1.
Mas Jesus retirava-se para lugares solitários e orava. - Lucas 5:16
A sabedoria jaz no silêncio
mesmo neste século violento.
Dentro de uma boca pálida
jaz seu suave recolhimento
de jardim suave que abraça
o hálito de quem ora dentro.
2.
E, havendo aberto o sétimo selo, fez-se silêncio no céu quase por meia hora. - Apocalipse 8:1
Assim a sabedoria se fez intacta
do nenhum silêncio deste tempo
cujo profetizado apodrecimento
aponta as campinas mais sábias
(mesmo neste século barulhento)
do após tudo de um novo silêncio.
12 de fevereiro de 2019
5 de fevereiro de 2019
Esta lã de sal
"Ide; eis que vos envio como cordeiros para o meio de lobos." - Lucas 10:3
O sal da terra, este selo
fluindo de olhos rasos
às margens do peito
sela de coragem o hiato
que engendrava cansaço
nos tímidos cordeiros.
Cada gota então brilha
como uma flor de suor
novíssima maravilha
mesmo se a pele soa
o som do açoite, noite
e masmorra adentro.
O sal da terra, este selo
fluindo de olhos rasos
às margens do peito
sela de coragem o hiato
que engendrava cansaço
nos tímidos cordeiros.
Cada gota então brilha
como uma flor de suor
novíssima maravilha
mesmo se a pele soa
o som do açoite, noite
e masmorra adentro.
29 de janeiro de 2019
Se o mundo me chamar de pássaro
"Pois que aproveitaria ao homem ganhar todo o mundo e perder a sua alma?" - Marcos 8:36
Se o mundo me chamar de pássaro
pintando azul as imaginárias asas
que a vaidade há muito já pintava
saberei que a mão do mundo é laço
querendo agarrar o orgulhoso voo
de quem acredite em seus aplausos.
Cuidado! Não é bom seguir crendo
que estes risonhos sons de cascos
bravios, sobre o rio, sejam elogios!
O louvor do mundo é um fermento.
É o peso que dilata, quente e exato,
a ilusória glória das asas de cimento.
Se o mundo me chamar de pássaro
pintando azul as imaginárias asas
que a vaidade há muito já pintava
saberei que a mão do mundo é laço
querendo agarrar o orgulhoso voo
de quem acredite em seus aplausos.
Cuidado! Não é bom seguir crendo
que estes risonhos sons de cascos
bravios, sobre o rio, sejam elogios!
O louvor do mundo é um fermento.
É o peso que dilata, quente e exato,
a ilusória glória das asas de cimento.
25 de janeiro de 2019
40 anos de deserto
Oh, exílio! Julgas
que me fará chorar?
Eis vossa boca
eis o meu riso
julgas
que guardo sorrisos
apenas para meu lar?
O sol também nasce aqui
(embora menor)
onde não nasci
que me fará chorar?
Eis vossa boca
eis o meu riso
julgas
que guardo sorrisos
apenas para meu lar?
O sol também nasce aqui
(embora menor)
onde não nasci
4 de janeiro de 2019
Situação
para Lucas Romano
Há os construtores de monumento
empilhando bronze, aço, cimento
em estilhaços sisudos de passado.
Eu escrevo.
Há também os chamados padeiros
que do fogo fome fazem o cheiro
a abrir manhãs com seu mormaço.
Eu escrevo.
Se a obra de um está pelas praças
e se pão fica bom com cachaça
eu escrevo. Que culpa tenho?
Há os construtores de monumento
empilhando bronze, aço, cimento
em estilhaços sisudos de passado.
Eu escrevo.
Há também os chamados padeiros
que do fogo fome fazem o cheiro
a abrir manhãs com seu mormaço.
Eu escrevo.
Se a obra de um está pelas praças
e se pão fica bom com cachaça
eu escrevo. Que culpa tenho?
3 de janeiro de 2019
A arrogância, uma justificativa
A abertura nesta pedra de vaidade
limada e verde, chamada coração,
é um cano para escoar a barbárie
para manter a mínima distinção.
Conforme, porém, o cano cresce
em seu núcleo a oca inexistência
(porque a barbárie também cresce
onde antes não havia sua essência)
nasce a arrogância, este parecer
maior, por ser menor: o coração.
Levantar o nariz então passa a ser
para não sentir o fedor do coração.
30 de dezembro de 2018
Ano-novo no asilo
"No Senhor confio; como dizeis à minha alma: Fugi para a vossa montanha como pássaro?" - Salmos 11:1
Sabe, minha filha, meu amor
não olhe tanto para o relógio
olhe para mim. Ouça: eu já fui
o que caçava pássaros, assim
como também já fui o pássaro
que viu a mão do mundo
fazer-se laço sobre as asas
daquele que tão azul voava
crendo em aplausos
mas saiba, minha filha
que hoje quero recolher
entre minhas mãos
fracas de tempo
e brancas
de alegria
como este relógio
a face relâmpagos
de todos a quem ofendi
não como se eu recolhesse
um pássaro em pleno voo
mas como a um filhote caído
cujo ninho o vento rasgou.
Ouça: é silencioso o perdão
daquele que pra dentro canta.
Aquele que pra dentro canta
não como se fosse um pássaro
mas como sendo
uma montanha.
fazer-se laço sobre as asas
daquele que tão azul voava
crendo em aplausos
mas saiba, minha filha
que hoje quero recolher
entre minhas mãos
fracas de tempo
e brancas
de alegria
como este relógio
a face relâmpagos
de todos a quem ofendi
não como se eu recolhesse
um pássaro em pleno voo
mas como a um filhote caído
cujo ninho o vento rasgou.
Ouça: é silencioso o perdão
daquele que pra dentro canta.
Aquele que pra dentro canta
não como se fosse um pássaro
mas como sendo
uma montanha.
22 de dezembro de 2018
Fruta Boca
para Michele Marcial
Fácil te reconheci como amada
porque todos os nossos beijos
são o reconhecimento
dos frutos que eu criança
roubava:
Na saliva leitosa da manga
abraçando com meus lábios
os lábios pequenos
das pitangas
lá de casa
Na língua seivosa de amora
que naquele tempo
fazia do vermelho um selo
como seu batom
que hoje me marca
Na memória que tenho
do sumo puro
em sua boca
de fruto
sem casca
Fácil te reconheci como amada
porque todos os nossos beijos
são o reconhecimento
dos frutos que eu criança
roubava:
Na saliva leitosa da manga
abraçando com meus lábios
os lábios pequenos
das pitangas
lá de casa
Na língua seivosa de amora
que naquele tempo
fazia do vermelho um selo
como seu batom
que hoje me marca
Na memória que tenho
do sumo puro
em sua boca
de fruto
sem casca
20 de dezembro de 2018
Allegro
Em Vivaldi este estio
do roxo das rosas
no rosa dos rios
Em Vivaldi estes reinos
de belicosos átrios
em pátios amarelos
Em Vivaldi esta flâmula
do vermelho das águas
no azul das chamas
do roxo das rosas
no rosa dos rios
Em Vivaldi estes reinos
de belicosos átrios
em pátios amarelos
Em Vivaldi esta flâmula
do vermelho das águas
no azul das chamas
16 de dezembro de 2018
Miss Universo
Algumas pessoas são belas se você olha pra elas por, digamos, 10 minutos. O contorno do nariz passa a fazer sentido com a linha superior da boca, como ilhas se tornando harmônicas quando nomeadas de arquipélago. Substâncias barrocas. Amadas substâncias barrocas!
Outras pessoas, logo quando recém vistas, revelam-se belas, isto é, abrem-se. Luz, imagina-se, luz. Mas ocorre que, se você olha para elas por, digamos, 10 dias, a beleza se desfaz onde não haja amor, gotejando, pois, oh neve!, para ti o Senhor reservou o verão.
Estas pessoas, todas as pessoas, o que fazer? O alimento dos olhos é a admiração contínua, esta é a água que os lubrifica. O que fazer? Nós precisamos escolher todo ano uma nova mulher mais bela do mundo porque não duram: os olhos, a beleza, a mulher, o mundo.
Todas as pessoas, escutai: quando vocês maquiam uma face, a vossa mesmo ou outro disfarce, vocês maquiam um cadáver, morto sob o punhal da vaidade. Retirem este punhal!, porém, e na ferida estará escrita a verdade: haverá Quem contemplemos, sem tédio, por todos os anos da eternidade.
Outras pessoas, logo quando recém vistas, revelam-se belas, isto é, abrem-se. Luz, imagina-se, luz. Mas ocorre que, se você olha para elas por, digamos, 10 dias, a beleza se desfaz onde não haja amor, gotejando, pois, oh neve!, para ti o Senhor reservou o verão.
Estas pessoas, todas as pessoas, o que fazer? O alimento dos olhos é a admiração contínua, esta é a água que os lubrifica. O que fazer? Nós precisamos escolher todo ano uma nova mulher mais bela do mundo porque não duram: os olhos, a beleza, a mulher, o mundo.
Todas as pessoas, escutai: quando vocês maquiam uma face, a vossa mesmo ou outro disfarce, vocês maquiam um cadáver, morto sob o punhal da vaidade. Retirem este punhal!, porém, e na ferida estará escrita a verdade: haverá Quem contemplemos, sem tédio, por todos os anos da eternidade.
9 de dezembro de 2018
O cansaço que tenho dos corpos no mundo.
O cansaço que tenho destes volumes de pó.
Fazei chover, Senhor.
Fazei chover sobre este cansaço.
E sobre o mundo, fazei chover.
Desmantelai os tijolos que os homens ergueram para tentar cobrir Vossa face.
Limpai do coração carbônico dos homens esta vergonha erigida em templos.
Fazei chover, Senhor, sobre nós a tristeza que só o amor perfeito tem.
Limpai a pele suja daqueles que os espelhos refletem limpos.
Limpai da terra os templos erguidos, fazei tombar a pompa dos tronos.
Limpai de mim, Pai, este ódio que por eles sinto.
Fazei chover, Senhor, adormecei sob águas este calor falso.
Alimentai de água o lodo que comerá nossas obras.
O frescor nas reentrâncias do navio que será necessário.
Fazei chover, Senhor, mansamente limpai.
O cansaço que tenho de todas as coisas que não são Você.
Fazei chover, Senhor.
Fazei chover, Senhor.
4 de dezembro de 2018
Instruções para dizer "amados"
para Michele e Deus
Dizer o "a":
este primeiro abrir a boca
deve ser
um dizer e ver ser
toda a boca fazer-se sopro
como se da garganta
sem fôlego
os pulmões clamassem
"oh coração
me dê mais espaço"
emulando em si
a primeira vertigem
ao ver a nudez do outro
ou ao recolher chuva
na polpa da língua
fazer-se
boquiaberto e orar
Dizer o "ma":
unir os lábios em unção
rememorando a união das bocas
a cadência mansa da proa
nas águas intermediárias
necessárias
desta palavra amada
unir os lábios em unção
exige pequena vaidade
exige grande coração
Dizer o "dos":
doação doação oh amor
doação é teu último nome
teu nome de casada
é doação oh vida
dizer contra os dentes
oh língua
o sobrenome desta palavra
e circular sibilante o fim
da plural doação
para fazer
nós três
distâncias mínimas
assim como é necessário
haver amor
para haver amados
Dizer o "a":
este primeiro abrir a boca
deve ser
um dizer e ver ser
toda a boca fazer-se sopro
como se da garganta
sem fôlego
os pulmões clamassem
"oh coração
me dê mais espaço"
emulando em si
a primeira vertigem
ao ver a nudez do outro
ou ao recolher chuva
na polpa da língua
fazer-se
boquiaberto e orar
Dizer o "ma":
unir os lábios em unção
rememorando a união das bocas
a cadência mansa da proa
nas águas intermediárias
necessárias
desta palavra amada
unir os lábios em unção
exige pequena vaidade
exige grande coração
Dizer o "dos":
doação doação oh amor
doação é teu último nome
teu nome de casada
é doação oh vida
dizer contra os dentes
oh língua
o sobrenome desta palavra
e circular sibilante o fim
da plural doação
para fazer
nós três
distâncias mínimas
assim como é necessário
haver amor
para haver amados
2 de dezembro de 2018
Hamlet feliz
Escrever, não escrever, eis onde estão
meus olhos, felizes, sob as marquises
do anseio de criar - mas como escrever
sem aflição, sem chorar outra angústia
que não seja a minha e a sua, como, se
nesta caneta suja a tristeza fez seu lar?
Vou inventar que morri
só pra poder ressuscitar.
29 de novembro de 2018
Nós, cuidadosos
"Por isso vos digo: não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o mantimento, e o corpo mais do que o vestuário?" - Mateus 6:25
Para quem se ancora
no vil cais do agora
- ser bom é difícil.
Pois longo é o ofício
e distante a aurora
dos dias propícios.
Para quem namora
com a presente hora
- ser bom é difícil.
Pois a sede engorda
a fome de ceticismo
que o ansioso arvora.
A quem não agrada
observar os lírios
- ser bom é difícil.
Mas boa será a glória
que fará futuro o riso
de quem agora chora.
Para quem se ancora
no vil cais do agora
- ser bom é difícil.
Pois longo é o ofício
e distante a aurora
dos dias propícios.
Para quem namora
com a presente hora
- ser bom é difícil.
Pois a sede engorda
a fome de ceticismo
que o ansioso arvora.
A quem não agrada
observar os lírios
- ser bom é difícil.
Mas boa será a glória
que fará futuro o riso
de quem agora chora.
24 de novembro de 2018
À voz de muitas águas
"Seus pés reluziam como o metal, quando é refinado em fornalha ardente, e sua voz como o som de muitas águas." - Apocalipse 1:15
Tua voz de muitas águas
Teu amor que a tudo lava
envolveu o meu cansaço
quando até este cansaço
de mim já se cansava
e com Tua larga harmonia
a me guiar sobre rio calmo
me guardou daquelas pedras
que do leito se destacavam
fez nascer um regato claro
onde antes a sede habitava
fez brotar um consolo novo
das margens do meu corpo
a Tua voz de muitas águas
Tua voz de muitas águas
Teu amor que a tudo lava
envolveu o meu cansaço
quando até este cansaço
de mim já se cansava
e com Tua larga harmonia
a me guiar sobre rio calmo
me guardou daquelas pedras
que do leito se destacavam
fez nascer um regato claro
onde antes a sede habitava
fez brotar um consolo novo
das margens do meu corpo
a Tua voz de muitas águas
19 de novembro de 2018
Bordado
para Michele Marcial, na ocasião do nosso primeiro aniversário de namoro
A mulher que amo
está bordando.
Faz belos campos e grutas
os frutos com mais sumo
e as histórias da chuva
ela borda
muito mansa lá fora
aqui dentro
a própria chuva.
Enquanto desintegram-se as horas
eu vejo sorrir meu amor, que borda.
E quando ela borda uma flor
esta flor dá testemunho do sol
pela fala aroma de seu amor
sem palavras.
E quando ela borda o traço fino
e azul do rio, a água testemunha
os peixes e o fim da sede
pela azuleza do seu fio
sem palavras.
Mas eu não sendo flor
e sendo pouco rio
dela dou testemunho
com as palavras
sob o mesmo amor
desta tarde águas.
Enquanto desintegram-se as horas
eu vejo sorrir meu amor, que borda.
Porém, esta tarde águas
também está bordando
a mulher amada.
A mulher que amo
está bordando.
Faz belos campos e grutas
os frutos com mais sumo
e as histórias da chuva
ela borda
muito mansa lá fora
aqui dentro
a própria chuva.
Enquanto desintegram-se as horas
eu vejo sorrir meu amor, que borda.
E quando ela borda uma flor
esta flor dá testemunho do sol
pela fala aroma de seu amor
sem palavras.
E quando ela borda o traço fino
e azul do rio, a água testemunha
os peixes e o fim da sede
pela azuleza do seu fio
sem palavras.
Mas eu não sendo flor
e sendo pouco rio
dela dou testemunho
com as palavras
sob o mesmo amor
desta tarde águas.
Enquanto desintegram-se as horas
eu vejo sorrir meu amor, que borda.
também está bordando
a mulher amada.
30 de outubro de 2018
A Hora Sexta
"E era já quase a hora sexta, e houve trevas em toda a terra até à hora nona, escurecendo-se o sol; E rasgou-se ao meio o véu do templo." - Lucas 23:44,45
Cada tempo pede a sua espada
que de espinhos cresça da aljava
seu corte contra o norte de amarras.
Cada tempo, sim, guarda sob capas
a fera a ser rasgada pelo ferro, afiado
em seu próprio tempo o corte cascatas.
Mas de todas as capas, de todos os véus
havia o maior, separando homem e Deus
e a espada que o rompeu, amarga lâmina
luz, tinha seu punhal em forma de cruz.
Cada tempo pede a sua espada
que de espinhos cresça da aljava
seu corte contra o norte de amarras.
Cada tempo, sim, guarda sob capas
a fera a ser rasgada pelo ferro, afiado
em seu próprio tempo o corte cascatas.
Mas de todas as capas, de todos os véus
havia o maior, separando homem e Deus
e a espada que o rompeu, amarga lâmina
luz, tinha seu punhal em forma de cruz.
Cada tempo tinha, terá, teve, mas houve
aquele que por amor a todos os tempos
sentiu os cortes do céu, espada
ele mesmo, ele mesmo o fio
da lâmina contra o véu judeu
nas milenares horas de breu.
sentiu os cortes do céu, espada
ele mesmo, ele mesmo o fio
da lâmina contra o véu judeu
nas milenares horas de breu.
22 de outubro de 2018
O Profeta - Alexander Pushkin
Num ermo, eu de âmago sedento
já me arrastava e, frente a mim,
surgiu com seis asas ao vento,
na encruzilhada, um serafim;
ele me abriu, com dedos vagos
qual sono, os olhos que, pressagos,
tudo abarcaram com presteza
que nem olhar de águia surpresa;
ele tocou-me cada ouvido
e ambos se encheram de alarido:
ouvi mover-se o firmamento,
anjos cruzando o céu, rasteiras
criaturas sob o mar e o lento
crescer, no vale, das videiras.
Junto a meus lábios, rasgou minha
língua arrogante, que não tinha,
salvo enganar, qualquer intuito,
da boca fria onde, depois,
com mão sangrenta ele me pôs
um aguilhão de ofídio arguto.
Vibrando o gládio com porfia,
tirou-me o coração do peito
e colocou carvão que ardia
dentro do meu tórax desfeito.
Jazendo eu hirto no deserto,
o Senhor disse-me: “Olho aberto,
de pé, profeta e, com teu verbo,
cruzando as terras, os oceanos,
cheio do meu afã soberbo,
inflama os corações humanos!”
poema de 1826, tradução de Boris Schnaiderman e Nelson Ascher
já me arrastava e, frente a mim,
surgiu com seis asas ao vento,
na encruzilhada, um serafim;
ele me abriu, com dedos vagos
qual sono, os olhos que, pressagos,
tudo abarcaram com presteza
que nem olhar de águia surpresa;
ele tocou-me cada ouvido
e ambos se encheram de alarido:
ouvi mover-se o firmamento,
anjos cruzando o céu, rasteiras
criaturas sob o mar e o lento
crescer, no vale, das videiras.
Junto a meus lábios, rasgou minha
língua arrogante, que não tinha,
salvo enganar, qualquer intuito,
da boca fria onde, depois,
com mão sangrenta ele me pôs
um aguilhão de ofídio arguto.
Vibrando o gládio com porfia,
tirou-me o coração do peito
e colocou carvão que ardia
dentro do meu tórax desfeito.
Jazendo eu hirto no deserto,
o Senhor disse-me: “Olho aberto,
de pé, profeta e, com teu verbo,
cruzando as terras, os oceanos,
cheio do meu afã soberbo,
inflama os corações humanos!”
poema de 1826, tradução de Boris Schnaiderman e Nelson Ascher
18 de outubro de 2018
O poetinha cansado
Seus olhos, seus olhos
são tão bonitos! Quão
difícil é dizer só isso
depois de tantos livros...
E vê-los por mim mesmo
sem enxugar a imagem
do negror de seus cabelos
na imagem fosca e boba
da poesia de outros tempos!
Seus olhos, seus olhos
são tão bonitos! E bom
é ter olhos para
por mim mesmo
livre de livros
vê-los.
são tão bonitos! Quão
difícil é dizer só isso
depois de tantos livros...
E vê-los por mim mesmo
sem enxugar a imagem
do negror de seus cabelos
na imagem fosca e boba
da poesia de outros tempos!
Seus olhos, seus olhos
são tão bonitos! E bom
é ter olhos para
por mim mesmo
livre de livros
vê-los.
15 de outubro de 2018
Morphine
O sopro no sax rasga
a noite e faz com que
do negro ventre aberto
com esse cetro
escorra a chuva branca
longa barba de estrelas
gotas de tristeza estética
antiga
esférica perfeita pérola
aos porcos
a noite e faz com que
do negro ventre aberto
com esse cetro
escorra a chuva branca
longa barba de estrelas
gotas de tristeza estética
antiga
esférica perfeita pérola
aos porcos
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