5 de agosto de 2022

Podia ser pior

A têmpera deste século
é estarmos cansados.

Mas as faces harmonizadas
dos influencers
sorriem
os ossos dos esfomeados.

17 de julho de 2022

A flor da verdade

Se o ipê sonhasse
talvez não florescesse.

Se o homem florescesse
talvez não sonhasse.

Eis o coração difícil
da flor da verdade.

Se o ipê sonhasse
talvez não florescesse.

Se o homem florescesse
talvez não sonhasse.

10 de julho de 2022

O fracassado

No mundo há muitos poderes.

Eu, porém, não possuo
nenhum deles.

Por isso
pouco ouço sobre as guerras
e sobre os rumores de guerras
e sobre as fortunas pelas quais
guerreiam irmãos.

À tarde
quando descanso do trabalho
chamo a mulher que amo
para sentar-se comigo
sob as árvores que não são nossas
no quintal que não é nosso
sentir o sol
e o olhar encher-se das flores
na mangueira que floriu.

No mundo há muitos gritos.

Mas o meu
nunca será ouvido.

Porque não tenho
entre os dedos
outro sangue além
do que tenho vertido.

E me distraio
com os cabelos cada vez
mais ondulados
da minha esposa
linda
como um beijo
florescido.

Um dia
talvez hoje
nós morreremos.

Sem nenhum poder
até lá
assim creio
e desejo.

30 de junho de 2022

O bruto e o broto

Gostava de mascar pétalas de rosas
de tão lindas que eram, de tão frágeis
e nisso consistia a sua delicadeza: rasgar
com os dentes e inundar de saliva
o que era pacífico e cheiroso demais
para existir impunemente. 

"Tem gosto de perfume", ele dizia.

29 de maio de 2022

Objetivo

Abrir os ouvidos
até buscar do silêncio
o que seja audível.

Assim como o cair da chuva soa
o som de nenhum sino
ou semelhante ao vento
suave nas cortinas do templo
sob as franjas do sol a pino.

Abrir os ouvidos
para aquilo que canta
no nenhum som
- eis o meu objetivo.

Até encontrar o dentro
da música primeira
e na sua estrela
pro meu silêncio
achar um ninho.

12 de maio de 2022

Outono

"Seca-se a erva, e cai a flor, porém a palavra de nosso Deus subsiste eternamente."  - Isaías 40:8

A folha não cai como cai o suicida
ao rumar da galharia dos prédios
para o concreto disforme da via
seu rápido áspero raio
ao encontro com o chão da vida.

A folha não cai: desprende-se.
A folha não cai: voa.

E nós um dia também, outono
deixaremos em folhas secas
a nossa pessoa.

Mas sob a primavera, esta esperança
- não sejamos os que se fazem salto
sejamos aqueles que se fazem dança

pois fiel e eterno é o Vento
que nos chama.

26 de abril de 2022

O corpo da alegria

Minha amada deu corpo à alegria
e nela a felicidade se fez boca
cabelos, castanhos olhos, coração

Como a flor dá sorriso à floresta
como a fonte fresca dá à floresta
o seu coração fresco de águas

Minha amada deu corpo à alegria
e nela a felicidade se fez hálito
pele, castanho perfume, mãos

Uma ave que desse à floresta asas
minha amada é
um céu que desse à ave canção

14 de abril de 2022

O nenhum cavaleiro

A poesia, este escudo de flores
inútil, bonito, colorido
como os ipês sobre os montes

para qual espada foi feita?

Para o amor, a espada de flores
inútil, bonita, sem corte ou açoite
como os ipês que guerreiam
aqui
a nenhuma guerra das cores

13 de março de 2022

O cansaço das águas

"Porque te esquecerás do cansaço, e lembrar-te-ás dele como das águas que já passaram." - Jó 11:16

Este mundo está cansado como o mar
que após o ímpeto de jogar-se na praia
escorre o tumulto de seu sal e conchas
sobre o próprio mar, areia, algas
castanhas como os castanhos olhos
da beleza, este mundo está cansado
como um domingo entediado
em que a guerra viesse se aninhar
e da musculatura flácida das nuvens
quem tem poder bebeu a prata
quem não tem poder morreu de sede
cansado que este mundo está, como o mar
que após o ímpeto de jogar-se na areia
desiste, desiste, desiste e suspira
pedindo que o amor
de impossível cansaço
faça novas
todas as coisas
pedindo ao amor
o renovo da maré
e do amar.

11 de fevereiro de 2022

Relatório

Amar e ser amado, amar
e ser amado - embora
os seres humanos
construam catedrais
ergam modas
reestabeleçam políticas
e ordens cívicas
embora inventem esportes
impostos, combustíveis
rasguem o mundo futuro
no sangue derramado hoje
embora
folheiem ouro nas casas
nos olhos
fundem facções
comprem ações
negociem o coração
do próprio peito
e até mesmo odeiem
- amar e ser amado, amar
e ser amado
é tudo
o que todos querem.

Mas
curiosamente
não é amar e ser amado
o que chamam
curiosamente
de vencer na vida.

3 de fevereiro de 2022

Um epitáfio

A despeito da minha loucura
o mundo continua.

Aqui jaz alguém perdoado
(obrigado, Senhor)
enfim vencido pelo amor
(Senhor, obrigado)

6 de janeiro de 2022

Cantiga de ninar para o ansioso

Por mais que pareça urgente
inventar a fome futura
a ansiedade, o pão da loucura
não alimenta o presente.

Por mais que pareça urgente
arquitetar a masmorra futura
a ansiedade, chave de loucura
não liberta o presente.

Descansa, então, homem
do grilhão limoso das horas.

Deus alimenta seu hoje
libertou seu ontem 
e te guardará
para além da aurora.

21 de dezembro de 2021

O jardim da circunstância

Eu não escolhi a minha cor
o país em que nasci não escolhi
meu coração à poesia, essa vontade
de ver o mundo desmanchar-se
e ser refeito
eu não escolhi a poesia
como estandarte furioso
mas ei-la aqui crepitando
fogo
enquanto tremula ao vento
eu não escolhi o meu coração
mas alegro-me em havê-lo
um grande jardim de árvores
fogo
devoradas pelas águas
tempestadas do tempo

30 de novembro de 2021

Alagoas

Graças a Deus
pela saúde dos areais
e pela água quente
Graças a Deus
pela alegria do vento vindo
dançar os cabelos da gente
Graças a Deus
por esses muitos
verdes entres
Graças a Deus
pelo frescor
dos coqueirais
pelo mar, amor
e tudo mais

10 de novembro de 2021

O verão amendoado de novembro

Os olhos castanhos da minha esposa
dourados
pelo verão amendoado de novembro
são os frutos maduros da alegria
enfim em um galho à altura da mão.

Deus meu, Deus meu
 - eu bem merecia
mas não me abandonastes
à safra da minha própria loucura.

A tarde nasce em nuvens lindas
e chuva ainda quente de sol.

Por estar enfim feliz, enfim
até escrevo menos poemas
- mas vivo-os cada vez mais.

24 de outubro de 2021

O Manual da Dona Iza

para Bruno e Dona Iza, daqui https://www.instagram.com/tv/CVbRPPlrXIm/

"Me dá meus olhos" disse a mãe
que me ensinou a ver. 

O olhar da memória é estar presente.
O coração da vida é a memória.

Não.

O coração da vida é o amor.

19 de outubro de 2021

Canção sem sede

Depois da tempestade, a flor de goiaba
- no coração verde da tarde
o jardim nos olhos da amada

Depois da tempestade, a flor de goiaba
- o enigma difícil da seca
resolvido na seda das águas

Depois da tempestade, a flor de goiaba
- o sorriso que morde sem dentes
o fruto da esperança hidratada

Depois da tempestade
vocês sabem
a flor de goiaba
- e é bom que haja sede
para então saciá-la.

28 de setembro de 2021

Deus, ao contrário dos homens

Deus, ao contrário dos homens,
vê todos as faces da montanha
ao mesmo tempo
Deus vê todas as montanhas
Deus vê o vento

Então
quando alguém com os pulmões
tumorados de morte
e o coração nublado de loucura
pergunta colérico onde está Deus
Deus pode vê-lo, vê-lo
no jardim futuro que se chama eterno
sua conversão à paz Deus vê
nas lágrimas da dor presente
a alegria das lágrimas futuras

Deus, ao contrário dos homens,
vê todas as faces da montanha
ao mesmo tempo
Deus vê todas as montanhas
Deus vê o vento
e nos vê

5 de setembro de 2021

O jardineiro da estiagem

Se as flores tornam-se consolo
para quem espera pelos frutos
a fome é saciada pela cor
desse aroma já maduro?

O esfomeado que olha
pelas grades entre os muros
o banquete dos galhos fartos
deixa de ter fome
se olhar muito?

As flores apenas saciam
quem já não precisa dos frutos?

A beleza é para o faminto
o que a piada é para o luto?

20 de agosto de 2021

O absoluto silêncio de ter morrido

"Não, vos digo; antes, se não vos arrependerdes, todos de igual modo perecereis." - Lucas 13:5

O absoluto silêncio de ter morrido
não existe - é ruidoso não existir mais
se inferno e eternamente em desabrigo.

A memória embora grite nos que ficam
não é esse o seu vermelho pior bramido
se no inferno interno daquele que morre
há a inquietude do sal no corte, isto é:

se houver audível insuportável o grito
do que se indigna depois da morte
e não se arrependeu estando vivo.