Nossa terra tem grandes sonhos
à sombra da fúria do sol.
Os homens que em brasileiro sonham
não sonham como os outros, a sós.
Nossa vida tem mais dança
e também tem mais ladrões.
Nosso xadrez tem mais rainhas
mas também tem mais peões.
Quando cismamos bem sozinhos
cismamos a mesma cisma
enquanto o caminho que trilham
os nossos sonhos são vizinhos.
Se depreciamos é por amá-la
esta nossa terra em pó
restando-nos à sombra da fúria
não sonharmos sonhos a sós.
Não permita, Deus, se apague
esse nosso sol sonho em comum!
O que em brasileiro dizemos
e que não pode em outros termos
ser dito por qualquer um.
15 de fevereiro de 2018
4 de fevereiro de 2018
esta pouca memória
esta pouca memória
é uma grande fortuna
dessalga o rancor
dos mares
retém dos males
a espuma
esta pouco memória
medida em mãos hábeis
não compõe a má resposta
que me cuspam
que venha um tempo
inconsútil e teso
e minha carne roa
até lá já terei
uma mente pura
de pedra escavada
pela contínua chuva
desta pouca memória
reescultora
de velhas histórias
grande fortuna
é uma grande fortuna
dessalga o rancor
dos mares
retém dos males
a espuma
esta pouco memória
medida em mãos hábeis
não compõe a má resposta
porque não se lembra
da pergunta mas antes
compõe o sol
que enxuga as bocasque me cuspam
que venha um tempo
inconsútil e teso
e minha carne roa
até lá já terei
uma mente pura
de pedra escavada
pela contínua chuva
desta pouca memória
reescultora
de velhas histórias
grande fortuna
31 de janeiro de 2018
Os estados da bananeira e a garoa
Antes
As extremidades verdes contra o sol são lábios
frescos ou membranas ou pálpebras translúcidas
elucidadas em amarelo. O que há com minha vida
que não é tão harmoniosa? O que houve de poda
em você também houve em mim, pelos machados
e por tempestades, bananeira, então por que
essa lacuna de formas entre nosso olhar?
Vem vindo um vento novo; vejo as longas folhas
quase asas asiáticas contra o avanço platina
da nuvem orgulhosa que vem pela tua sede.
Quem como tu mantém a solar índole
mesmo com tal avanço de sombras?
O fruto das nuvens ama o fruto da bananeira
como meu coração, fruto de mim, ama
o que na mulher amada encontro par
coração dela, fruto dela.
Durante
Um tamborilar chiando chaleiras
bem de manso.
Depois
Levei o bebê aos teus pés, pé de bananas.
Desfiando assim teus lábios respinguei
a memória da chuva em você sobre nós.
O bebê riu.
As extremidades verdes contra o sol são lábios
frescos ou membranas ou pálpebras translúcidas
elucidadas em amarelo. O que há com minha vida
que não é tão harmoniosa? O que houve de poda
em você também houve em mim, pelos machados
e por tempestades, bananeira, então por que
essa lacuna de formas entre nosso olhar?
Vem vindo um vento novo; vejo as longas folhas
quase asas asiáticas contra o avanço platina
da nuvem orgulhosa que vem pela tua sede.
Quem como tu mantém a solar índole
mesmo com tal avanço de sombras?
O fruto das nuvens ama o fruto da bananeira
como meu coração, fruto de mim, ama
o que na mulher amada encontro par
coração dela, fruto dela.
Durante
Um tamborilar chiando chaleiras
bem de manso.
Depois
Levei o bebê aos teus pés, pé de bananas.
Desfiando assim teus lábios respinguei
a memória da chuva em você sobre nós.
O bebê riu.
23 de janeiro de 2018
O profeta na noite
Chove.
Eis que a morte espalha medo e mágoa até nas feras
enrolando seus cabelos na água desabada em cólera.
Olhem:
dentro dela alguém cavalga rasgando véus soturnos
sob a lâmina do cajado puro que é sua flâmula e luz.
Troveja.
As montanhas se destacam desse negror tempestuoso
quando o raio feito osso rasga as entranhas da noite.
Vejam:
as torres longínquas tremeram ao sinal adormecido do
golem cujo destino é guardar o tempo no fundo do mal.
Venta.
Quem é esse que voa sem ter asas trazendo iluminadas
brasas na boca para que purifiquem sua língua seca?
Vejam:
o cavalo sob o ancião rasga a noite para fazê-la dia.
Troveja.
O profeta em sua montaria mescla o trovão à sua voz.
Eis que a morte espalha medo e mágoa até nas feras
enrolando seus cabelos na água desabada em cólera.
Olhem:
dentro dela alguém cavalga rasgando véus soturnos
sob a lâmina do cajado puro que é sua flâmula e luz.
Troveja.
As montanhas se destacam desse negror tempestuoso
quando o raio feito osso rasga as entranhas da noite.
Vejam:
as torres longínquas tremeram ao sinal adormecido do
golem cujo destino é guardar o tempo no fundo do mal.
Venta.
Quem é esse que voa sem ter asas trazendo iluminadas
brasas na boca para que purifiquem sua língua seca?
Vejam:
o cavalo sob o ancião rasga a noite para fazê-la dia.
Troveja.
O profeta em sua montaria mescla o trovão à sua voz.
22 de janeiro de 2018
A angústia abocanha o nosso peito
É a cidade.
Sempre prestes ao abismo
ou prestes ao maior fogo
sempre prestes à civilidade
ou à maior barbárie.
A culpa é dela.
e um coração que não parece
ser, um coração que zomba.
A culpa é dela.
porque há quem tenha o que não temos.
É a cidade.
Sempre prestes ao abismo
ou prestes ao maior fogo
sempre prestes à civilidade
ou à maior barbárie.
A culpa é dela.
Passa um carro. Passa um sorriso.
Passa um sonho ruínas de tão antigo.
Se não os temos, nada somos.
Passa um sonho ruínas de tão antigo.
Se não os temos, nada somos.
A cidade tem os cabelos
fatigados de fuligeme um coração que não parece
ser, um coração que zomba.
A culpa é dela.
16 de janeiro de 2018
Passarinho
Azul um passarinho me disse
cansadinho e meio triste
"ah se eu pudesse não ter pouso!
ah se no voo houvesse um ninho
sem galho, orvalho de colocar
minhas asas dormindo no ar!"
Azul eu lhe respondi
também triste e cansadinho
"ah meu passarinho! você
não tem do que reclamar!
quem me dera um teto mínimo
mesmo no galho já caindo
mesmo rente ao vendaval!
tenho que pagar aluguel
alma entregue num papel
e não tenho como pagar!"
Azul a gente viu a tarde
ficar azul mais tarde
ele de dó então cantou
para que eu após chorasse
e eu chorei azul de dor
como quem choraria
mesmo se ele não cantasse
cansadinho e meio triste
"ah se eu pudesse não ter pouso!
ah se no voo houvesse um ninho
sem galho, orvalho de colocar
minhas asas dormindo no ar!"
Azul eu lhe respondi
também triste e cansadinho
"ah meu passarinho! você
não tem do que reclamar!
quem me dera um teto mínimo
mesmo no galho já caindo
mesmo rente ao vendaval!
tenho que pagar aluguel
alma entregue num papel
e não tenho como pagar!"
Azul a gente viu a tarde
ficar azul mais tarde
ele de dó então cantou
para que eu após chorasse
e eu chorei azul de dor
como quem choraria
mesmo se ele não cantasse
12 de janeiro de 2018
Lavrador
Você vai morrer. E os reis vão morrer.
Morrerão as leis, morrerá quem já morreu.
Os miseráveis também, e entre eles
eu. Porém, de nós, quem já é íntimo
do chão? Quem lavra com suor
a terra promissora de pão?
Todo homem sem calos
toda mulher sem dedos ásperos
está mais distante desse pó que é pia
batismal onde me banho e purifico
longe desse resquício marceneiro
crístico e longe desse brilho.
Das quinas, então, desses calos santos
sedimentos eu te canto: quando
for a minha hora
ao menos eu mesmo
terei cavado minha própria cova.
Morrerão as leis, morrerá quem já morreu.
Os miseráveis também, e entre eles
eu. Porém, de nós, quem já é íntimo
do chão? Quem lavra com suor
a terra promissora de pão?
Todo homem sem calos
toda mulher sem dedos ásperos
está mais distante desse pó que é pia
batismal onde me banho e purifico
longe desse resquício marceneiro
crístico e longe desse brilho.
Das quinas, então, desses calos santos
sedimentos eu te canto: quando
for a minha hora
ao menos eu mesmo
terei cavado minha própria cova.
8 de janeiro de 2018
Mamom
"Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom." - Mateus 6:24
Quando eu grito, vossas famílias ao longe
se dissolvem ao meu encontro.
Enquanto eu falo, todos os demais
se calam. Quem sou? Quem
sou? Eu sou a razão do fogo em vosso olhar
sou verde vosso verdadeiro amor.
Os homens rastejam atrás da paz?
Pensam descomunais no conforto do amor?
Atrás de mim, é que rastejam.
É só em mim, que vocês pensam.
Será por que brilho? Por que douro?
Por que sois ásperos insetos sem luz
com a face a bater contra a lâmpada?
Quando eu sussurro, vosso ouvidos dilatam
vórtices ao redor para me ouvir melhor.
Quando eu cuspo, lançam-se
buscando apanhar no ar
minha seiva com a língua.
Quem sou? Imperador de todas
as almas, eu sou, eis
meu século! Quem sou? Não
reconhecem a face de vosso senhor?
Quando eu grito, vossas famílias ao longe
se dissolvem ao meu encontro.
Enquanto eu falo, todos os demais
se calam. Quem sou? Quem
sou? Eu sou a razão do fogo em vosso olhar
sou verde vosso verdadeiro amor.
Os homens rastejam atrás da paz?
Pensam descomunais no conforto do amor?
Atrás de mim, é que rastejam.
É só em mim, que vocês pensam.
Será por que brilho? Por que douro?
Por que sois ásperos insetos sem luz
com a face a bater contra a lâmpada?
Quando eu sussurro, vosso ouvidos dilatam
vórtices ao redor para me ouvir melhor.
Quando eu cuspo, lançam-se
buscando apanhar no ar
minha seiva com a língua.
Quem sou? Imperador de todas
as almas, eu sou, eis
meu século! Quem sou? Não
reconhecem a face de vosso senhor?
5 de janeiro de 2018
A Saudade
para Michele Marcial
Um sol que não esquenta cresce ao longo das serras
e é a planície do coração sensível que se encolhe
é uma perversidade ante a gélida distância
uma mudez que avança é a falta
diante do dia que já não fogueia
são armaduras reluzindo cavaleiros
que há muito não as habitam em glória
são frutos prometendo gomos em sumo
podres na ausência de sementes férteis
o mal sal sobre a terra do lar se estende
de quem aqui está sem estar
é o canto gregoriano é a lua minguando
de quem aqui está sem estar
porém
então
ela
diz
eu te amo
ah
relâmpagos de sonho
poderei assim sobreviver ao sol herético!
Um sol que não esquenta cresce ao longo das serras
e é a planície do coração sensível que se encolhe
é uma perversidade ante a gélida distância
uma mudez que avança é a falta
diante do dia que já não fogueia
são armaduras reluzindo cavaleiros
que há muito não as habitam em glória
são frutos prometendo gomos em sumo
podres na ausência de sementes férteis
o mal sal sobre a terra do lar se estende
onde ondas de frio sob órbitas longínquas
mineram o vazio que se enche é a falta
é o canto gregoriano é a lua minguando
de quem aqui está sem estar
porém
então
ela
diz
eu te amo
ah
relâmpagos de sonho
poderei assim sobreviver ao sol herético!
21 de dezembro de 2017
Em Sodoma
Alguém leal, agachado diante das brasas
triste em cumprimento ao seu próprio coração
percebe que a alma pesa mais em Sodoma
embora o corpo feito penugem embriagado voe.
Alguém leal, melhor, maior, constata
a gratidão e a honra como madeira e corda
de um arco sem flechas restantes. Compõe:
"a alma pesa mais em sodoma
arquétipo granito de egoísmo
contanto que tenha havido espírito
e seja soterrado pelo abismo
contanto que o olhar tenha sabido
experienciar o fogo dos sentidos
terremoto ígneo e difícil
em sodoma haver o peso dos vícios
sodoma eles te amam o peso
que em israel sequer haviam tido
sodoma tem muitos filhos
que nela ancoram fluidos aflitos"
O fogo nos estandartes queimados
em frente ao acampamento de batalha.
As bandeiras que estalam
espalhando o som da fogueira.
Em Sodoma quem tem alma
sofre diante das brasas.
Em Sodoma quem tem alma
não tem mais nada.
triste em cumprimento ao seu próprio coração
percebe que a alma pesa mais em Sodoma
embora o corpo feito penugem embriagado voe.
Alguém leal, melhor, maior, constata
a gratidão e a honra como madeira e corda
de um arco sem flechas restantes. Compõe:
"a alma pesa mais em sodoma
arquétipo granito de egoísmo
contanto que tenha havido espírito
e seja soterrado pelo abismo
contanto que o olhar tenha sabido
experienciar o fogo dos sentidos
terremoto ígneo e difícil
em sodoma haver o peso dos vícios
sodoma eles te amam o peso
que em israel sequer haviam tido
sodoma tem muitos filhos
que nela ancoram fluidos aflitos"
O fogo nos estandartes queimados
em frente ao acampamento de batalha.
As bandeiras que estalam
espalhando o som da fogueira.
Em Sodoma quem tem alma
sofre diante das brasas.
Em Sodoma quem tem alma
não tem mais nada.
17 de dezembro de 2017
O livro de sal
A guerra já vem nos afastando por um ano.
Hoje consegui ligar para ela. Ela me disse
que só consegue ler quando solitária
ou quando próxima de mim. Disse
que no campo de refugiados é impossível
e que não ler torna tudo aquilo pior.
Será porque
a leveza entre nós dois é idêntica
a de quando alguém está em paz num eu?
Ela diz isso à distância
na distância que às vezes grandes almas têm
para que, faróis, iluminem áreas não sobrepostas.
Ela disse depois que tinha de ir. Disse
que me amava, sonhe com Deus.
Fiquei feliz por havê-la no mundo e desliguei.
Agora estou de guarda na noite
quase calma do litoral e posso sentir
que quem tem no coração o valor exato de tal amizade
terá as mãos firmes no timão durante a tempestade
terá o espírito calmo
quando explodir o trovão destinado
lendo no maior furacão
o livro de si. Troveja. Ou será a artilharia?
Troveja. Que venha a tempestade.
Hoje consegui ligar para ela. Ela me disse
que só consegue ler quando solitária
ou quando próxima de mim. Disse
que no campo de refugiados é impossível
e que não ler torna tudo aquilo pior.
Será porque
a leveza entre nós dois é idêntica
a de quando alguém está em paz num eu?
Ela diz isso à distância
na distância que às vezes grandes almas têm
para que, faróis, iluminem áreas não sobrepostas.
Ela disse depois que tinha de ir. Disse
que me amava, sonhe com Deus.
Fiquei feliz por havê-la no mundo e desliguei.
Agora estou de guarda na noite
quase calma do litoral e posso sentir
que quem tem no coração o valor exato de tal amizade
terá as mãos firmes no timão durante a tempestade
terá o espírito calmo
quando explodir o trovão destinado
lendo no maior furacão
o livro de si. Troveja. Ou será a artilharia?
Troveja. Que venha a tempestade.
6 de dezembro de 2017
Michele
É natural a um homem de ouvidos cansados
a paixão por essa mulher de silêncio denso em noites
o olhar que à luz no escuro refulge laminar
seu abraço fogo apaixonar
quem suava frio
É natural porque ela lembra uma espada
desembainhada sob a lua
o triunfo exato do crepúsculo num regaço
qualquer eclipse ao meio-dia
o tato do sol nas bocas frias
Essa mulher de pouco dizer de muito cuidar
me lembra o que eu seria
se ao não ser o que sou
eu fosse mulher
uma floresta incógnitas trilhas
essa mulher que me esculpe de sonho
a paixão por essa mulher de silêncio denso em noites
o olhar que à luz no escuro refulge laminar
seu abraço fogo apaixonar
quem suava frio
É natural porque ela lembra uma espada
desembainhada sob a lua
o triunfo exato do crepúsculo num regaço
qualquer eclipse ao meio-dia
o tato do sol nas bocas frias
Essa mulher de pouco dizer de muito cuidar
me lembra o que eu seria
se ao não ser o que sou
eu fosse mulher
uma floresta incógnitas trilhas
essa mulher que me esculpe de sonho
26 de novembro de 2017
Self-made man
Eu quis ser amado, sobretudo amado, coisa
que trabalhando nos arrozais não era possível.
Eu via as belas camponesas entregues
aos outros, vencido, transtornado, grande
minha fome de vínculos ternos íntegros
meu corpo sangrando na condição ímpar
de independência compulsória
solitária. Eu quis ser amado.
E vendo o preço dos amores
eu quis comprá-lo. Os carros, os filmes
os cavalos: eu quis comprá-los.
E o ouro foi o mensageiro alado
e pálido a preencher o delgado desprezo.
Eu quis ser amado. E enfim sou.
O ouro fez com que os corações
voltassem a face para o meu beijo.
Eu sou amado. Hoje, sim, eu sou amado.
Olhai os cromáveis aros do meu arado!
Sou amado. O corpo agora insolitário.
Eu sou amado.
que trabalhando nos arrozais não era possível.
Eu via as belas camponesas entregues
aos outros, vencido, transtornado, grande
minha fome de vínculos ternos íntegros
meu corpo sangrando na condição ímpar
de independência compulsória
solitária. Eu quis ser amado.
E vendo o preço dos amores
eu quis comprá-lo. Os carros, os filmes
os cavalos: eu quis comprá-los.
E o ouro foi o mensageiro alado
e pálido a preencher o delgado desprezo.
Eu quis ser amado. E enfim sou.
O ouro fez com que os corações
voltassem a face para o meu beijo.
Eu sou amado. Hoje, sim, eu sou amado.
Olhai os cromáveis aros do meu arado!
Sou amado. O corpo agora insolitário.
Eu sou amado.
23 de novembro de 2017
Apontamento no banquete de aniversário
Os campos não aprenderam a reter mais verde e os rios ainda fluem com idêntica maestria de há 23 anos. O sol se mantém indiferente à nossa condição ínfima e mortal (indiferente à mortalidade dele próprio) e nada aponta que as intempéries rosnem com mais ferocidade. No entanto: a diferença é que desde lá existo, tenho olhos e cheiro, tenho pele e vejo, tenho nariz e toco. O universo já existia, antes de mim, a diferença é que agora ele existe.
21 de novembro de 2017
Biblioteconomia
O céu noturno latejante de galáxias tem
sílabas imensas de luz, amor e destino
mesmo se não as vemos na tempestade
mesmo quando não cremos que estrelas
ainda existam, porque de não as ver
deixam de existir, nos interrogando o que
faz o céu sob a capa dura das nuvens?
indecifráveis poemas sonhando dilemas
E ontem, e à noite, chovia: em nosso quarto
e além dele, nos campos macios dos índices
tombando os frutos sumarentos dos sumários
a pele era a página com que nos compunhamos
longe das fronteiras marciais letras de arame
longe dos altos oceânicos letras de atol
longe de juízes rancorosos letras perenes
perto inclusive dentro apenas letras de amor
17 de novembro de 2017
O velho devedor
Vi vultos vindo na lava
do oitavo dia. Desvario? A vida
ex-verde das dádivas velhas.
do oitavo dia. Desvario? A vida
ex-verde das dádivas velhas.
7 de novembro de 2017
O irmão aconselhador
A constituição de um homem é o seu caminho
cheio de azuis que seja ou cheio de espinhos
Como homens grandes não cabem em façanhas
os homens menores cabem em qualquer ninho
Como um dia fui às montanhas
irás para o mar - e também sozinho
cheio de azuis que seja ou cheio de espinhos
Como homens grandes não cabem em façanhas
os homens menores cabem em qualquer ninho
Como um dia fui às montanhas
irás para o mar - e também sozinho
Reencontro
a longa cólera enfim resoluta, o gordo
fio enfim desembaraçado: o mesmo
olharzinho de primavera
o mesmo bocejo doce
cor de canela
fio enfim desembaraçado: o mesmo
olharzinho de primavera
o mesmo bocejo doce
cor de canela
Ensinamento no banquete dos jovens pais
Se o filho pródigo não tivesse levado sua parte em ouro, ele nunca retornaria à casa paternal. Em primeiro lugar porque se desde o início ele nada tivesse a perder, ele nada teria para recuperar. Em segundo lugar porque o consentimento da família transforma a transgressão em exercício de estilo, em fruto espontâneo da adolescência. Em terceiro lugar porque ele foi odiando a mansidão do pai, seu consentimento, e a despedida banhada em ódio já planeja o retorno. Nas três razões, o mesmo mote: é o ódio quem afia o amor e o torna perfeito.
5 de novembro de 2017
Penélope
Sim, eu já sabia que seria pouco o teu ficar. Mas
ao cultivar seu corpo de perfumes em mim houve
o delírio: construir uma casa de estadia milenar.
Sim, eu já sabia que o florescido no verão morre
vindo o outono, e que não em vão sem dolo
as árvores se mantém invictas no lar.
Porém: o que fazer com os cômodos
que cultivei, as amplas portas feitas
para um par, esse leito há décadas
com cheiro de há pouco?
ao cultivar seu corpo de perfumes em mim houve
o delírio: construir uma casa de estadia milenar.
Sim, eu já sabia que o florescido no verão morre
vindo o outono, e que não em vão sem dolo
as árvores se mantém invictas no lar.
Porém: o que fazer com os cômodos
que cultivei, as amplas portas feitas
para um par, esse leito há décadas
com cheiro de há pouco?
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