30 de junho de 2017

Cantos

A água nunca envelhece
O cântaro sim

A água: as canções que te dediquei
O cântaro: você em mim

29 de junho de 2017

Cebola

te corto e acabou:
as antessalas aureoladas
na ardência, camadas
sob a pele cobre, violência

cebola: quem te irmanou
ao meu espírito
só círculos e vícios
e dentro não mais nadas?

26 de junho de 2017

Canção de confiança

Há a crença em alguma beleza
no olhar de estrela da criança
no riso que lança sobre a mesa
ao ver o presente que não alcança

Há a crença em alguma beleza
no som sem cordas que dança
em nós quando vemos a tristeza
no que é alheio e sem esperança

Há a crença em alguma beleza
e há mais outra coisa que avança

Há a beleza, de fato, e a certeza
de que nela haverá confiança

3 de junho de 2017

Mênstruo

Eis que um sol do templo mais férreo
Eis que a luz rubra e santa da raízes 
Eis que o Fogo

Descem do céu de onde todos viemos 

A seiva morna do amanhecer
Das mais antigas fronteiras
Na doce ferida aberta sem lâminas

19 de maio de 2017

Rural Sacerdócio

muitas vozes no entorno de mim
espalharam pelo capim tais terríveis
palavras: "quem cuida dos cuidadores
dos sensíveis amadores que espalham
amor?"

a voz nutridora do fogo que une tudo
cujo calor fundo nos revigora contínuo
respondeu no entanto à voz do mundo
claro feito um sim claro feito um sino:
"aquele que cuida é cuidado pelo
próprio amor matutino que dedica

pois quando a mão alisa o cavalo
também os dedos são acariciados
nos pelos equinos que acaricia"

8 de maio de 2017

Lição de poesia para Amora

Tem palavras que se parecem
e são bonitas. Um exemplo é: sal
e sol. Aí você mistura as palavras
pra que a imagem faça cosquinha
no coração. Um solzão feito de sal.
Imaginou? O sal sendo pozinho de sol
bem brilhante mesmo. Imaginou?
É isso. Mas também é o contrário.
Quando palavras não se parecem
e quando a gente lê toma um susto
idem de novo a cosquinha a gente sente
assim: caramujo de gude
árvore sapatinho
pão relâmpago
etc É isso. Mas também é mais.
Quer abrincar de?

17 de abril de 2017

Dona Teresa

Desde que a vó morreu
Há uma larga cratera na Terra
Um vácuo pela ausência do seu amor
Nos meus olhos
Uma tristeza nova
Na primeira cor da manhã

Pois o amor que ela me dedicava
Ninguém mais poderá me dedicar

Ao mesmo tempo
Também surgiu com sua ausência
O reconhecimento da necessidade
De que o tesouro a mim entregue
Não pode amontoar-se num canto
Que não posso ousar ser aquele
Cuja mesquinharia desonrasse
O nome da Vó Teresa

Assim
Dou continuidade ao fluxo
Único caminho digno ao seu sorriso 
E o amor dedicado a mim por ela 
Retorna ao mundo naqueles que eu amo

 

12 de abril de 2017

Cantiga de Abris

poema selecionado no concurso Poemas no Ônibus e no Trem, da Prefeitura de Porto Alegre, em 2012

O que quer dizer
diz. As coisas
precisam da tua voz
para existir.

O que tua voz quiser evitar
daquilo que tu sempre quis
ignora: que do rubor
não nascem rubis

que só por dizer-se
alegre
já se é
feliz.

11 de abril de 2017

Quaresma

para Rodrigo Faustino, na ocasião de seu 25º aniversário

"Eu vim para lançar fogo sobre a terra: e como gostaria que já estivesse aceso!" - Lucas 12,49

O coração ocre do deserto
purificado pelo sal do suor
haverá de me apontar, Pai, o certo,
haverá, Senhor, de me dar o melhor.
Pois as rachaduras em meus lábios
florescidas na ausência de tua água
formaram setas rumo aos sábios
provérbios de penugem calma
e feridas que, agora abertas,
um dia, benditas, irão se fechar
sob o sol santo que é par
dAquele que disse aos poetas
"Deixem se alastrar o fogo!
Pois fui eu mesmo quem o trouxe
e aqui o derramei, neste chão arenoso".

6 de março de 2017

Cada coração humano é um reino

Cada coração humano é um reino
Com infinitos castelos de inumeráveis cômodos
Exércitos sérios duquesas adultério vinho pântanos
E cada coração humano é diferente embora todos
Sejam reinos e conheçam o sol a chuva e a noite

Há os reinos costeiros cuja saciedade provém do sal
Que mesmo estéril faz saúde brotar no iodo cotidiano

Há reinos de ouro maciço onde povos miseráveis
Escorrem de fome diante das ameaças dos soldados

Também os que são habitados por poucos súditos
Poucas árvores poucos bichos - reinos dormentes

E há brasões. Muitos! Tantos quanto são as estrelas
Que faltam para transformar a noite em pura luz

No entanto todos os reinos são isolados e só conhecem
A si próprios; um reino manda emissários a outros reinos
Pelos dedos pela boca pelos olhos pelo cheiro
Os emissários nunca retornam e o reino vizinho
Continua tão desconhecido quanto antes

De curiosidade tristeza impotência
Alguns reis choram desconsolados contra o veludo mais puro
Outros dão banquetes e mostram-se trôpegos e indiferentes
Outros dizem sequer lembrar de emissários um dia partindo

Todos porém ficam preocupadíssimos
E meditam tal solidão

1 de março de 2017

O Instinto Astronauta da Espécie

Quando a mobília da alma de um homem
é esculpida na pedra, não comprada já pronta
Quando seu ódio se alarga a ponto de abrigar o ódio de todos
e sua calma começa a demonstrar o Caminho
Quando o suor da própria terra se confunde ao seu
e profetas de longínquos areais sorriem a sua seriedade

Então seus irmãos passam a ter esperança
e um empenho marmóreo no trabalho cotidiano
banha-lhes em infinita juventude

Quando suas rugas e seus andrajos posicionam-lhe
entre valorosos primórdios e o futuro absoluto
Quando ao falar ele parece pegar ao colo
cada um dos seus e protegê-los feito um pai
Quando ao redor do fogo ele conta de sonhos
em planetas de místico jade e doce capim

Então toda a raça reconhece-se no universo
como estrelas a comer estrelas ou alimento
a suster a tarrafa das constelações

Quando, enfim localizado, este homem sobe furioso
de madrugada à montanha mais próxima de Deus
Quando constrói com o próprio sangue entre as unhas
algo ogival tão rápido quanto muscular e divino
Quando vai banhado em lágrimas jurando retornar
e deveras retorna, tão glorioso quanto são e sorrindo

Então toda a aldeia passa a carregar em si
um olhar pra cima e ir além
um olhar pra si e ir além
um Olhar