"E ele estava na popa, dormindo sobre uma almofada, e despertaram-no, dizendo-lhe: Mestre, não se te dá que pereçamos? E ele, despertando, repreendeu o vento, e disse ao mar: Cala-te, aquieta-te. E o vento se aquietou, e houve grande bonança." - Marcos 4:38,39
Sejamos delicados, apenas delicados, pois
a planície é mansa no aninhar furioso
do raio
e o rio
aceita sem cólera o tropel muito
disforme da travessia do gado
mesmo que ele se pareça bravio
quando suas águas se turvam
de barro
Sejamos menos o raio, delicados
como a nuvem é delicada
no chuvisco sobre a casa
quase barcos
no leito calmo
assim sendo, mesmo cordeiros,
menos boiada, sim, sejamos isso
barcos cansados! que sobre
Água Viva habitam
e que tranquilos chamam
de banho
a pior das tempestades
1 de outubro de 2018
23 de setembro de 2018
Farol
"Ele recolhe as águas do mar num vaso, e dos abismos faz reservatórios." - Salmos 33:17
Embora a quilha rente aos turbilhões
dance firmeza na coragem marinheira
e eu, tão salino quanto sul, pareça são
com a vela fina, firme, nas mãos presa
- é Você, ó Luz, que me firma no guiar
enquanto ondeado sofro quando avisto
haver tempestade no grande haver mar.
Embora haja gotas em demasia entre
o Teu leme calmo e meu suor, embora
pareça fria minha esperança ao Te ver
incendiado e tranquilo, Senhor, sei só
que a Ti vou. Meu
sol És. Em Teu
rumo estou.
Embora a quilha rente aos turbilhões
dance firmeza na coragem marinheira
e eu, tão salino quanto sul, pareça são
com a vela fina, firme, nas mãos presa
- é Você, ó Luz, que me firma no guiar
enquanto ondeado sofro quando avisto
haver tempestade no grande haver mar.
Embora haja gotas em demasia entre
o Teu leme calmo e meu suor, embora
pareça fria minha esperança ao Te ver
incendiado e tranquilo, Senhor, sei só
que a Ti vou. Meu
sol És. Em Teu
rumo estou.
22 de setembro de 2018
A Harmonia
"Deixo-lhes a paz; a minha paz lhes dou. Não a dou como o mundo a dá. Não se perturbem os seus corações, nem tenham medo." - João 14:27
Irmãos, se a cidade vos engolir
sob os véus de aço de sua língua
rememorem a harmonia: o calor
da mãe, as mãos do dia, as aves
do céu, a face amorosa da vida.
E se numa cela, irmãos, fizerem
com que desdancem sob caóticos
sons de soco tais vossos corpos
harmônicos, busquem neste dia
recordar a música, em silêncio
de paz, onde o coração não grita.
Pois lhes tirarão a honra, irmãos,
lhes tirarão os olhos. E, ante muito
riso neles, deceparão vossa alegria.
Será espesso, irmãos, o sangue
então a vos escorrer pelos poros.
Mas não lhes tirarão a Harmonia.
Irmãos, se a cidade vos engolir
sob os véus de aço de sua língua
rememorem a harmonia: o calor
da mãe, as mãos do dia, as aves
do céu, a face amorosa da vida.
E se numa cela, irmãos, fizerem
com que desdancem sob caóticos
sons de soco tais vossos corpos
harmônicos, busquem neste dia
recordar a música, em silêncio
de paz, onde o coração não grita.
Pois lhes tirarão a honra, irmãos,
lhes tirarão os olhos. E, ante muito
riso neles, deceparão vossa alegria.
Será espesso, irmãos, o sangue
então a vos escorrer pelos poros.
Mas não lhes tirarão a Harmonia.
20 de setembro de 2018
Os círculos de fogo
Quando eu era pequeno
quando eu era criança
minha vó à noite dizia
com a voz que ainda
em ninar me balança
- Que os anjos do Senhor
te protejam, amor,
em círculos de fogo
e que te protegendo
eles te abençoem
em nome de Jesus
e em círculos de fogo
E eu me sentia quente
mais do que ao meio-dia
se deseja algum poente
pois eu ali não apenas
sob o hálito do sol jazia
semelhante ao sentir alheio
que se tem ao ver
algo belo
Ali eu me sentia quente
como no se fundir ao fogo
a espada sonora-se ao martelo
ali eu me sentia quente e via
o dia se fazendo em torno
e jorrar de dentro da noite
íntimo a um grande trono
como as manhãs são íntimas
de roupas brancas e limpas
e meu sorriso se fazia
claro em tantos raios
quando eu respondia ali
infantil em luz
amém
amém
17 de setembro de 2018
Retorno
"E, levantando-se, foi para seu pai; e, quando ainda estava longe, viu-o seu pai, e se moveu de íntima compaixão e, correndo, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou." (Lucas 15:20)
De longe vejo o pai à margem da casa
onde a grama testemunha que choveu.
As longas vestes, a longa barba, o fogo
de suas palavras água, eu as vejo, trilhas,
mesmo longínqua sua silhueta alva e breu
como que tristíssima. Por que eu - fugi?
Do que precisa, além de tronco, um galho?
E as raízes, eu as diviso, ei-las aqui. E o
tempo, eu o reencontro, e ele me cala.
Meu pai, por que eu te abandonei?
Foi o mundo, com seus curvos caminhos
que turvou meu coração, sob as sombras
da muralha, sob os porcos e seus latidos.
Foi o querer ver além do campo de trigo
mesmo já nutrido pelos pães e pelo riso
da mãe em bom calor. Fui eu, meu pai,
mas retornei: pois como viver no reino
sem que eu me apresente diante do rei?
E eis que correm até mim o rei, o amor.
Meu pai, eu retornei. Teu filho retornou.
De longe vejo o pai à margem da casa
onde a grama testemunha que choveu.
As longas vestes, a longa barba, o fogo
de suas palavras água, eu as vejo, trilhas,
mesmo longínqua sua silhueta alva e breu
como que tristíssima. Por que eu - fugi?
Do que precisa, além de tronco, um galho?
E as raízes, eu as diviso, ei-las aqui. E o
tempo, eu o reencontro, e ele me cala.
Meu pai, por que eu te abandonei?
Foi o mundo, com seus curvos caminhos
que turvou meu coração, sob as sombras
da muralha, sob os porcos e seus latidos.
Foi o querer ver além do campo de trigo
mesmo já nutrido pelos pães e pelo riso
da mãe em bom calor. Fui eu, meu pai,
mas retornei: pois como viver no reino
sem que eu me apresente diante do rei?
E eis que correm até mim o rei, o amor.
Meu pai, eu retornei. Teu filho retornou.
12 de setembro de 2018
Uma jardineira
Viver sem arrogância
sob a índole das flores
em fluência harmônica
em um lirismo só cores
foi o que quis, ávida
entre lírios enfim feliz
querendo feito verme
viver quente a manhã
das pétalas e dos cheiros
das acerolas e das maçãs
mas não pude - pois que
pra visitar o cerne cheio
dos caules das maçãs
o veio aquoso do sol
mansa amarelada de sol
entre lírios sem arreio
precisava podar os dedos
relvosos dos meus cabelos
como se fossem espinhos!
Que bom minha mão deteve
as lâminas desta sede
de querer podar-me
para poder ser-me.
sob a índole das flores
em fluência harmônica
em um lirismo só cores
foi o que quis, ávida
entre lírios enfim feliz
querendo feito verme
viver quente a manhã
das pétalas e dos cheiros
das acerolas e das maçãs
mas não pude - pois que
pra visitar o cerne cheio
dos caules das maçãs
o veio aquoso do sol
mansa amarelada de sol
entre lírios sem arreio
precisava podar os dedos
relvosos dos meus cabelos
como se fossem espinhos!
Que bom minha mão deteve
as lâminas desta sede
de querer podar-me
para poder ser-me.
10 de setembro de 2018
Sobre a auto-ajuda, o meu problema é moral, pois nela é quase norma: se um autor quer vender bem, tem que falar a partir do ponto de vista que anuncia a felicidade estar em primeiro lugar.
Eu, porém, em verdade vos digo: existem centenas de coisas mais importantes do que a felicidade.
A amizade, a integridade, o respeito, a fé, o amor, pra começar, são mais importantes do que a felicidade. As memórias, o cuidado, a lealdade, a gratidão, vem logo após.
E há muito mais.
Há quem diga, como lei, "faça o que te faz feliz". Mas a um estuprador, o estupro deve deixar feliz. A um corrupto, a corrupção deve deixar feliz. A um traidor, a traição. A um cruel, o poder. O que te faz feliz, caro contemporâneo, é menor, se traz infelicidade para alguém, o que já rebaixa a felicidade em relação à empatia, pelo menos.
Ser feliz não é o que importa.
É um unguento santo, enquanto fazemos o que importa.
Eu, porém, em verdade vos digo: existem centenas de coisas mais importantes do que a felicidade.
A amizade, a integridade, o respeito, a fé, o amor, pra começar, são mais importantes do que a felicidade. As memórias, o cuidado, a lealdade, a gratidão, vem logo após.
E há muito mais.
Há quem diga, como lei, "faça o que te faz feliz". Mas a um estuprador, o estupro deve deixar feliz. A um corrupto, a corrupção deve deixar feliz. A um traidor, a traição. A um cruel, o poder. O que te faz feliz, caro contemporâneo, é menor, se traz infelicidade para alguém, o que já rebaixa a felicidade em relação à empatia, pelo menos.
Ser feliz não é o que importa.
É um unguento santo, enquanto fazemos o que importa.
Eleições
"E o diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o diabo: Dar-te-ei a ti todo este poder e a sua glória; porque a mim me foi entregue, e dou-o a quem quero." (Lucas 4:5,6)
Há um hálito por trás de todo trono
um fedor cuja alma é o riso insano
no ar esculpindo um punho pálido
no ouro em que se sentaram reis
e sábios - mas se do poder sentimos
o odor emergindo em torno uma ilha
há véus cobrindo a boca que lhe iça
Ah! dessa boca só sabemos
que o trono é sua língua
Há um hálito por trás de todo trono
um fedor cuja alma é o riso insano
no ar esculpindo um punho pálido
no ouro em que se sentaram reis
e sábios - mas se do poder sentimos
o odor emergindo em torno uma ilha
há véus cobrindo a boca que lhe iça
Ah! dessa boca só sabemos
que o trono é sua língua
31 de agosto de 2018
Avança, pois sim. Dois cavaleiros, uma fêmea e um macho, destacados de um exército escondido até às flâmulas por trás das árvores. Isso é o avanço do retorno de Cristo. A Segunda Vinda. É uma visão sem olhos, mas táctil por nenhum toque, como o calor de uma cavalaria numerosa que não se vê e não se ouve, circulando a casa só com o morder dos cavalos nos arreios. O que é uma rosa, no lamaçal dos dias, se não um pressentimento? A baba e o couro. Pois que a segunda vinda é um calor em ondas contínuas, mas alteráveis, conforme a fé, a força e a farinha disponíveis. Uma grande esperança a quem for pequeno muito, uma esperança nenhuma a quem é aqui bem grande. Pois quem tiver exército, vai tentar se defender - e perderá. Pois quem for só e fraco, vai se render - e será salvo.
30 de agosto de 2018
Se tem uma mancha, em alguma das lentes do meu óculos, aquela mancha estará em uma árvore, se eu olhar para uma árvore, e ela estará no mar, se eu olhar para o mar. Se uma gota de chuva cair nas lentes, no entanto, a luz refratada pela água escoará mais luz para os meus olhos. Assim é, também, em relação ao bem e ao mal: quem vê o diabo em tudo, pode ser por estar com os olhos sujos de diabo; quem vê Deus em tudo, é porque está com os olhos limpos de Deus.
27 de agosto de 2018
Chacota no banquete de exposição da Política
Contemplai, contemporâneos, a Política!
Mulher alheia, selvagem, insubmissa
olhando altiva enojada para todos nós!
Contemplai o dentro em luz dessa face
a nudez honrosa de após um desastre
altivez de outrora rainha e viúva cativa.
Dói, sangra, ser olhado em fogos assim
acorrenta negro em véus o desejo de rir
nunca mais, para contemplá-la. Olhem
como seus dois seios são como mordaças
ao pequeno coração, aos quietos lábios
em cujo silêncio oleoso há mormaço
e uma sentida ausência de asas. Olhem
meus irmãos de tempo, como seu rapto
dilata o orgulho nela inédita vaidade
de se enfeiar para nos ver! Política!
É de fato verdade o que diziam
que se a vida dói a todos
a alguns a miséria purifica.
Mulher alheia, selvagem, insubmissa
olhando altiva enojada para todos nós!
Contemplai o dentro em luz dessa face
a nudez honrosa de após um desastre
altivez de outrora rainha e viúva cativa.
Dói, sangra, ser olhado em fogos assim
acorrenta negro em véus o desejo de rir
nunca mais, para contemplá-la. Olhem
como seus dois seios são como mordaças
ao pequeno coração, aos quietos lábios
em cujo silêncio oleoso há mormaço
e uma sentida ausência de asas. Olhem
meus irmãos de tempo, como seu rapto
dilata o orgulho nela inédita vaidade
de se enfeiar para nos ver! Política!
É de fato verdade o que diziam
que se a vida dói a todos
a alguns a miséria purifica.
20 de agosto de 2018
As aves do céu, os lírios do campo
Onde agora se vê caos
pode ser que adiante
se veja a harmonia
de Deus, o efeito
de mãos grandes
prenhes de enredo
tecer depois
novos antes
Onde agora se vê seca
pode ser que adiante
de vazantes se encha
a pureza verdejante
cem poços e mil rios
gerados na profundeza
da nuvem mais hostil
da terra mais distante
Onde agora nada se vê
pode ser que não se veja
por ser tudo iluminado
em luz de inédita colheita
gestando no útero
do aparente breu
auríferos céus
para um sol
de nova beleza
pode ser que adiante
se veja a harmonia
de Deus, o efeito
de mãos grandes
prenhes de enredo
tecer depois
novos antes
Onde agora se vê seca
pode ser que adiante
de vazantes se encha
a pureza verdejante
cem poços e mil rios
gerados na profundeza
da nuvem mais hostil
da terra mais distante
Onde agora nada se vê
pode ser que não se veja
por ser tudo iluminado
em luz de inédita colheita
gestando no útero
do aparente breu
auríferos céus
para um sol
de nova beleza
16 de agosto de 2018
Lição de palavras nº1
"Faceira" é uma palavra que introduz uma luz, um jeito de sorrir por trás de um olhar envergonhadinho e bom. É feminino até a mais íntima doçura, é feminino em muito ser rósea palavra e recato regatos. Redondos movimentinhos, os dedos tão flores, tem essa palavra. Faz pensar que o amor não é mais que um fósforo de chama pequenina, mas em um mareal de álcool.
13 de agosto de 2018
Tentar descrever a dor de quem se ama, terrível rocha à nossa frente, é demais peso aos ombros da escrita. É possível descrever Deus só narrando as formas de uma face? É possível contar ao cego o prateado dos peixes pelo som que as escamas abrem? Nem as lágrimas de quem se ama, à nossa frente rocha, é possível rearquitetar em letras. Mas chore, chore, chore, eis aqui meu peito, chore. Morte às palavras, se não consigo usá-las como unguento, morte à película das dores individuais no mundo, mas vida às horas existidas dentro do consolo mútuo. Chore, chore, chore.
12 de agosto de 2018
Biomas de mim
Aqui é a floresta dos que se apaixonaram por mim
rente ao mangue dos que muito me odiaram
o cheiro morto dos siris mesclado
ao aroma vivo do sangue das flores no mato
ali é o deserto dos que eu invejava
abandonado vazio o toque da seca sendo
pantanais campos largos pastos e areia
o horror áspero de um nunca encontrá-los
céus e rios e ao mar vou indo
pescando do sal marinho as faces santas ceias
dos que eu menino me embalavam Aqui
guia sou do turista que também estou
arqueólogo biólogo teólogo e rei
jurista e também a lei dos biomas de mim
rente ao mangue dos que muito me odiaram
o cheiro morto dos siris mesclado
ao aroma vivo do sangue das flores no mato
ali é o deserto dos que eu invejava
abandonado vazio o toque da seca sendo
pantanais campos largos pastos e areia
o horror áspero de um nunca encontrá-los
céus e rios e ao mar vou indo
pescando do sal marinho as faces santas ceias
dos que eu menino me embalavam Aqui
guia sou do turista que também estou
arqueólogo biólogo teólogo e rei
jurista e também a lei dos biomas de mim
7 de agosto de 2018
Granizo em Minas
A neve não é carícia
para o abrigo caseiro
coberto e quentinho
da noite dos mineiros.
A neve não.
Mas e o gelo?
O menino pula valentia
quer sair pela porta
e o resto da família
apocalíptica lhe toca
com a voz “Cuidado!
Que o granito é feroz!”
deslumbrante desespero.
E não deixam o menino
sair pra ver o gelo.
Mas o menino ao menos
ouve a mensagem do céu
mesclando as pedras aos trotes
lá fora com dentro o escarcéu
da família discutindo
o celeste gelinho lindo
mais o brancor daquele piso
e socando o cimento
uns dizendo “Foi golpe!”
e outros “Foi impedimento!”
sons grandes e pequeninos
arrebentando vidros
do mesmo jeito.
E o menino bonachão
pula satisfeito
“Mãe!
Tô ouvindo o granito!”
São os discursos do granizo
em ano de eleição.
para o abrigo caseiro
coberto e quentinho
da noite dos mineiros.
A neve não.
Mas e o gelo?
O menino pula valentia
quer sair pela porta
e o resto da família
apocalíptica lhe toca
com a voz “Cuidado!
Que o granito é feroz!”
deslumbrante desespero.
E não deixam o menino
sair pra ver o gelo.
Mas o menino ao menos
ouve a mensagem do céu
mesclando as pedras aos trotes
lá fora com dentro o escarcéu
da família discutindo
o celeste gelinho lindo
mais o brancor daquele piso
e socando o cimento
uns dizendo “Foi golpe!”
e outros “Foi impedimento!”
sons grandes e pequeninos
arrebentando vidros
do mesmo jeito.
E o menino bonachão
pula satisfeito
“Mãe!
Tô ouvindo o granito!”
São os discursos do granizo
em ano de eleição.
26 de julho de 2018
Monólogo com o ferreiro
"Se o filho pródigo não tivesse
conseguido sua parte em ouro"
(ele disse, sob a prece do martelo)
"Nunca retornaria ao castelo
paternal, ao maternal seio
de onde veio"
(o fogo crescia ao soprar do fole
como o muito medo em nós
cresce)
"Ele foi odiando
a mansidão do pai
e com ódio na partida
o retorno virá"
(parou, então, de martelar)
"É preciso odiar muito
o ódio é uma lima
o ódio é a bigorna
que afia o amor
e o faz perfeito"
conseguido sua parte em ouro"
(ele disse, sob a prece do martelo)
"Nunca retornaria ao castelo
paternal, ao maternal seio
de onde veio"
(o fogo crescia ao soprar do fole
como o muito medo em nós
cresce)
"Ele foi odiando
a mansidão do pai
e com ódio na partida
o retorno virá"
(parou, então, de martelar)
"É preciso odiar muito
o ódio é uma lima
o ódio é a bigorna
que afia o amor
e o faz perfeito"
21 de julho de 2018
Jó
Eu queria que meu corpo fosse a planície
onde os relâmpagos do céu viessem
violentos se aninhar
mas como eu poderia suportá-los?
Minha vontade é maior
do que meu corpo
que é frágil.
Minha vontade, no entanto, também é frágil
diante do fogo e do som
que os relâmpagos trazem à planície
e menor, ainda menor, do que a vontade
que vem do céu e queima mesmo o capim
verde ou seco.
O que vale a minha vontade, então?
Onde estava minha vontade
quando houve a gestação das nuvens
e um sorriso engendrou nas águas primeiras
a primícia das chuvas, o orvalho novo
e o amor absoluto?
Onde estava minha vontade
quando a engenharia das estrelas
fruto desta outra maior vontade
deu sua luz à mais antiga escuridão
e declarou o fim da névoa solitária
em torno dos seres?
Eu queria que meu corpo fosse a carne
do animal abandonado pois ferido
e que as feras enterrassem seus dentes
na minha nuca perturbada
e que minha morte alimentasse o couro
de algum ser mais nobre do que eu.
Eu queria que algum juízo furioso rompesse
os músculos dos meus olhos, da minha boca
do meu coração exausto
pondo a sua força de ente mais forte
sobre a minha pequenez
vencendo-me.
Mas de que vale a minha vontade?
Quem sou eu, dentro da eternidade?
onde os relâmpagos do céu viessem
violentos se aninhar
mas como eu poderia suportá-los?
Minha vontade é maior
do que meu corpo
que é frágil.
Minha vontade, no entanto, também é frágil
diante do fogo e do som
que os relâmpagos trazem à planície
e menor, ainda menor, do que a vontade
que vem do céu e queima mesmo o capim
verde ou seco.
O que vale a minha vontade, então?
Onde estava minha vontade
quando houve a gestação das nuvens
e um sorriso engendrou nas águas primeiras
a primícia das chuvas, o orvalho novo
e o amor absoluto?
Onde estava minha vontade
quando a engenharia das estrelas
fruto desta outra maior vontade
deu sua luz à mais antiga escuridão
e declarou o fim da névoa solitária
em torno dos seres?
Eu queria que meu corpo fosse a carne
do animal abandonado pois ferido
e que as feras enterrassem seus dentes
na minha nuca perturbada
e que minha morte alimentasse o couro
de algum ser mais nobre do que eu.
Eu queria que algum juízo furioso rompesse
os músculos dos meus olhos, da minha boca
do meu coração exausto
pondo a sua força de ente mais forte
sobre a minha pequenez
vencendo-me.
Mas de que vale a minha vontade?
Quem sou eu, dentro da eternidade?
28 de junho de 2018
Carta de amor para o suicida
Sua tristeza, seu rosto, a falta de dinheiro, eu não sei mais quem eu sou. Eu amava o fato de você existir no mundo, mesmo que não viesse me visitar, eu amava que o vento acolhesse feito berço seu hálito no espaço e não o fizesse disperso como o tempo fez. O mangue ainda escorre sob os prédios a serem demolidos, infiltram mofo no cimento um sol loteado e verde. O frio. Mas eu amo ainda, independente da sua morte, a sua vida. Não: haverá o fogo e haverá a água e ser amado será um calor imenso, mas ainda não. Uma torre se ergue imensa dentro de mim, uma torre amadurece em mim a distância murada das nuvens ao sopé frio dela mesma. Não morrerei para compensar na vida o amor que você me negou.
6 de junho de 2018
Água
Sejamos benevolentes
como benevolente é a água
para os campos amenos
que lhe aguardavam
mesmo que inundemos
os campos escandalizados
que não esperavam
a tempestade que formos.
Porque a quem pode amar
e a quem não pode amar
deve ser dado amor
porém somente aos primeiros
as lágrimas que causarmos
serão de alegria.
como benevolente é a água
para os campos amenos
que lhe aguardavam
mesmo que inundemos
os campos escandalizados
que não esperavam
a tempestade que formos.
Porque a quem pode amar
e a quem não pode amar
deve ser dado amor
porém somente aos primeiros
as lágrimas que causarmos
serão de alegria.
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