha espada
— sua lâmina é escura
como o sangue da tarde
mas reflete a minha face.
Por ser ela feita de silêncio
é algo que quase não existe.
Mas a tudo envolve, mesmo
se agora o seco nos ferisse.
Dissolve ao toque, escorre
seu cheiro de nenhum limite
pois toma a forma disforme
do vento, que não é firme
mas fere, quase também
não existindo, a memória
desse mistério: se tão vida
por que não está vivo?
"E também agora está posto o machado à raiz das árvores; toda a árvore, pois, que não produz bom fruto, é cortada e lançada no fogo." - Mateus 3:10
As cercas do pomar envolvem
a esperança de que haja frutos
e atraem o olhar dos pobres
com sua fome feita de furtos.
Mas que será dessa esperança
se o machado rasgar os muros
da madeira, macieira mansa
morta então em cortes muitos?
Aquecerá dela o carvão futuro
a um jantar farto ou às ruínas
da grande casa e seus vultos?
Nossas obras, carvão maduro,
cercadas queimarão, galharia
interior e má de nossos intuitos.
O Executivo no topo do maior prédio da avenida mais rica do país olha para baixo.
Por tanto tempo vivi
a olhar somente pra cima
que mesmo me esqueci
que aqui abismo havia
aqui, no crânio do prédio
aqui, nessa esquina faminta
de boca e dentes remédio
pro fracasso chamado vida
crânio que possui de aéreo
o mesmo que possui de brita
da morte útero inverso
cova sem pedra escrita.
O Faxineiro aparece, após ouvir os lamentos, e se posta boquiaberto próximo do Executivo.
O senhor que tem tudo
cogita mesmo essa loucura?
Cogita transformar em verbo
o desespero e sua arquitetura?
E com quanto do meu sangue
levarás para a queda, chuva?
E com quanto do meu suor
será paga a tua sepultura?
O senhor que tem tudo
cogita mesmo essa loucura?
O Executivo, sem olhar para o Faxineiro, responde.
Sim.
Semelhante a um dado sujo
lançado da mão de um louco
lançarei daqui meu corpo.
Sim.
Daqui à vala esquecida
hoje lançarei a mim, solto
do vão à chance mínima
de voar e viver ou morto
me encarar com a linha
em ter agido igual porco
e ter sujado esta vida
da doença de amar pouco.
O Faxineiro, sério, fala.
A doença de amar pouco
cura-se amando.
Não é o lamento oco
que cura, mas o quando
preciso for: ajudar.
A doença de não amar
aprende-se enquanto
transforma-se o mofo
do egoísmo em ouro
e não o ouro em prédio
para encher nele
curvados outros
e não o ouro em rédeas
senão contra as pedras
que o ódio usa
como adorno.
O Faxineiro, agora sorrindo, continua.
Vem! Segura as férreas
serras das minhas mãos!
Meus calos são
a prova que vivi
e que em auxílio já agi
contra muita depressão!
Vem! Se a fúria da guerra
até mesmo vence-se com
um estender de mãos
quem dirá o oco
de cada coração!
O Executivo olha para o Faxineiro. A face do Executivo é algo entre o nojo, a culpa, a pena, a confusão. Som de hélices de helicóptero ao fundo. Uma tempestade se aproxima. Ele segura a mão estendida do Faxineiro.
Hálito de asfalto, suor exposto
calor morto e a morte
saindo do ventre dos fornos
O trono humano sobre a terra
é feito de fumaça
feito de aço, carcaça e fogo
Mas não somos os culpados
nós pobres e nossa raça
não forjamos o sol de ouro
Foram os solares magnatas
e seus risos de magma
que forjaram o céu em torno
Em minhas veias
a primavera retornou.
E o brônzeo das areias.
E o áureo do amor.
Quantas farsas vivi
para agradar a realeza.
Quanto mofou de mim
por vontades alheias.
Mas em minhas veias
a primavera retornou.
Já não vejo flores feias
elas são o que eu sou.
Tudo bem.
Mas tenho um grande triunfo
sobre Aristóteles: estou vivo.
E sei mais sobre a Guerra Fria
do que Leibniz
que também nada sabe
sobre fones de ouvido bluetooth.
Sobre Newton triunfo em ter lido
(embora sem compreender)
algo da teoria da relatividade
- o mesmo vale para Freud
que não tem conta no Twitter
nem jogou Elden Ring.
Estar no futuro
este privilégio misterioso
é meu grande triunfo.
Ter irmão é
Adélia e José
ser um alguém
sempre com quem
brincar.
É a séria
José e Adélia
irmã companhia
no todo do dia
com quem
não convém
brigar.
Medida a divisão
consideremos agora
aquilo que nos une.
Este sol ao meio-dia
que sobre todos nós
igualmente ruge.
Esta fome de amor
que a boca resseca
e o ventre pune.
Esta doutrina partida
em trocarmos a Vida
por costumes.
As palavras nos cansam
porque delas esperamos
apenas o nosso próprio
momento de falar.
Escutar
eis que dentre todas as artes
esta foi a primeira a morrer.
Façamo-nos
seus artífices.
E ela então
quem sabe
não ressuscitará?
"Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou" - Eclesiastes 3:2
Se após o retesar do arco
e do olhar sobre o alvo
ver voar a ave alerta
não convém perder a seta.
Sábio é recolher a flecha
do fio da paciência
à aljava da desistência
e seguir vereda aberta.
Saber desistir é seguir
também
esta sábia floresta.
Estes são os túmulos dos ricos.
As flores morreram, o ouro permanece.
Estes longos nomes em relevo gravados
com seus títulos honorários
são exuberantes demais, pensando bem
são grandiosos demais para quem não cria
na morte
para quem vivia envolto em honra
na vida
tendo mansões nos melhores bairros
da vida.
Estes, senhores, são os túmulos
dos influenciadores. Estes eram
a grande prata daquele tempo
e mesmo antes, as faces, os olhares
o coração da publicidade.
Tumultos vazios
quando envelheceram, suicídios
enfim o silêncio
de não serem vistos, as placas de bronze
dos esquecidos.
Aquelas, porém, são as covas
dos pobres.
Só restam pequenas tabuletas de pedras
sob o matagal seco em tom ocre.
Estas pedras serviam para não enterrarem
um pobre sobre outro pobre
e para que não se desenterrasse
o corpo antes do tempo
e o tempo antes do pó
dos que enfim descansam
dentro
seus diamantes de suor.
Senhor, agradeço a fidelidade cotidiana
em haver sol ou chuva, sendo tempo.
Agradeço este dom entre tantos defeitos
este bonito dom de estar satisfeito.
Agradeço essa paz que se chama hoje
em sorrindo estar envelhecendo
e deixar-se amar, como quem navega
com alegria mansa o silêncio.
Senhor, agradeço o esquecimento
de um dia ter desejado o mundo
e hoje satisfazer-me no lar, refeito.
Eu agradeço, Senhor, eu agradeço
este dom entre tantos defeitos
este floral dom de estar satisfeito.
Entediado no maior banquete
eis que o rico enfastiado come.
Se fosse pobre estaria contente!
O melhor dos temperos é a fome.
Às vésperas da guerra
tudo é preparativo.
Tudo é espera, tarefa
do outono, incêndio vindo.
Aquele castelo, com as heras
comendo as pedras, o que é aquilo?
Áspero muro erguido foi à espera
da guerra, em tempos idos.
Lembrando da primavera
prepara-se pro inverno o vinho.
E é vesperal lembrar essa guerra
na colheita da espera o preparativo.
Felicidade é as nuvens parecerem rápidas.
Alegria é as nuvens parecerem lentas.
Tristeza é ser indiferente às nuvens.
Onde estou?
No coração de maio.
Pra onde vou?
Deus é que sabe.
para Michele Marcial
Na pobreza e na riqueza.
Como diziam os antigos.
Na saúde e na doença.
Na abundância
de abril ou no frio
de maio
azul em verde beleza.
Na loucura de julho
e caso seja
louco o nosso futuro
também na descrença.
Na miséria e no tumulto.
Na luta e no luto. Sob açoites
e atrás dos muros. Em ares
de vivos risos ou em mares
de choro oculto.
Até que a morte nos separe
amor
até que rasguem
dos nossos corpos o núcleo
que canta, coração, fonte
de todo orgulho. Até
o túmulo
te amarei, amor, até
e além, muito além.
Isto juro.
"Ora, antes da festa da páscoa, sabendo Jesus que já era chegada a sua hora de passar deste mundo para o Pai, como havia amado os seus, que estavam no mundo, amou-os até o fim." - João 13:1
O ser homem é
ter algo a fazer
e fazê-lo
a derrota
da lâmina
contra o peito
a vitória
das mãos
contra o medo.