Como se aos homens fosse agora dado
o cetro de governar mundos inteiros
e fosse ordenado a eles como pagamento
que não governassem mais a si mesmos
- o smartphone reina e é reinado.
Embora vibre como as coisas vivas
pulsam sob a pele que lhes cobre
o smartphone não respira, embora
haja ar dentro dele que se move.
Este morto cetro plano, fino, quadrado
feito de quinas e plástico, de luz e aço
possui esquinas macias
como macia não é a vida
e como macia é a sua tela ao tato.
Macios são seus olhos filmando
os rostos macilentos mas filtrados
com macias câmeras cujo pastoreio
consiste em fazer belo o feio
e mutilar dos corpos o errado.
Como se aos homens fosse agora dado
o cetro de governar mundos inteiros
e fosse ordenado a eles como pagamento
que não governassem mais a si mesmos
- o smartphone reina e é reinado.
O rei mantém essa coroa como refém
sendo igualmente refém dela o coroado.
Eis o cetro cujo controle é ser também
ele próprio controlado.
3 de agosto de 2024
O smartphone
31 de julho de 2024
Hoje faz 10 anos que publiquei o meu primeiro livro. Eu tinha 19 anos e aquele foi um dos dias mais felizes da minha vida.
Desde então, no que diz respeito ao meu trabalho como escritor, publiquei mais quatro livros. Embora esse primeiro livro tenha sido um fracasso de público, assim como todas as minhas obras posteriores até hoje, fico feliz ao relembrá-lo.
Isso faz dele, contraditoriamente, também um grande sucesso, já que publicar foi a materialização entre capas daquilo que faço e continuo a fazer por amor.
O volume 2 dessa mesma obra, inclusive, é dedicado para meu avô Luiz e para minha avó Teresa, que faleceria poucos meses depois, ainda em 2014. Por amor escrevi e dediquei a eles, como por amor se deve viver.
Relendo-o, não o considero um bom livro. Mas considero bom ter acreditado nisso que existe em mim, não como um hobby, nisso que existe em mim como trabalho, razão, vida e amor: escrever.
Parabéns, primeiro livrinho.
28 de julho de 2024
O chá no domingo à noite
O chá é uma espécie de beijo
desde que se soprado arome
descanso no morno silêncio
e que a ele também se some
uma noite de clima ameno
- noite, a espécie de beijo
feito de melissa ou medo
quando nela percebemos
o tempo que foi perdido
com o medo
de não perdermos tempo.
23 de julho de 2024
Humanos todos quase são poças
ou grandes, as poças
desconhecem asas
a não ser quando
refletem-nas
sem pensá-las.
Poças, poças, se pisadas
turvam-se e enxaguam
pés e patas, turvam-se
quando cospem-nas
também as bocas.
rebanho, todos
quase são poças
(poucos os poços)
poças pisadas, rasas
se as asas do céu
elas refletem
pois sem de volta
olhá-las.
20 de julho de 2024
O senti nela
Toda noite é o fim do mundo.
Toda manhã, o seu recomeço.
Bandeiras tremulam no escuro.
Trovejam. Cantai, eu adormeço.
Toda noite é o fim do mundo.
Toda manhã, o seu recomeço.
Espadas inúteis contra muros
são meus olhos nos imensos
abismos da noite, tão fundos
e feitos de solidão, silêncio.
Toda noite é o fim de tudo.
Mas da manhã ela tem medo.
9 de julho de 2024
O não ser lido
Mesmo se não houvesse portos
os navios existiriam, porém
também aos portos eles rumam.
Mesmo se não houvesse ouro
os adornos brilhariam, porém
também pelo ouro eles brilham.
Mesmo se não houvesse outros
eu ainda escreveria, porém
também para os outros escrevo.
Quais outros?
Qual ouro?
Quais portos?
Teu é o dia e tua é a noite, Senhor.
A mim coube apenas escrever.
5 de julho de 2024
Oratórios Ipês
Eu quis adornar de palavras
o meu país pra quê? Já há ipês.
Em dificuldades de pouca chuva
o ipê em vendavais flore, embora.
Finais de junho, às vezes, pipas
decorando árvores quase secas.
Eu quis fingir flores na língua.
Pra quê? Há ipês. Alguns
rosa-melodia, cor no beijo
da esposa, outros ouro-sim
ou branco-sal e roxo-sol.
Ipês (vivos) faço de oratório.
E agradeço no haver ipês
o anúncio de Deus haver
quando neles ajo meus olhos.
29 de junho de 2024
Às portas dos 30 anos
Juventude, passagem
entre o entusiasmo
e a seriedade, levo
teus olhos (duas aves)
e tua boca (espasmo
íntimo) comigo: estou
vivo contigo saliva
e imagem embora
envelheça-me o juízo
e vença-me a idade
Juventude, tenra
pastagem da tolice
verde florida pela
bosta ingenuidade
- aqui me despeço
Antes tarde
do que sempre
antes perto
e às portas
do que em parte
21 de junho de 2024
Outro e ouro
Quem diz que tudo sempre é feio
(um feio de impossível novidade)
nunca amou, nunca viu o ribeiro
em que o amor transforma a cidade
infeccionando o cimento com o sol
(e com pétalas vivas suas partes)
nunca amou, nunca se fez o farol
à beleza que enfebrece a realidade.
Queres conhecer a beleza? Ame.
O amor faz sempre o mundo novo.
Terrivelmente belo é seu enxame
que tudo faz em mel outro e ouro.
16 de junho de 2024
Latumia
Há muitos meses não chove, meu irmão.
Há muitos meses eu oro por chuva
os joelhos como as pedras maceradas
contra o chão.
Se não fosse pelos olhos da amada
eu sequer lembraria em castanho
de como o cheiro de chuva abre
a beleza da espera na gente.
É fato que a falta
de haver água rasga
e seca meu coração
como esta terra.
É fato que estou cansado
como um santo
sem a alegria da santidade.
Pois se eu clamasse
por justiça, irmão
clamaria contra mim mesmo.
Eu clamo por piedade.
11 de junho de 2024
Os nomes das estrelas
"Conta o número das estrelas, chama-as a todas pelos seus nomes. Grande é o nosso Senhor, e de grande poder; o seu entendimento é infinito." - Salmos 147:4,5
É bom que tudo passe
exceto o que é eterno.
É bom que morra o mortal
e renasça o cíclico inverno.
É bom, Senhor, teres feito
o que fizeste, sem excesso.
Estrelas, talvez já mortas
mas cujo brilho externo
até nós demora, distantes
de seus nomes diversos.
É bom que tudo passe
exceto o que É eterno.
O que existe, existe: bom
é ser exato o universo.
26 de maio de 2024
O peão no xadrez
O peão muito ensina
do xadrez que é a vida.
Mover-se e atacar
de formas distintas.
Entregar-se ao que é
mais forte e acima.
Não desprezar sequer
esta ilusão mínima
em tornar-se cavalo
bispo, torre, rainha
ou ser o xeque-mate
(coisa maior ainda)
na rival aristocracia
e do escudo à espada
atravessar a fina linha.
5 de maio de 2024
Contemporâneo
A angústia mais importante
no coração contemporâneo
parece mesmo ser a grande
sensação de ter perdido
o tempo certo de fazer algo
As estações que lotearam
a dor de nossos antepassados
parecem não funcionar
Nossas estações hoje
são estações de consumo
dia das mães, dos namorados
natal, descontos, promoções
e o tédio do comprar
e o medo de ser obsoleto
Safra, seca, semeadura, colheita
palavras que pouco nos dizem
hoje
um dia foram responsáveis
por organizarem em campos
o tempo antigo
Ali era tempo de semear
ali era tempo de colher
e o afastar-se disso nos diz
algo como "tudo pode acontecer
a qualquer momento
angustie-se"
E a angústia mais importante
no coração contemporâneo
parece mesmo ser a grande
sensação de ter perdido
o tempo certo de fazer algo
Enriquecer, casar
ter filhos
conseguir retirar
de forma autônoma
os medos de dentro
de suas armaduras
Construir um legado
que abarque
ao outro a totalidade
do que é mais belo
dentro de cada um
Amar, como se tempo
de amar
houvesse
Ai de nós
mastigados pela propaganda
ansiosos
por uma vida de rede social
ai de nós
a terra já pouco nos fala
o céu já pouco nos fala
e ficamos apenas
com nossas próprias vozes
ecos incertos
por não saberem
se estão no tempo certo
de lamentar
1 de maio de 2024
30 de abril de 2024
A razão dos adultos abandonarem a poesia
O sangue da poesia é espesso
- coagula pétalas, espinhos
e perfuma um roseiral imenso.
O cotidiano não suporta isso
- a cor forte deste cheiro
enoja adultos compromissos.
O sangue da poesia é veneno
- ao adulto recorda o viço
perdido, vermelho, purulento.
18 de abril de 2024
Eu tenho muitos, muitos textos dedicados para a Michele, minha esposa, que hoje faz 25 anos. Gostaria de adicionar mais um texto a essa coletânea que, creio, já daria um livro. Vou listar algumas coisas que amo nela.
Amo a forma como a Michele está normalmente bem disposta com a vida. Eu disse algo assim para ela, há pouco, quando Michele saiu para comprar uma resistência elétrica (que eu disse que compraria, mas acabei não comprando, vejam só) para o chuveiro principal aqui de casa.
Ela saiu, começou a chover e eu imaginei que isso a deixaria chateada. Mas, quando ela chegou em casa, estava sorridente - feliz, inclusive, por pegar um pouco de chuva.
Amo também a forma da Michele amar a beleza, de modo geral.
Praticamente todos os dias eu a chamo ou ela me chama para vermos juntos o pôr do sol. É cotidiano, também, tirarmos fotos de coisas bonitas que encontramos quando vamos ao jardim e o outro não estava lá.
Músicas, pinturas, a forma como determinado vento passa a entrar em determinada época do ano por determinada janela.
Amo o fato da Michele se chamar Marcial (o que segundo o dicionário significa "relativo à guerra") e ser geralmente tão pacífica. Amo o gosto dela para cerâmicas, cafés e poemas.
Ela é a minha esposa e hoje faz 25 anos. Pensar em envelhecer com Michele: essa ideia também é muito amada por mim.
9 de abril de 2024
A flor do torpor
Para quando eu estiver triste
rego este homem feio
que odeio e me idolatra.
Não responder é regá-lo
dar-lhe
minúsculas gotas de atenção
também.
Para quando
eu sentir feia a minha face
e pequenos os meus seios
ouvir dele: você é linda.
Para quando
o bonito não me queira
ouvir dele: eu te amo.
Um dia me disseram
que Narciso e Narcótico
possuem a mesma origem
- "Narke", isto é, Torpor.
Pois bem.
Entorpeço-me disso
do amor dele
em faltando esterco
e espelho
à flor que penso ser.
26 de março de 2024
A educação pela nuvem
Embora lentos desfiem seus braços
suaves e brancos
está nela, nuvem, o útero dos raios.
Aqui começa este aprendizado:
sereno ou irado, quando
aprender a gestar dentro este parto?
Quando fazer-se paciente e alado
em cem véus brandos
e quando ser a ira de mil cavalos?
Nuvem, estátua do instante, calmo
memorial ostentando
entre os seios um colar de cobalto
ou nuvem, espada do antes, alto
urro de batalha e pranto
trovejando fúria sobre os prados?
Aprender azul o momento manso
e no entanto
saber ser o temporal, feito de aço.
23 de março de 2024
Enciclia
é um rastro de peixe
ondular a calma
para sempre
3 de março de 2024
O domador do silêncio
"Portanto, o que for prudente guardará silêncio naquele tempo, porque o tempo será mau." - Amós 5:13
Feliz do que doma o silêncio
(esta que é a mais temida fera
de nossos tempos) e faz dele
o seu dócil companheiro
Corajoso, sobretudo, aquele
que faz do silêncio um servo
e lhe dá como arreio
o amor à solidão de não
necessitar do som alheio
Oh domador do silêncio, ouvi:
feliz e corajoso é você
corajoso e feliz porque
só em silêncio pode-se ouvir