A poesia, este escudo de flores
inútil, bonito, colorido
como os ipês sobre os montes
para qual espada foi feita?
Para o amor, a espada de flores
inútil, bonita, sem corte ou açoite
como os ipês que guerreiam
aqui
a nenhuma guerra das cores
A poesia, este escudo de flores
inútil, bonito, colorido
como os ipês sobre os montes
para qual espada foi feita?
Para o amor, a espada de flores
inútil, bonita, sem corte ou açoite
como os ipês que guerreiam
aqui
a nenhuma guerra das cores
"Porque te esquecerás do cansaço, e lembrar-te-ás dele como das águas que já passaram." - Jó 11:16
Este mundo está cansado como o mar
que após o ímpeto de jogar-se na praia
escorre o tumulto de seu sal e conchas
sobre o próprio mar, areia, algas
castanhas como os castanhos olhos
da beleza, este mundo está cansado
como um domingo entediado
em que a guerra viesse se aninhar
e da musculatura flácida das nuvens
quem tem poder bebeu a prata
quem não tem poder morreu de sede
cansado que este mundo está, como o mar
que após o ímpeto de jogar-se na areia
desiste, desiste, desiste e suspira
pedindo que o amor
de impossível cansaço
faça novas
todas as coisas
pedindo ao amor
o renovo da maré
e do amar.
Amar e ser amado, amar
e ser amado - embora
os seres humanos
construam catedrais
ergam modas
reestabeleçam políticas
e ordens cívicas
embora inventem esportes
impostos, combustíveis
rasguem o mundo futuro
no sangue derramado hoje
embora
folheiem ouro nas casas
nos olhos
fundem facções
comprem ações
negociem o coração
do próprio peito
e até mesmo odeiem
- amar e ser amado, amar
e ser amado
é tudo
o que todos querem.
Mas
curiosamente
não é amar e ser amado
o que chamam
curiosamente
de vencer na vida.
A despeito da minha loucura
o mundo continua.
Aqui jaz alguém perdoado
(obrigado, Senhor)
enfim vencido pelo amor
(Senhor, obrigado)
Por mais que pareça urgente
inventar a fome futura
a ansiedade, o pão da loucura
não alimenta o presente.
Por mais que pareça urgente
arquitetar a masmorra futura
a ansiedade, chave de loucura
não liberta o presente.
Descansa, então, homem
do grilhão limoso das horas.
Deus alimenta seu hoje
libertou seu ontem
e te guardará
para além da aurora.
Eu não escolhi a minha cor
o país em que nasci não escolhi
meu coração à poesia, essa vontade
de ver o mundo desmanchar-se
e ser refeito
eu não escolhi a poesia
como estandarte furioso
mas ei-la aqui crepitando
fogo
enquanto tremula ao vento
eu não escolhi o meu coração
mas alegro-me em havê-lo
um grande jardim de árvores
fogo
devoradas pelas águas
tempestadas do tempo
Graças a Deus
pela saúde dos areais
e pela água quente
Graças a Deus
pela alegria do vento vindo
dançar os cabelos da gente
Graças a Deus
por esses muitos
verdes entres
Graças a Deus
pelo frescor
dos coqueirais
pelo mar, amor
e tudo mais
para Bruno e Dona Iza, daqui https://www.instagram.com/tv/CVbRPPlrXIm/
"Me dá meus olhos" disse a mãe
que me ensinou a ver.
O olhar da memória é estar presente.
O coração da vida é a memória.
Não.
O coração da vida é o amor.
Depois da tempestade, a flor de goiaba
- no coração verde da tarde
o jardim nos olhos da amada
Depois da tempestade, a flor de goiaba
- o enigma difícil da seca
resolvido na seda das águas
Depois da tempestade, a flor de goiaba
- o sorriso que morde sem dentes
o fruto da esperança hidratada
Depois da tempestade
vocês sabem
a flor de goiaba
- e é bom que haja sede
para então saciá-la.
Deus, ao contrário dos homens,
vê todos as faces da montanha
ao mesmo tempo
Deus vê todas as montanhas
Deus vê o vento
Então
quando alguém com os pulmões
tumorados de morte
e o coração nublado de loucura
pergunta colérico onde está Deus
Deus pode vê-lo, vê-lo
no jardim futuro que se chama eterno
sua conversão à paz Deus vê
nas lágrimas da dor presente
a alegria das lágrimas futuras
Deus, ao contrário dos homens,
vê todas as faces da montanha
ao mesmo tempo
Deus vê todas as montanhas
Deus vê o vento
e nos vê
Se as flores tornam-se consolo
para quem espera pelos frutos
a fome é saciada pela cor
desse aroma já maduro?
O esfomeado que olha
pelas grades entre os muros
o banquete dos galhos fartos
deixa de ter fome
se olhar muito?
As flores apenas saciam
quem já não precisa dos frutos?
A beleza é para o faminto
o que a piada é para o luto?
"Não, vos digo; antes, se não vos arrependerdes, todos de igual modo perecereis." - Lucas 13:5
O absoluto silêncio de ter morrido
não existe - é ruidoso não existir mais
se inferno e eternamente em desabrigo.
A memória embora grite nos que ficam
não é esse o seu vermelho pior bramido
se no inferno interno daquele que morre
há a inquietude do sal no corte, isto é:
se houver audível insuportável o grito
do que se indigna depois da morte
e não se arrependeu estando vivo.
Hoje fazemos 3 meses de casamento!
Hoje (faz 3 meses) comemoramos
haver na aliança de ouro no dedo
o símbolo da unidade que há dentro.
Hoje fazemos 3 meses de casamento!
Mas a aliança cotidiana que plantamos
estamos comemorando há mais tempo
- esta aliança alegre que cuidamos
para todo dia dela ainda colhermos
do amor de Deus o nosso alimento.
Porque nasci durante os dias de exílio
não conheço a terra de que me exilaram.
Mas então
sob o inverno
fui de fato exilado?
De lá, dizem-me, eu trouxe a seriedade
que tenho escavada na pedra do coração.
De lá conheço o rio
manso e limpo de águas
que nasce, dizem-me, onde não nasci
para irrigar aqui a ilha de maçãs
do rei, no seu jardim.
Daquela terra eu vi o olhar
castanho da minha esposa
mel e resina nas árvores douradas
quando o sol abre as castanhas
entre a folhagem.
Porque nasci nos dias de exílio
não sei a terra de que me exilaram
mas conheço minha mãe
seu carinho bordado
e meu pai ausente
conheço a violência presente
do meu pai ausente
conheço a ira, o vento, o vinho
e o canto dos pássaros.
E, sob o inverno, me conheço o suficiente
para distinguir que não sou daqui
como estes pássaros.
Meu amor, veja este amarelo
eu enlouqueci os pássaros
ainda molhados de orvalho
veja este azul, as ondas
do seu cabelo, o seu olhar
eu enlouqueci a boca desta árvore
estes ventos, este frio
a arte dói tanto, amor, ser sensível
até às vísceras, as montanhas
são tão lindas no teu jeito
de ter pena de mim
à noite
meu amor, veja este amarelo
eu enlouqueci o sol, eu enlouqueci
a minha infância triste, tão feliz
tão verde celeste
a baba do amor como o sumo de um fruto
entre jasmins
eu pintei a morte nos últimos dias
ante a nossa iminente eternidade juntos
guardei na minha loucura o amor
escuro o amor que em você amei
eu pintei a derrota dos últimos dias
ante a nossa imediata
vitoriosa, amarela
dourada
eternidade juntos
como quem enfim encontra
da cor o tom que buscava há muito
"Passará o céu e a terra, mas as minhas palavras não hão de passar." - Lucas 21:33
Tudo passa, dizem as nuvens
sombras sobre a minha carcaça
tudo passa, dizem os olhos
sérios do tempo, cegos
com suas faces enrugadas
Tudo (na lápide do amigo
há limo no ouro da data) passa
heroísmo, fama e reinos
o beijo lento acaba, o medo
perde o sentido
na rapidez das águas
Tudo passa, diz o vento
correndo as folhas mortas
na escada
tudo perde o calor
perde o viço
dentro
perde a umidade da coisa amada
mesmo a flor que te dei, amor,
morrerá, mesmo a flor
com suas pétalas de asas
- mas o Amor
oh amor
nunca acaba
Deixo tudo às palavras, estas
pelas quais agora mesmo
passo os olhos dos meus dedos
orvalho, raízes, vinho
tempestades
estas palavras e todas as que conheço
serviram para dizer o amor
que impossivelmente distingue-se
em palavras
nos muros das casas
nos dentes cerrados da morte
como cercas
as palavras, estas
pelas quais menti ao mundo
e tentei mentir a Deus
palavras, orgulho
doença, ouro, navalha
iconoclastia, harpas
que usaram-me enquanto as uso
no impossível permanecer
mudo
as vagens das palavras
sua armadura, suas asas
seu rosto febril de nojo
sua loucura calada
e o contorno morno do sonho
o perdido contorno do sonho
naufragado em larvas
Há palavras tão lindas
e o amor
esta palavra que não é linda
é maior do que todas elas
tudo deixo à palavra amor
tudo
e às outras palavras