28 de abril de 2025

A irmandade dos poetas de guerra

Para Jorge Isah e Sammis Reachers

Ruínas de árvores rasgadas
e nos restos das bandeiras
brasões recordando fogueiras.

Antigos reinos, galerias, salas
e as antigas fronteiras
cravejadas de antigas muralhas.

Às vezes penso nessas armas
idas pelos aedos cantadas
à terra mais que a si mesmas.

Às vezes penso nestas armas
que também poemas
brandimos chamadas Palavra.

Ainda há poetas de batalha.
Ainda há pois a mesma
cruz pesa mais que a espada.

23 de abril de 2025

Bodas de frutos e flores

Para Michele e o nosso 4º aniversário de casamento

Nos casamos no dia do livro
que é também o dia do choro.

Jorge de Lima tornou-se vivo
Shakespeare tornou-se morto

dentro deste mesmo dia lindo
que hoje faz bodas de outono.

18 de abril de 2025

Os teus olhos, Michele

O repentino dourado do café
quando sobre ele pousa o sol.

Pedras iluminadas em lençol
no leito de um rio da infância.

A luz do outono que avança
sob a safra futura e que já é.

16 de abril de 2025

A ética esteta do poeta

Em completude ao meu poema A ética aérea do esteta, caso a ironia tenha sido nebulosa

Ver algo bonito é como desvendar um mistério.
Achar que algo existe bem, ou seja, que é belo.

Não a toa a palavra deslindar significa descobrir.
Tirar a coberta do não ver o que realmente há ali. 

Nos sentirmos feios machuca tanto então
pois com isso pensamos existirmos mal
o que pode ser mentira, ou não, ou nau.

Conheci tanta coisa bela proclamada feia
e tanta feiura arvorada a coisa bela
tanto pó de ouro confundido com areia
tanta liberdade chamada de cela
que por esporte me tornei o especialista
em coisa nenhuma chamado poeta.

Vivo de procurar diamantes em pedreira
nas joalherias deslindar foscas pedras
e sorrio ao ver os véus da chuva longe
a logo trazer flores do lamaçal da terra.

6 de abril de 2025

Inteligência artificial, tempo herdado e trabalho: breve ensaio sobre uma angústia

Com grande alegria, compartilho que hoje publiquei o meu novo livro — Inteligência artificial, tempo herdado e trabalho: breve ensaio sobre uma angústia.

Ele está disponível na Amazon: https://www.amazon.com.br/dp/B0F3WBR14M

Essa é a minha sétima obra publicada — o tempo realmente tem voado desde meu primeiro livro impresso, há cerca de 11 anos!

Obrigado a todos os que acompanham essa trajetória!


17 de março de 2025

Pequena oração sob grande chuva

Assim como deste às árvores
a unidade chamada floresta
e assim como deste às nuvens
a unidade chamada tempestade
dá, Senhor, aos dias que vivi
e às noites por mim vividas
a unidade chamada sabedoria.

11 de março de 2025

Quem tem medo da morte e morre

"Quem desta vida amputa vinte anos, corta esses vinte do temor da morte" - Shakespeare, em Júlio César Quem tem medo da morte e morre ainda jovem ganha os anos que deixou de temer pois por menos anos terá sentido este triste temor.

Quem tem medo da morte e morre já velho aguarda mais tempo para atestar a certeza de que irá morrer e assim prolonga o seu martírio.

Não ter medo da morte. Talvez nesta frase caiba quase toda a minha felicidade.

“Porque para mim o viver é Cristo e o morrer é ganho”, disse Paulo aos filipenses esculpindo aquele momento com as mãos do fim do medo.

8 de março de 2025

Um copo de vidro quebrado

Não deixe que estes cacos
te convençam do contrário.

Ser sensível é tão lindo
quanto é lindo o orvalho
que existe pouco tempo
mas suficiente e exato
tempo brilhando vive
o vidro sol inevitável.

O copo de vidro quebrado

Era íntegro o copo transparente
e sua serventia foi a de ser oco.

Num dia foi areia quente.
Gelo e líquido, no outro.

Como coração de gente
esculpiram o seu corpo

pois vazio existe
quebra, se solto

e cheio exerce o carente
destino que a nós todos

foi dado: amar, encher-se,
não previne o ser quebrado

mas justifica nos beberem
isto é, sermos amados.

3 de março de 2025

Terça-feira de brasas

Entre
a segunda-feira de chamas
e a quarta-feira de cinzas 

há um pêndulo
que possui ao centro
a terça-feira de brasas.

Na terça-feira de brasas
há o Brasil
um grande brasil

um sol de ícaro cio
a queimar as ceras
de todas as asas.

20 de fevereiro de 2025

Epitáfio no túmulo da Música

O som do fogo, irmão do som do mar
preencheu o silêncio sem o incomodar

igual ao do vento, este som uterino
que fez do silêncio seus cem hinos

e igual a calma canção das raízes hoje
ao interno da terra o silêncio responde.

14 de fevereiro de 2025

Nosso tempo um labirinto em linha reta

Corredor onde reina a ausência de curvas
o nosso tempo é um labirinto em linha reta.

Longo túnel circundado por lisas paredes
tão claras e de muita branca luz estridente.

Retornar é inútil. Do atrás é que se veio
roendo passo a passo o olhar pra baixo. 

Avançar é inútil. Não há ali porta futura
no fim do túnel não se vê algum escuro.

Portanto, avança-se. Mas para chegar
à metade do caminho é preciso chegar

à metade da metade do fim e para isso
à metade da metade da metade do fim.

Então, para-se. E parados estamos
tão cansados como se andássemos.

Triste ser inútil trazer o fio
de Ariadne a esse labirinto!

Antes perder-se às curvas linhas paralelas
que ao tédio de um labirinto em linha reta.

8 de fevereiro de 2025

A ética aérea do esteta

O furacão enfrenta
a borboleta

Se sem asas
mera larva
torço pro que venta

Se com asas
violetas
torço pra borboleta

A ética aérea
do esteta
torce pra beleza

2 de fevereiro de 2025

Um analfabeto descreve um livro

Fora

Coisa terrível entre os dedos é a sua pele
(os letrados a chamam capa) pois engana
tratar-se de algo suave a sua toxicidade
feita, para mim, de espantosa empáfia.

Parece calma, a "capa", sobretudo
a parte chamada lombada, pois nela
é que se dissimula as muitas chacinas
pouco suaves já por livros provocadas.

Do lado oposto à lombada, uma abertura
permite observemos o corte das lâminas
chamadas páginas. Que estranho, oh
livro, fruto irás colher com tais facas?

Dentro

É como um tecido morno, feito de sal
e sarna, as tripas das páginas. Sinais
enfileirados, signos de nojo e medo
que os letrados chamam de palavras.

Palavras: é com esta matéria farta
que os livros enfeitiçam os homens
que após muito lê-los se matam.

19 de janeiro de 2025

A lagarta esmagada

Aquela lagarta esmagada
contra a folha que comia
em algum tempo seria
uma pétala alada

E voaria em poucos dias
sobre esta terra arrasada
a doar doce alegria
às vidas amargas

Quem a esmagou pensava
com isso polir o mundo
do arcaico conteúdo
do horror da praga

Pensava salvar sobretudo
a beleza da folha alada
na borboleta, o futuro
no presente, a lagarta

10 de janeiro de 2025

Diainhotim

Do dia que conheci Inhotim, no meu aniversário de 30 anos

Nublado mas com feridas de azul
tempestava o sol a chuva tucanuçu.

Os buritis os antúrios os jequitibás
regozijavam o cambacica a cantar.

Provei jambu fiz trinta anos e beijei
os olhos da amada e da cor dos ipês.

Dia Inhotim e adiante Diadorim
que ousadia o canto do fim-fim!

O calor bom do estarmos vivos
tal qual o ir indo do regato fino.

Envelheceu a tarde nós também
jovem jaz porém te querer bem.

31 de dezembro de 2024

O ano mistério novo

"Digo-vos que não sabeis o que acontecerá amanhã. Porque, que é a vossa vida? É um vapor que aparece por um pouco, e depois se desvanece." - Tiago 4:14

Nós somos
diante do ano novo
como a criança
pondo-se na ponta dos pés
para alcançar o que não vê
sobre a mesa de janeiro

Ou o adolescente
que ofega e tem a boca seca
diante do manancial
da outra boca
chamada primeiro beijo

Ficamos
semelhantes ao homem
às vésperas de receber
o filho ainda quente de mãe
em seus braços de leito

Assim somos
às portas do tempo
ainda quentes de útero
inquietos lidando 
com o próximo ano
e seu mistério
novo dentro

15 de dezembro de 2024

A terrível trincheira

Uma vida vivida sem
pensamento e beleza
se faz rápida refém
de terrível trincheira

Agachada e cheia
de medo, carência
tal vida só tem
a sobvivência

Farpadas cercas
seu corpo também
envolvem em presas

A vida que viva sem
pensamento e beleza
não vive: rasteja

23 de novembro de 2024

Autodescrição aos 30 anos

De óculos, sou homem branco.
Sou careca. Asceta, nem tanto.

O mundo não me deve nada
nem eu nada devo ao mundo.
Nem fui eu a construir a arca
nem fui eu a circundar o muro.

Entre mortos e feridos
fui meu poeta favorito.
Entre doentes e saudáveis
vivi 30 tempos cantáveis.

De óculos, escrevi uns livros.
Careca e anônimo, eu os vivo.

Amei e amo. Sou e fui amado.
E embora eu pressinta olhares
irados e ternos vindos do mato
não sou lido, lindo, nem odiado.

Também, acho, não sou lerdo.
Tenho barba, um bárbaro afeto
e com metro e noventa de altura
quase tenho minha própria lua.

Sob sol e tempestade, 30 anos!

Meu rosto, trovão de espanto,
agradece, Senhor, o entretanto.

20 de novembro de 2024

Sol e tempestade

Embora seja um amor que possa ofender a muitos, eu amo o verão.

Chove, faz sol, venta, faz calor e suor. As mangueiras, também, cheias de frutos.

Talvez pensando nisso, acabo de publicar "Sol e tempestade" - o livro que resume os meus trinta verões, que em breves três dias espero completar.

Este meu sexto livro publicado, em suas mais de quatrocentas páginas, é dividido em seis partes.

"Viola dos 30 Anos" é feito de poemas.

"Para Michele" reúne textos dedicados à minha esposa.

"Pés de Bronze, Voz de Águas" traz ensaios sobre a Bíblia.

"Prosas Gerais" é feito de (quem diria) textos soltos em prosa.

"O Século dos Invejados" é o meu livro de Filosofia publicado originalmente em 2023.

Para encerrar, "Fragmentos do Templário" traz um romance inacabado.

O link para aquisição está a seguir: Sol e tempestade ⋆ Loja Uiclap

Para um desconto exclusivo na loja, use o cupom UAC1558685V1VREPT6L

Disponível também (mas um pouco mais caro e sem cupom) para compra na Amazon: Sol e tempestade - Amazon

Agradeço, de antemão, a todos os que quiserem comprar esse livro feito de água e fogo, por assim dizer, feito de verão.

Obrigado!