28 de junho de 2018

Carta de amor para o suicida

Sua tristeza, seu rosto, a falta de dinheiro, eu não sei mais quem eu sou. Eu amava o fato de você existir no mundo, mesmo que não viesse me visitar, eu amava que o vento acolhesse feito berço seu hálito no espaço e não o fizesse disperso como o tempo fez. O mangue ainda escorre sob os prédios a serem demolidos, infiltram mofo no cimento um sol loteado e verde. O frio. Mas eu amo ainda, independente da sua morte, a sua vida. Não: haverá o fogo e haverá a água e ser amado será um calor imenso, mas ainda não. Uma torre se ergue imensa dentro de mim, uma torre amadurece em mim a distância murada das nuvens ao sopé frio dela mesma. Não morrerei para compensar na vida o amor que você me negou.

6 de junho de 2018

Água

Sejamos benevolentes
como benevolente é a água
para os campos amenos
que lhe aguardavam

mesmo que inundemos
os campos escandalizados
que não esperavam
a tempestade que formos.

Porque a quem pode amar
e a quem não pode amar
deve ser dado amor

porém somente aos primeiros
as lágrimas que causarmos
serão de alegria.

29 de maio de 2018

O Templo

O trabalho que soergueu o templo
pondo sobre nossos ombros largos
o beijo celeste de telúrico emprego
em vão sobre os dedos rindo calos
derramou do altar nossos pássaros
os vincos azuis de marmóreo beijo
às mãos templárias o furto bárbaro.

Que furtem ainda mais ouro!
Que rasguem nossa flâmula!
Nunca farão a Luz ser fosca
nem poderão rasgar o Fogo.

27 de maio de 2018

Jesus

Seu nome é Sol, seu nome é Água, seu nome é Pássaro
e no seu nome está tudo quanto é mais simples e puro

No entanto Deus de saber tudo soube
que precisaríamos distinguir as coisas
pelo nome e o chamou assim entre nós
para que não o confundíssemos
com o Sereno, com o Vento
com a Estrada, com o Fogo

Para nosso júbilo o Senhor dos Exércitos
mostrando sua face de Príncipe da Paz

19 de maio de 2018

Reclamação no banquete dos fofoqueiros

Que se desbrave os campos do escárnio
Acidez e orgulho que se rumine amargo
Das pastagens do horror que se adentre
Heroico na antecâmara à morte o ventre
Que se cante uma nova epopeia a tempo
De enaltecer forte uma renovação dentro
Que se faça a alegria de muitos de todos!

Dirão contra. Falarão mal. Vocês apontando
independente do agires. Serão os dedos (ou
serão as mãos?) serão os dedos dos juízes?

18 de maio de 2018

Véspera de cerco

A menos que a montanha defronte
à ala destra do nosso forte nos olhe
e de abaixar seus olhos à nossa face
veja o medo tido à trombeta inimiga

pouco restará de nós, após a vigília
nada restará de nós, após a investida.

A menos que o sol vitorioso acima
encare o exército que se aproxima
e condoído lance fogo pelos dedos
e desconjunte a instalação do cerco

morreremos. Mas
se dentro restar o bom ânimo do Puro
de se ser vencido para vencer o mundo
dentro haverá paz.

13 de maio de 2018

Senda

Os porcos não configuraram um lar
Quando entre eles habitei queda e exílio
Mesmo que um estômago estufado eu tivesse
Mesmo jazendo embriagado e seguro
Mesmo que de segurança caiassem a fala
Me chamando irmão não sendo

Os leões configuraram um lar
Quando neles medrei amor e destino
Mesmo que desraigado errasse alcateias
Mesmo que tempestuosos me rosnassem
De luz imerecida rungindo nenhum chamado
Não chamando irmãos mas senda

10 de maio de 2018

Meus poemas têm uma serenidade
que não tenho ao escrevê-los, um lobo
ofegando dentro à véspera do ataque
mas fora silente prevendo o posterior
fim da fome.

5 de maio de 2018

As paredes rendas de intrincados visgos

As paredes rendas de intrincados visgos
que fizeram deste jardim um labirinto
cresceram sozinhas. Quem saber pode
o que vicejava em nós enquanto isso?
Não perceber o ponto entre estar jovem
e de repente: envelhecido. No centro
morno da mão jardínea a fonte, nela
em nós, jorrando amor, ódio, amor
e outros vinhos.

1 de maio de 2018

Raiva de criança

Têmporas rangendo uma ofensa. Dura pouco, pois logo o sorrisinho perdoante e após lágrimas. Dura a vida toda, pois todas as idades vivem no menino, nem que só lembrando as circunstâncias do mangueiral. Mas: todas as raivonas posteriores dentro dessa raivinha.

28 de abril de 2018

eremita

ir vivendo com muitas gentes
olhando fundo no oco das faces
fragmentou musculares ossos
até os caroços da paciência

onde o aonde do deserto
que fale o não ouvir?

23 de abril de 2018

Em 2050

a repetição do fracasso
essa circuncisão pagã
marcou minha geração
no aço do nosso amanhã

tivemos ossos de traça
em musculatura leonina
olhos nublados de nada
na caça por ricos dias

fracassamos e logo após
a última selfie nós
então morremos

engendramos mil venenos
suicídios filmados a tiros
porque morte maior seria
não sermos vistos

22 de abril de 2018

Melancia

De observar os dedos que pressionam
a força na couraça verde da melancia
aprender porque a secura dos calos deles
não desfaz o viço no rubor interno nela
e ter
armadura verde murada
fora
e ser
fértil latejante hidratado
dentro.

18 de abril de 2018

Pomar

para Michele Marcial

Sóis já vi muitos, mas teu coração?
Inédito mesmo se sob a atenção de quem semeia.
Céus já vi quantos me alegraram, e águas
e frutos de sorvê-los calejei minha ternura
mas teu beijo? Tenho quase certeza que teu beijo
era em si um universo de relíquias luzes
desde as eras em que todos nós
habitávamos o mesmo colo de nuvens.
E tua poesia? E teu subir árvores? E teu acordar
todas os dias para engendrar a manhã na manhã?
Eles, teus olhos acordando, me contaram ontem
que tigres mansos circulam o pomar
do nosso amor. Castos e sábios castanhos
tigres mansos
no entorno redondo do nosso amor!
Não desacredito.

15 de abril de 2018

A mãe professora e mãe

para Marisa do Carmo Marcial, na ocasião de seu aniversário

Semente semeada em semente
a mãe professora e mãe doada
para si mesma como nutriente
para a prole similar terra exata.
Pois a semente em si semeada
é orando contínuo que colore
o ar nas ensolaradas mil salas
do solo alicerçado em árvores

– e é esculpindo ser mãe na madeira
que lapida ser professora no mármore.

10 de abril de 2018

Aprendiz

Aprendi que, embora as fêmeas elogiem o mar, do mar não se bebe, no mar não se banha, no mar não se beija. Aprendi que o mal é mau e o bem é bom, mesmo que a ânsia dos arrogantes relativize o caminho e Gomorra se torne a capital do império. Aprendi que ser generoso tem que partir de um porque sim, pois aquele que espera da generosidade uma benesse deve saber que no rosto do generoso se acumulam os escarros da comunidade. Aprendi que a arte é o galho mais altivo da árvore seivosa de conhecer a si e o que nega, nela, a beleza, orbita o próprio umbigo e só. Aprendi que o amor é. Aprendi que o vento sendo tanto pode engrossar mesmo sem chuva a água boa do rio. Aprendi o horror da companhia sobretudo em detrimento ao prazer da solidão.

2 de abril de 2018

Casamento

"A mulher não tem poder sobre o seu próprio corpo, mas tem-no o marido; e também da mesma maneira o marido não tem poder sobre o seu próprio corpo, mas tem-no a mulher." - 1 Coríntios 7:4

As borboletas, duas, perseguiam-se
em cruz. Em cruz, duas, as borboletas
se amavam. Enquanto os ventos
nos ramos desmoldavam as ilhas
de luz sob o sol e sobre o gramado.

Com a nuca em meu peito ela lia
o livro que eu mesmo, também, ia
lendo. Nossos olhos perseguiam-se
às páginas lidas, sem correr, na brisa
que enovelava seus cachos e o tempo.

Havia ali um amor simples e ouro
no enredo, e havia o nosso, moço
mas já grande de violento; e nessa
da tarde os dois, em cruz, íamos
tirando arestas da história, dentro.

31 de março de 2018

Ressurreição

O breu em nós não compreendia
a vinda da luz pela voz do Verbo
nem compreendíamos o deserto
erigido pelo Leão que ruge o dia
tal qual o negror em nós não via
o véu que se rasga no furor certo
- nós não tínhamos olhos quietos
o suficiente para ver Quem rugia!

Então houve o retorno que recria.
Então compreendemos nosso elo

da cruz central ao ver o ressurecto
no trinitário sorriso do terceiro dia.

29 de março de 2018

Bodas de ouro

Quando o nosso primogênito morreu
mal tive tempo de me atentar na dor.
Havia um êxodo no teu olhar áureo
no teu olhar de lar um exílio cursou.
Nas chamas sem movimento idólatra
da tristeza o fogo forte fazia réquiem.
Tuas ruínas exigiam a minha força e
ali, embora igual ruína, eu não chorei.

Quando o câncer me tomou a carne
mal tive tempo de me atentar na dor.
Havia no teu cuidado o que cuidasse
em mim a dor que não te abandonou.
Como quem alisa o ferimento alheio
e de cuidar o outro a si unge coragem
tua força ungiu a ruína no meu seio e
ali, embora sem esta força, não chorei.

50 anos. Mais dias sendo com você
do que sendo sozinho o que eu sou.
Não erigido nos tempos de prazer.
Um amor fundado nos dias de dor.

21 de março de 2018

Fábula

é preciso conviver
com o mel
e com o ferrão

(ouviu-se
sem que ninguém
dissesse)
 
pois o outono começou
 
(mas o sol no lodo
verde tigre amando
o alaranjado marrom
disse)
 
ainda não