11 de setembro de 2022

Nomes para o trio

Rio

Porque o ideograma
japonês para rio
são três linhas
de nuvem bordadas
no céu roxo anil.

Bordado

Porque entre
o arco do cello
e a baqueta do ritmo
a voz é o istmo:
agulha, linha, tecido
do que tenho sido.

Trem

Em Minas
tudo é trem.
Tudo incluso
trio também.

6 de setembro de 2022

A árvore da minha geração

Esta é a árvore da minha geração.
Folhas caem, raiz seca-se
o caule jaz retorcido e triste.
Mas desta árvore que somos
espera-se frutos - como se
por espera haver
não nascessem, tristes, os frutos
desempregados de sumo
depressivas suicidas as folhas
de tanta espera alheia a lhes pesar.
Esta é a árvore da minha geração.
"Mas a terra é boa", dizem os antigos.
"Mas há chuva", dizem os antigos.
"Por que está morrendo?"

26 de agosto de 2022

Justa

"E, como aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo depois disso o juízo" - Hebreus 9:27

– Eu venho da Nação da Memória
com seu estandarte na mão.
Venho da terra cujas glórias
vêm do passado. E você?

– Eu não.
Eu venho da Nação da Esperança
trazendo seu terrível brasão.
Venho da terra cuja história
é o futuro que avança. E você?

– Eu não.
Vou à Nação do Esquecer
buscar alguma compaixão.
Vou à terra cuja vitória
e guerra é morrer. E você?

– Eu também.

– Então somos irmãos. 

5 de agosto de 2022

Podia ser pior

A têmpera deste século
é estarmos cansados.

Mas as faces harmonizadas
dos influencers
sorriem
os ossos dos esfomeados.

17 de julho de 2022

A flor da verdade

Se o ipê sonhasse
talvez não florescesse.

Se o homem florescesse
talvez não sonhasse.

Eis o coração difícil
da flor da verdade.

Se o ipê sonhasse
talvez não florescesse.

Se o homem florescesse
talvez não sonhasse.

10 de julho de 2022

O fracassado

No mundo há muitos poderes.

Eu, porém, não possuo
nenhum deles.

Por isso
pouco ouço sobre as guerras
e sobre os rumores de guerras
e sobre as fortunas pelas quais
guerreiam irmãos.

À tarde
quando descanso do trabalho
chamo a mulher que amo
para sentar-se comigo
sob as árvores que não são nossas
no quintal que não é nosso
sentir o sol
e o olhar encher-se das flores
na mangueira que floriu.

No mundo há muitos gritos.

Mas o meu
nunca será ouvido.

Porque não tenho
entre os dedos
outro sangue além
do que tenho vertido.

E me distraio
com os cabelos cada vez
mais ondulados
da minha esposa
linda
como um beijo
florescido.

Um dia
talvez hoje
nós morreremos.

Sem nenhum poder
até lá
assim creio
e desejo.

30 de junho de 2022

O bruto e o broto

Gostava de mascar pétalas de rosas
de tão lindas que eram, de tão frágeis
e nisso consistia a sua delicadeza: rasgar
com os dentes e inundar de saliva
o que era pacífico e cheiroso demais
para existir impunemente. 

"Tem gosto de perfume", ele dizia.

29 de maio de 2022

Objetivo

Abrir os ouvidos
até buscar do silêncio
o que seja audível.

Assim como o cair da chuva soa
o som de nenhum sino
ou semelhante ao vento
suave nas cortinas do templo
sob as franjas do sol a pino.

Abrir os ouvidos
para aquilo que canta
no nenhum som
- eis o meu objetivo.

Até encontrar o dentro
da música primeira
e na sua estrela
pro meu silêncio
achar um ninho.

12 de maio de 2022

Outono

"Seca-se a erva, e cai a flor, porém a palavra de nosso Deus subsiste eternamente."  - Isaías 40:8

A folha não cai como cai o suicida
ao rumar da galharia dos prédios
para o concreto disforme da via
seu rápido áspero raio
ao encontro com o chão da vida.

A folha não cai: desprende-se.
A folha não cai: voa.

E nós um dia também, outono
deixaremos em folhas secas
a nossa pessoa.

Mas sob a primavera, esta esperança
- não sejamos os que se fazem salto
sejamos aqueles que se fazem dança

pois fiel e eterno é o Vento
que nos chama.

26 de abril de 2022

O corpo da alegria

Minha amada deu corpo à alegria
e nela a felicidade se fez boca
cabelos, castanhos olhos, coração

Como a flor dá sorriso à floresta
como a fonte fresca dá à floresta
o seu coração fresco de águas

Minha amada deu corpo à alegria
e nela a felicidade se fez hálito
pele, castanho perfume, mãos

Uma ave que desse à floresta asas
minha amada é
um céu que desse à ave canção

14 de abril de 2022

O nenhum cavaleiro

A poesia, este escudo de flores
inútil, bonito, colorido
como os ipês sobre os montes

para qual espada foi feita?

Para o amor, a espada de flores
inútil, bonita, sem corte ou açoite
como os ipês que guerreiam
aqui
a nenhuma guerra das cores

13 de março de 2022

O cansaço das águas

"Porque te esquecerás do cansaço, e lembrar-te-ás dele como das águas que já passaram." - Jó 11:16

Este mundo está cansado como o mar
que após o ímpeto de jogar-se na praia
escorre o tumulto de seu sal e conchas
sobre o próprio mar, areia, algas
castanhas como os castanhos olhos
da beleza, este mundo está cansado
como um domingo entediado
em que a guerra viesse se aninhar
e da musculatura flácida das nuvens
quem tem poder bebeu a prata
quem não tem poder morreu de sede
cansado que este mundo está, como o mar
que após o ímpeto de jogar-se na areia
desiste, desiste, desiste e suspira
pedindo que o amor
de impossível cansaço
faça novas
todas as coisas
pedindo ao amor
o renovo da maré
e do amar.

11 de fevereiro de 2022

Relatório

Amar e ser amado, amar
e ser amado - embora
os seres humanos
construam catedrais
ergam modas
reestabeleçam políticas
e ordens cívicas
embora inventem esportes
impostos, combustíveis
rasguem o mundo futuro
no sangue derramado hoje
embora
folheiem ouro nas casas
nos olhos
fundem facções
comprem ações
negociem o coração
do próprio peito
e até mesmo odeiem
- amar e ser amado, amar
e ser amado
é tudo
o que todos querem.

Mas
curiosamente
não é amar e ser amado
o que chamam
curiosamente
de vencer na vida.

3 de fevereiro de 2022

Um epitáfio

A despeito da minha loucura
o mundo continua.

Aqui jaz alguém perdoado
(obrigado, Senhor)
enfim vencido pelo amor
(Senhor, obrigado)

6 de janeiro de 2022

Cantiga de ninar para o ansioso

Por mais que pareça urgente
inventar a fome futura
a ansiedade, o pão da loucura
não alimenta o presente.

Por mais que pareça urgente
arquitetar a masmorra futura
a ansiedade, chave de loucura
não liberta o presente.

Descansa, então, homem
do grilhão limoso das horas.

Deus alimenta seu hoje
libertou seu ontem 
e te guardará
para além da aurora.

21 de dezembro de 2021

O jardim da circunstância

Eu não escolhi a minha cor
o país em que nasci não escolhi
meu coração à poesia, essa vontade
de ver o mundo desmanchar-se
e ser refeito
eu não escolhi a poesia
como estandarte furioso
mas ei-la aqui crepitando
fogo
enquanto tremula ao vento
eu não escolhi o meu coração
mas alegro-me em havê-lo
um grande jardim de árvores
fogo
devoradas pelas águas
tempestadas do tempo

30 de novembro de 2021

Alagoas

Graças a Deus
pela saúde dos areais
e pela água quente
Graças a Deus
pela alegria do vento vindo
dançar os cabelos da gente
Graças a Deus
por esses muitos
verdes entres
Graças a Deus
pelo frescor
dos coqueirais
pelo mar, amor
e tudo mais

10 de novembro de 2021

O verão amendoado de novembro

Os olhos castanhos da minha esposa
dourados
pelo verão amendoado de novembro
são os frutos maduros da alegria
enfim em um galho à altura da mão.

Deus meu, Deus meu
 - eu bem merecia
mas não me abandonastes
à safra da minha própria loucura.

A tarde nasce em nuvens lindas
e chuva ainda quente de sol.

Por estar enfim feliz, enfim
até escrevo menos poemas
- mas vivo-os cada vez mais.

24 de outubro de 2021

O Manual da Dona Iza

para Bruno e Dona Iza, daqui https://www.instagram.com/tv/CVbRPPlrXIm/

"Me dá meus olhos" disse a mãe
que me ensinou a ver. 

O olhar da memória é estar presente.
O coração da vida é a memória.

Não.

O coração da vida é o amor.

19 de outubro de 2021

Canção sem sede

Depois da tempestade, a flor de goiaba
- no coração verde da tarde
o jardim nos olhos da amada

Depois da tempestade, a flor de goiaba
- o enigma difícil da seca
resolvido na seda das águas

Depois da tempestade, a flor de goiaba
- o sorriso que morde sem dentes
o fruto da esperança hidratada

Depois da tempestade
vocês sabem
a flor de goiaba
- e é bom que haja sede
para então saciá-la.