11 de fevereiro de 2022

Relatório

Amar e ser amado, amar
e ser amado - embora
os seres humanos
construam catedrais
ergam modas
reestabeleçam políticas
e ordens cívicas
embora inventem esportes
impostos, combustíveis
rasguem o mundo futuro
no sangue derramado hoje
embora
folheiem ouro nas casas
nos olhos
fundem facções
comprem ações
negociem o coração
do próprio peito
e até mesmo odeiem
- amar e ser amado, amar
e ser amado
é tudo
o que todos querem.

Mas
curiosamente
não é amar e ser amado
o que chamam
curiosamente
de vencer na vida.

3 de fevereiro de 2022

Um epitáfio

A despeito da minha loucura
o mundo continua.

Aqui jaz alguém perdoado
(obrigado, Senhor)
enfim vencido pelo amor
(Senhor, obrigado)

6 de janeiro de 2022

Cantiga de ninar para o ansioso

Por mais que pareça urgente
inventar a fome futura
a ansiedade, o pão da loucura
não alimenta o presente.

Por mais que pareça urgente
arquitetar a masmorra futura
a ansiedade, chave de loucura
não liberta o presente.

Descansa, então, homem
do grilhão limoso das horas.

Deus alimenta seu hoje
libertou seu ontem 
e te guardará
para além da aurora.

21 de dezembro de 2021

O jardim da circunstância

Eu não escolhi a minha cor
o país em que nasci não escolhi
meu coração à poesia, essa vontade
de ver o mundo desmanchar-se
e ser refeito
eu não escolhi a poesia
como estandarte furioso
mas ei-la aqui crepitando
fogo
enquanto tremula ao vento
eu não escolhi o meu coração
mas alegro-me em havê-lo
um grande jardim de árvores
fogo
devoradas pelas águas
tempestadas do tempo

30 de novembro de 2021

Alagoas

Graças a Deus
pela saúde dos areais
e pela água quente
Graças a Deus
pela alegria do vento vindo
dançar os cabelos da gente
Graças a Deus
por esses muitos
verdes entres
Graças a Deus
pelo frescor
dos coqueirais
pelo mar, amor
e tudo mais

10 de novembro de 2021

O verão amendoado de novembro

Os olhos castanhos da minha esposa
dourados
pelo verão amendoado de novembro
são os frutos maduros da alegria
enfim em um galho à altura da mão.

Deus meu, Deus meu
 - eu bem merecia
mas não me abandonastes
à safra da minha própria loucura.

A tarde nasce em nuvens lindas
e chuva ainda quente de sol.

Por estar enfim feliz, enfim
até escrevo menos poemas
- mas vivo-os cada vez mais.

24 de outubro de 2021

O Manual da Dona Iza

para Bruno e Dona Iza, daqui https://www.instagram.com/tv/CVbRPPlrXIm/

"Me dá meus olhos" disse a mãe
que me ensinou a ver. 

O olhar da memória é estar presente.
O coração da vida é a memória.

Não.

O coração da vida é o amor.

19 de outubro de 2021

Canção sem sede

Depois da tempestade, a flor de goiaba
- no coração verde da tarde
o jardim nos olhos da amada

Depois da tempestade, a flor de goiaba
- o enigma difícil da seca
resolvido na seda das águas

Depois da tempestade, a flor de goiaba
- o sorriso que morde sem dentes
o fruto da esperança hidratada

Depois da tempestade
vocês sabem
a flor de goiaba
- e é bom que haja sede
para então saciá-la.

28 de setembro de 2021

Deus, ao contrário dos homens

Deus, ao contrário dos homens,
vê todos as faces da montanha
ao mesmo tempo
Deus vê todas as montanhas
Deus vê o vento

Então
quando alguém com os pulmões
tumorados de morte
e o coração nublado de loucura
pergunta colérico onde está Deus
Deus pode vê-lo, vê-lo
no jardim futuro que se chama eterno
sua conversão à paz Deus vê
nas lágrimas da dor presente
a alegria das lágrimas futuras

Deus, ao contrário dos homens,
vê todas as faces da montanha
ao mesmo tempo
Deus vê todas as montanhas
Deus vê o vento
e nos vê

5 de setembro de 2021

O jardineiro da estiagem

Se as flores tornam-se consolo
para quem espera pelos frutos
a fome é saciada pela cor
desse aroma já maduro?

O esfomeado que olha
pelas grades entre os muros
o banquete dos galhos fartos
deixa de ter fome
se olhar muito?

As flores apenas saciam
quem já não precisa dos frutos?

A beleza é para o faminto
o que a piada é para o luto?

20 de agosto de 2021

O absoluto silêncio de ter morrido

"Não, vos digo; antes, se não vos arrependerdes, todos de igual modo perecereis." - Lucas 13:5

O absoluto silêncio de ter morrido
não existe - é ruidoso não existir mais
se inferno e eternamente em desabrigo.

A memória embora grite nos que ficam
não é esse o seu vermelho pior bramido
se no inferno interno daquele que morre
há a inquietude do sal no corte, isto é:

se houver audível insuportável o grito
do que se indigna depois da morte
e não se arrependeu estando vivo.

23 de julho de 2021

3 meses, Michele e eu

Hoje fazemos 3 meses de casamento!

Hoje (faz 3 meses) comemoramos
haver na aliança de ouro no dedo
o símbolo da unidade que há dentro.

Hoje fazemos 3 meses de casamento!

Mas a aliança cotidiana que plantamos
estamos comemorando há mais tempo
- esta aliança alegre que cuidamos
para todo dia dela ainda colhermos
do amor de Deus o nosso alimento.

16 de julho de 2021

O exilado

Porque nasci durante os dias de exílio
não conheço a terra de que me exilaram.

Mas então
sob o inverno
fui de fato exilado?

De lá, dizem-me, eu trouxe a seriedade
que tenho escavada na pedra do coração.

De lá conheço o rio
manso e limpo de águas
que nasce, dizem-me, onde não nasci
para irrigar aqui a ilha de maçãs
do rei, no seu jardim.

Daquela terra eu vi o olhar
castanho da minha esposa
mel e resina nas árvores douradas
quando o sol abre as castanhas
entre a folhagem.

Porque nasci nos dias de exílio
não sei a terra de que me exilaram
mas conheço minha mãe
seu carinho bordado
e meu pai ausente
conheço a violência presente
do meu pai ausente
conheço a ira, o vento, o vinho
e o canto dos pássaros.

E, sob o inverno, me conheço o suficiente
para distinguir que não sou daqui
como estes pássaros.

25 de junho de 2021

E o verbo se fez carne

A poesia é o jeito mais bonito
de dizer a verdade.

24 de junho de 2021

O Van Gogh

Meu amor, veja este amarelo
eu enlouqueci os pássaros
ainda molhados de orvalho
veja este azul, as ondas
do seu cabelo, o seu olhar
eu enlouqueci a boca desta árvore
estes ventos, este frio
a arte dói tanto, amor, ser sensível
até às vísceras, as montanhas
são tão lindas no teu jeito
de ter pena de mim
à noite
meu amor, veja este amarelo
eu enlouqueci o sol, eu enlouqueci
a minha infância triste, tão feliz
tão verde celeste
a baba do amor como o sumo de um fruto
entre jasmins
eu pintei a morte nos últimos dias
ante a nossa iminente eternidade juntos
guardei na minha loucura o amor
escuro o amor que em você amei
eu pintei a derrota dos últimos dias
ante a nossa imediata
vitoriosa, amarela
dourada
eternidade juntos
como quem enfim encontra
da cor o tom que buscava há muito

5 de junho de 2021

O otimista

"Passará o céu e a terra, mas as minhas palavras não hão de passar." - Lucas 21:33

Tudo passa, dizem as nuvens
sombras sobre a minha carcaça
tudo passa, dizem os olhos
sérios do tempo, cegos
com suas faces enrugadas

Tudo (na lápide do amigo
há limo no ouro da data) passa
heroísmo, fama e reinos
o beijo lento acaba, o medo
perde o sentido
na rapidez das águas

Tudo passa, diz o vento
correndo as folhas mortas
na escada
tudo perde o calor
perde o viço
dentro
perde a umidade da coisa amada
mesmo a flor que te dei, amor,
morrerá, mesmo a flor
com suas pétalas de asas
- mas o Amor
oh amor
nunca acaba

26 de maio de 2021

O Desconstrucionista

Primeiro, me provaram que não sou macho nem fêmea.

Depois, vieram e rasgaram com uma faca sublime o núcleo da minha visão; disseram estar tirando as escamas dos meus olhos. Me provaram que o sol (eu já o não via) não existia e provaram que a boa brisa sobre a pele era a ilusão fascista dos meus sentidos.

Provaram que minha família (meus irmãos, minha mãe) eram estruturas de poder a demolir na minha consciência inferior; seu cão é seu único companheiro, disseram, e me chamaram pai de pet.

Os professores, disseram, são estes que detêm autoridade sobre a vossa moleira rosada: mate a todos!, eles disseram.

Tudo é arte, tudo é cultura, gritaram, arremessando o estrume basilar que fazia parte da melhor escultura do melhor escultor do nosso tempo.

Depois me convenceram a comprar suas aulas, seus discos, seus ritos.

Hoje já está mais do que provado que não existo.

6 de maio de 2021

O testamento

Deixo tudo às palavras, estas
pelas quais agora mesmo
passo os olhos dos meus dedos
orvalho, raízes, vinho
tempestades
estas palavras e todas as que conheço
serviram para dizer o amor
que impossivelmente distingue-se
em palavras
nos muros das casas
nos dentes cerrados da morte
como cercas
as palavras, estas
pelas quais menti ao mundo
e tentei mentir a Deus
palavras, orgulho
doença, ouro, navalha
iconoclastia, harpas
que usaram-me enquanto as uso
no impossível permanecer
mudo
as vagens das palavras
sua armadura, suas asas
seu rosto febril de nojo
sua loucura calada
e o contorno morno do sonho
o perdido contorno do sonho
naufragado em larvas

Há palavras tão lindas
e o amor
esta palavra que não é linda
é maior do que todas elas
tudo deixo à palavra amor
tudo
e às outras palavras

26 de abril de 2021

Prosa

O senhor veja: a canção é esta: Deus existe
as árvores são verdes, o rio não passa
das margens do seu ser rio
a não ser na cheia
aquele lamaçal. O senhor veja:
os cachos do amor ainda amadurecem
mesmo nos tempos da maior doença
os lírios do testemunho ainda brotam
os olhos enamorados da ternura
castanhos, dourados, vitoriosa
a boca sorrindo gostoso do dia.
Um cachorro, o senhor sabe, sabe
ser companheiro - talvez porque não fale?
O senhor veja: a canção é esta: as árvores
ainda germinam vivas por baixo do lamaçal
e Deus existe, o senhor veja.

18 de abril de 2021

Cenário aniversário

Para Michele

Dos teus olhos a luz dourada do entardecer
fluía, amor, luzia a fonte alegre do dia
que é você
e as flores que você colocou sobre o bolo
de limão siciliano e morango
pintavam o contorno pomar do seu sorriso
e quarava sob o sol do seu coração
as folhas viçosas do nosso casamento
um ribeiro de água fresca.