27 de outubro de 2017

Solilóquio no baquete do náufrago

O amor muito dá, tudo tira.

Deu-me a areia, o engenho
áspero da fogueira e o mar.
Deu-me na espuma o vir ao
lar de sal e a uma nova vida.
Deu-me de não dar, tal vida.

O amor me tirou até
o que eu não tinha.

Pois quando o amor muito dá
é porque logo a falência
tocará sua lira.

O amor e seus olhos. O amor
e sua ira. A boca temporal
que nada diz. Aqui, longe,
porém: estou feliz e melodia.

Mas confesso uma saudade
tempestade de sofrer o vão
onde sou, na ilha.

Pois até isso o amor me levou.
Até a compensação
em haver melancolia.

24 de outubro de 2017

Tema para biografia de vó

para Fiori Ferrari e Paulo Gonçalves

Foi a princesa quem passou galopando
acima do monte, em seu corcel santo?

A princesa foi perseguir a onça branca
cujo couro rendado em beleza a alcança.

Foi a princesa quem passou sem nos ver?
Sem ver quem a via galopar sem poder?

A princesa foi perseguir um elixir
úmido pelas lendas do velho vizir.

Foi da princesa esse trote de rápido som
perseguindo o vento preso no acordeon?

Foi: e logo a princesa cheirando à jasmim!
Passou por nós - por que não? porque sim?

Ela foi: eu não. Aqui fiquei
no chão, perseguindo a mim.

Exposição no banquete dos bonachões

Sou como o Bobo a quem permitem dizer tudo, por estar tão próximo da sabedoria quanto o sol está próximo do viaduto. Assim sendo, aproveito para contar do meu jeito um ocorrido de ontem à tarde, de durante a tempestade. Eu ia para uma consulta médica, bem longe de casa. Teria que pegar dois ônibus, ou, como fiz, pegar apenas um e andar alguns quilômetros, poucos e rápidos. Logo que comecei a caminhar, no entanto, trombetas trovoaram e a água me veio. Que chuva! Sempre carrego a sombrinha, então abri suas asas (uma delas: quebrada) bem rápido e fiquei numa boa. Estava no centro da cidade, por isso vi, como os senhores devem imaginar, as pessoas surpreendidas correndo correndo correndo, tendo que parar de correr quando diante de um sinal vermelho. Ora, era uma tempestade! E aquelas pessoas tinham que ficar debaixo dela enquanto os motoristas passavam intactos e eu me resguardava na pequena sombra, esperando o verde pintar no longínquo outro lado da avenida. "Vou oferecer para esperarem comigo aqui embaixo", pensei. E fiquei pensando. O sinal abriu e continuei lá, pensando. Ora! Não riam: é preciso muita coragem para ser bom. Ontem percebi isso. Porque falhei em muitas ruas, ao tentar me aproximar de pessoas encharcadas, para tentar ajudá-las. Então parei para comer uma broa de fubá e tomar um queimado, aquele leite quente com canela, virado para a rua, olhando. Se fosse por mal, seria fácil. Se fosse por vaidade... Bem, é, talvez fosse por vaidade, quando se pensa que estou falando aqui para todos vocês o quão bom sou ao tentar ajudar... Mas vejam: o Homem de Face Serena já se irritava com o filho que diz "irei trabalhar hoje para você, meu pai" e não vai. Quem sou? Pois bem: eu continuei meu caminho, insatisfeito de covardia. Parei em mais um sinal, desistido. As gotas quebravam meu rosto contra o ruído crepitante do asfalto molhado. Olhei para o lado e vi um senhor de muleta, descalço, atravessando entre carros e fora da faixa. Quase atropelado! Fui até ele e o ajudei, dando meu ombro, a secura por alguns minutos, algum apoio. Vejam: não importa o quanto eu quisesse, antes, ter ajudado. Até para isso há momento propício! Porque, enquanto eu o levava, caí e por isso estou com a mão enfaixada.

23 de outubro de 2017

Excerto de louvor no banquete dos ex-escravos

vocês os que sabem que vão morrer a simplicidade mais limpa e elegante olhos milenares fundos e sem par os que souberam que morreriam sobrevivemos nós o fogo queimado por algo ainda mais quente louvados sejam sobreviventes do ferro das correntes que sugavam nutrição de nossa carne e que hoje nos alimentam com a memória a partir dessa dor louvada seja a notícia de que morreremos mas não hoje nem agora louvada seja nossa força de estuprados nas galerias horrendas bem-vindos ao mundo exterior irmãos aqui a cabeça erguida de quem sabe que vai morrer haverá de localizar um local de valor um terreno ansiando sementes sim meus irmãos morreremos mas não hoje nem agora o mais difícil já foi feito sobrevivemos

21 de outubro de 2017

Brinde no banquete do sonhador

Shakespeare e Cervantes morreram em abril de 1616. Desde então, sou um homem sozinho num front onde caberiam milhões de vocês, aliados. À frente, o inimigo ressentido de ter estratosférica vantagem e ainda assim estar prestes a ser derrotado. Moinhos caiados. Caberia uma citação valorosa e marcial! Qual, no entanto, o tom? Quem tocaria os tambores para minha voz andar ao lado?

20 de outubro de 2017

A representação da nudez feminina ao longo dos séculos: um resumo

Entre vinhedos, a flor.

É por conta das flores
que a primavera acontece
vigorosa áspera cruel
seivada com a saliva
dos dias castanhos

Os méis, os aros, plexos
rodeando parélios de pele
lambem esgotados nichos
pastam esguios mangues
mas eis caem sucumbidos

Asas e têmporas, gosto de
cheiro ferroso: o mênstruo
de minha amada lembra
o sangue de Dário
dissera Alexandre Magno
às portas da Índia

As montantes virilhas
os viris duelados
a morte por elas
a sagração das campinas
sua ausência imanente
e o prestes à

19 de outubro de 2017

Suvio

Há uma criança de olhos calmos
quando a paz consente em mim.
Ela vem me ver sempre que pode
com um frutal de palavras boas.
Ela vem me ver sempre que quer
os cabelos por cortar, ondulados
cheiros de pão recém-assado
em casa. Veio se unir a mim
depois que desisti de chamá-la
porém quando ainda a esperava.
Sério seu rosto sorrindo
ela vem de onde o dinheiro
ainda não existia e a vó sim.
Ela sabe de tudo que já esqueci
e tem tudo o que já perdi. Ela
é uma voz de armistício.
O eco de um assovio
muito antigo.

12 de outubro de 2017

Trecho de inscrição em cântaro

para Lucas Romano e seus filhos

Havia Helena, que tinha cheiro de colo.
Havia Apolo, que trazia o sol na veia.

Porque o Lete estendeu seu longo corpo
para fora das margens do mundo morto

e Apolo e Helena, jovens iguais, viessem
sedentos buscando água há horas de prece

o Esquecimento se lhes ofereceu no solo
umidade pouco lar na floresta pequena.

“Se eu beber”, disse Helena, “não
saberei que um dia foste meu irmão”.

Assentiu, Apolo: “Melhor morrer
de sede do que esquecer você”.

O rio que vinha para fender o mundo
separar o primeiro daquele segundo

então foi negado aos pés do amor
aos pés da sede negado o seu fervor.

Por Apolo, que trazia o sol na veia.
Por Helena, que tinha cheiro de colo.

26 de setembro de 2017

A batata cozida

Agradeço largo à batata cozida
que em si guarda tutana vida de
suster nutriência em mim grata!

Por que não é tudo no mundo
uma maciez boa de batata? E,
sendo firme, também novada no
fogo, vida com maciez de água?

21 de setembro de 2017

Ciação

Saber de cór o cio
às cordas da voz
curva o sol
contra a canção
que nasce
e cai

Quando criar
cevar corações

Oh os cornos do som
agarrados à composição!

18 de setembro de 2017

O ser humano culto

Oculto o útero de onde brotou
- mas que olhos! Que manhãs
contra os lodos! Erige pontes
no ar, conexões sem vultos
mil césares mil muitos mui antes!
É um presente astral, todo humano
culto, do caos aos dormentes de
plasma, transidos de insulto.

11 de setembro de 2017

Um Astronauta

Se eu compreendesse a flor que cai
Compreenderia o universo
Pois o Todo está incluso em Tudo
Pois o que pulsa em um pulsa no infinito
E a face de Deus que habita os sóis
Habita os diminutos cristais

Mas a flor que cai não é sua saliva de seiva
Seu sorriso de orvalho
Meus únicos interesses dentro da primavera

Conhecendo completamente sua boca
A partir dos cometas líquidos desse Céu
Eu chegaria a conhecer o universo?

No entanto não saberemos
E parto pro universo que incompleto
Não mais contém você

5 de setembro de 2017

Discurso no banquete dos exaustos

Assim como a mãe nunca desafina
ao cantar para os filhos sonolentos
o vento do destino não destoa
dos úteis atos aos seus rebentos

"A dor", tal vento soa, "vos ensinará
mais prazer no prazer", tal vento diz.
"Eu poderia gastar todos os lábios
do mundo, meus pulmões, para soprar
o cinza giz que cobre vossos corações.
Mas se eu o fizesse
e lhes soprasse
o que sobrasse...
Nada sobraria"

Bendigo o arrependimento
pois esta é a prova áspera
de que sei o que precisa ser feito

Bendigo a tristeza
pois esta é a prova bélica
de que conheci a beleza

Bendigo a saudade
pois está é a prova ômega
de que vivi de verdade

2 de setembro de 2017

A arquitetura do bocejo

arqueia o som do sol
o tédio a língua o céu
o sono lambe o véu e
a boca circula em atol

o sábio
diante do esperto
o vilão
diante do lerdo
o bom
diante do mau
eu
ante o resto

arqueia o som do sol
o tédio a língua o céu
o sono lambe o véu e
a boca circula em atol

28 de agosto de 2017

Bebê rindo

para Amora

O seu riso
é um mapa
cujo peso
me navega

Arco alvo
é tão leve
lívio trevo
brota e tece

O seu riso
fina capa
quentinho
me guarda

É um livro
uma espada
um espelho
uma prece

25 de agosto de 2017

Confissão no banquete de nós dois

Os unicórnios são poderosíssimas feras prateadas de sonho, muito superiores aos cavalos no que diz respeito ao vigor - porém muito mais frágeis no que diz respeito à beleza. São caçados por sua magia em vastos campos, vencendo armadilhas e ataques cobiçosos contra sua liberdade, sendo ferozes na batalha e ágeis na proteção. Eles, no entanto, possuem a fraqueza dos poetas: os unicórnios se pacificam diante de uma donzela e, tal a ternura, adormecem em seu regaço de fonte. Presa fácil, daí em diante. Eu estava pensando nisso, enquanto você fazia um ninho para os seus dedos com o meu cabelo. Há homens, a maioria absoluta, que por nada deitariam com a cabeça no colo de uma mulher em público, por maior o amor que sentissem. E ali estávamos, sob um ipê em flor, no gramado da praça, onde muitos esperavam o ônibus: minha cabeça exposta no seu colo. Eu derrubei um pouco de cerveja em mim e você me repreendeu, entre maternal e lua. "Você é mais antiga do que ipês, mais antiga do que a morte, a vida e a volúpia acelerada das estrelas", observei de mim para mim, olhando assim, do porto de você. Mais antiga do que a própria noite. Mas eu dizia que estava pensando em unicórnios. Sim. E veio a questão: antes ser um cavalo, fraco onde todos os mortais são, escravo forte pela insensibilidade?, ou ser o heráldico, o grande, o perseguido e forjado com as cordas do sonho, para ser assassinado enquanto adormeço sob as mãos do amor? Você, entretanto, me protegeu - e sobrevivi.

23 de agosto de 2017

Vento Mulher

O vento que esculpiu teu dorso
certamente arredondara o sol
e o coração dos dias. Qual
é o vento que te me trouxe?
Certamente o mesmo que derrubou
as flores do ipê que pensava
em amarelo te superar quando floriu.

19 de agosto de 2017

a tarde goiabas

e essa guerra que não acaba mais
você disse com os olhos moles
boca cansada de amor interdito
entorno fogueiras fiambre e mausoléus
os cabelos tornavam-se selvagens
água boa só da saliva um do outro
conforme os meses marchavam
embornais
e essa guerra
que não acaba
chegamos a um sítio abandonado
goiabeiras era época de goiabas
nada que nos interessasse
de suprimentos
além de goiabas
rodei seu corpo e rompi os frutos
podres no chão
com sua pele cor de tronco
continuávamos nus
horas depois
aqui acaba a guerra pra nós
foda-se o front
havia um velho balanço
sua carne atravessava brutal
as correntes do balanço
o sol
atravessava
a guerra
atravessava
o cheiro amadeirado
escorrendo da sua virilha
o gosto de sangue
enfim choveu
naquela tarde goiabas
acabou

6 de agosto de 2017

O aço, o bagaço, o braço

A prostituta cotidiana com cheiro de aço
circula as ancas descrevendo laços rumo
ao som dos passos no caminho logo atrás

A mãe põe no espelho os olhos de bagaço
cogita o fim da família que a suga o sumo
e repele o abraço morno do filho incapaz

O ferreiro sente ecoar nos ossos do braço
a força que derruba e corta o espaço rumo
à bigorna negra no fogo dos anos abissais

Nenhum deles derrama choros eventuais
Nenhum reclama da vida e seu mormaço

3 de agosto de 2017

parque de diversões no interior

é noite

seu nariz está frio

como de um cãozinho

cores luzes cores cores

maçã caramelizada e cores

uma criança em você

cem crianças fora de nós

Deus olhando de dentro

do seu sorriso pequeno

e vermelho