31 de dezembro de 2025

Janeiro aberto como uma rede

Os olhos abertos
diante da noite enorme
não distinguem
a distância das árvores
nem os tecidos
da chuva a frente
e abrem-se ainda mais
em busca de luz

Talvez por isso
os fogos de artifício

O que virá a seguir?

O olhar aberto
como um relâmpago
a noite aberta
a toda sede
e em todo canto
janeiro aberto
como uma rede

Esperança
teu nome é valioso

Vai
e faz jus a ele

30 de dezembro de 2025

O gado

Por vezes tenho que conter o gado
enquanto os bois bebem água
pela inquietude que os domina.

Angustiam-se muito
coitados
pelo futuro imediato.

Restará para mim ainda água?
Haverá para mim no pasto
espaço?

Por vezes tenho que conter o gado
enquanto bebem água
pela inquietude que os domina.

Ê boi! eu grito
aos seus cornos assustados.

Daí ficam sossegados.

6 de dezembro de 2025

Epitáfio possível

"Minhocas arejam a terra; poetas, a linguagem." - Manoel de Barros em Livro de pré-coisas

Enquanto está vivo
de que serve um poeta?
De que serve o vento
sem pipas ou setas
guiadas pelo aceno
da tempestade correta?

Enquanto está vivo
de que serve um poeta?
Apenas agora o lemos
em língua materna
só agora entendemos
seus vermes e pétalas.

Enquanto está vivo
de pouco vale o poeta.
Apenas aqui dentro
do útero da terra
é útil o seu reino
feito de palavra, pena
perda e pedra.

3 de dezembro de 2025

Breves cartas aos ansiosos: carta 9, riacho

Não deixe os seus traumas ditarem o seu pensamento, nem os seus medos anteciparem a realidade de problemas hoje inexistentes.

Havia um riacho, no caminho dos viajantes. Eles estavam há muito tempo na estrada, cansados e sedentos. Quando ouviram o som de suas águas, correram até ele, extasiados.

Chegando, ajoelharam-se diante do riacho, dele beberam e próximo a ele descansaram. Depois de um tempo ali, renovados, decidiram que era momento de seguir viagem.

Um deles, de tamanha felicidade, começou a chorar, conforme se afastava do som pacífico de haver riacho. Isso perturbou um dos seus colegas de jornada.

"Por que você está chorando?", perguntou o que se perturbara.

"De alegria por não ter mais sede", disse o outro.

"Use sua alegria para guardar a água que acabou de beber, não para jogá-la fora. Na sede de amanhã você pode se arrepender de gastar as lágrimas de hoje", falou, sério, o primeiro.

"A sede amanhã será saciada com a água de amanhã, assim como a sede hoje foi saciada com a água de hoje", falou, sorrindo, o segundo.

Então, seguiram viagem.

Prudência é algo importante, mas não faça da prudência a sua sempre presente razão de desconforto.

O trauma, que gerou medo, hoje nomeia a ansiedade pelo amanhã que ainda não existe. Lembre-se: a sede hoje é saciada com a água de hoje, a sede amanhã será saciada com a água de amanhã. E a sede de ontem já foi vencida, pois você sobreviveu a ela.

Basta a cada dia a sua própria sede.

1 de dezembro de 2025

Ler o mundo, Lía

Precisaremos, Lía
de você, um dia
para ler o mundo.

Pois é da criança
dar essa esperança
ao adulto.

Para isso brinque
e cante e pisque
a todo assunto.

É da sua vida
nova e bonita
que é feito o futuro.

Precisaremos, Lía
de você, um dia
para ler o mundo!

E reescrever tudo
o que nele for mudo
de poesia.