Quem deseja vender a sua alma
(este pomo dos últimos tempos)
não precisa fazer mais nada.
A disposição em fazê-lo
já assinou o contrato com
o selo do próprio desejo.
Quem deseja vender a sua alma
(este pomo dos últimos tempos)
não precisa fazer mais nada.
A disposição em fazê-lo
já assinou o contrato com
o selo do próprio desejo.
A cortina é a túnica
para o corpo do vento
quando abril vem vindo
com seu hálito de beijo
e suas tranças de folhas
invadir a casa
do pensamento
O frescor antigo
deste novo alento
sabe encher-nos
de alívio a pele
sabe dissipar a febre
e perfumar de sonho
o cenário outono
que temos dentro
Vem
vem, ó Jerusalém
escolhamos as mais belas folhas
para louvar aquele que em breve assassinaremos
e passemos sobre ele o contorno verde das folhas
sobre sua cabeça que em breve rasgaremos
na ponta de espinhos
igualmente escolhidos
Vem
construamos catedrais
façamos para nós líderes sacerdotais que dominem
sobre nossos filhos
e roubem de nós a gordura de nossos animais
deem ao ourives de todo fogo
o projeto dessa coroa
com joias da inquisição
e arquitetemos líderes
que difamem o nome do Senhor
em seus atos
Louvemos, louvemos
aquele que odiamos
por evidenciar em nós
a bondade que não temos
Que verdes ramos são, ó Jerusalém
fazer para Deus aquilo que Deus não pediu
que belos são, ó Laodiceia
estes espinhos futuros
Enquanto eu aguardava o golpe dos que me degolariam
o céu era azul, o vento era março
e o meu coração era a flor do contentamento
em haver beleza
no canto dos pássaros
nas lágrimas daquela que chorava por mim.
Antes que a lâmina descansasse sua fúria
em minha carne
agradeci por ter olhos, por ter pele
e vi o céu que era azul
obrigado, Senhor, eu pensei
e senti o vento que era março
e ouvi o canto dos pássaros
nas lágrimas daquela que chorava por mim
Deus é bom, de fato
Deus é bom.
"O último inimigo a ser destruído é a morte." - 1 Coríntios 15:26
Enquanto a dor rasga meus músculos
como pedras que cortam o cosmos
contemplei, oh morte
a tua escuridão.
Com olhos inutilmente abertos
apalpei teu olhar desfeito
apalpei meus ódios
e segredos
enquanto a ferrugem do rancor
mutilava
a escondida lâmina
do meu amor.
Por muito tempo, oh corpo
te julguei inútil
porque teu fim
me doía.
Mas não sei amar
meus irmãos
sem você, corpo meu.
Não sei cantar
a Deus
sem você.
Eu não sabia
que não és mau
embora de ti a dor me brote
cicatrizes
com suas raízes de câncer.
Embora, corpo, seja feia
a condição em que estás
tua beleza canta
- com a boca ferida
da maior sede
mas o coração ferido
da maior esperança.
Amplos eram os salões de debate
que frequentei, querendo agradar
o desprezo de opiniões sem asas
que voavam aos milhares, aves
espalhando o hálito amargo
dos debatedores meus pares.
Amplos eram, não sei se ainda
o são
os salões que eu frequentava
até que resolvi sair
ao colo dos campos
e encontrar
o reflexo do meu rosto
nas poças após a chuva
de verão.
O tempo é a vitória
sobre toda vaidade.
A beleza e sua glória
a riqueza e suas grades
o tempo estraçalha
e vence
como se colhesse
uma cidade.
O tempo é a vitória
sobre toda vaidade.
O tempo é a memória
de rejuntar escombros
peneirar escórias
pra erigir da ferrugem
a sua joia de mofo
incrustrada na coroa
da História.
Quem de nós
não tombará diante
da cavalaria das horas?
Quem
em qual instante
ousará reerguer
do ventre cobre
as suas modas?
O tempo é vitorioso
e é algo que consola.
Porque o soberbo
se perde em seu seio
onde morre seu viço
e vanglória.
Só restará eternidade
nesta fogueira paciente
que temporalmente
devora.
Maria, com ternura, talvez tenha enrolado
algum cachinho de Jesus entre os dedos
pensando levemente espantada
como um sussurro de águas
em um jarro
enquanto o amamentava
"Eis o Senhor
nos braços
dos meus beijos!"
Com os olhos entreabertos
de amor
e o sorriso terno
satisfeito
Maria talvez sussurrasse
"eis meu Salvador
a quem alimento com o leite
que Ele mesmo criou!"
Talvez Maria
tenha cogitado
o incompreensível
nisso
a loucura de Deus
como está escrito
refazendo, fio de azeite
a linhagem de Jacó
e Davi, em frente
enquanto passava os dedos
pelas bochechas de Jesus
quase dormindo, ressonando
tranquilamente
"Dorme, Senhor meu
meu filho amado
Jesus"
talvez tenha pensado
os olhos úmidos pela graça
Maria tivesse
os olhos molhados de amor
de água, de sal, de tempo
e o coração úmido de luz
obrigado, Senhor, porque me deste este coração de sofrer
e amar
estes olhos de chorar e esta boca de nutrir
obrigado por me sorrir limitado
pelas margens do corpo
como um rio raso, feliz de peixes, enlameado de vida
e iluminado de águas
obrigado pelo dom do arrependimento contínuo
em pensar nas vezes em que não agi com amor
pois ao ficar envolto em burrice e aprendizado
como o soluço magoado da criança
no mar
aprendo a mágoa apaziguada
do sal
obrigado também
porque não vislumbro o futuro dos meus passos
mas por saber que estão guardados em Você
Senhor
igualmente ficam calmos o futuro e o passado
a lâmina da angústia dissipada
em obrigados
1. Haver chuva no tempo de chuva, haver sol no tempo de sol: as mãos da bondade de Deus abertas em amarelo, verde e azul.
2. Qual deve ser a cor favorita do Senhor?
3. A borboleta é o sorriso da flor.
4. A abelha é o trabalho da flor.
5. A flor é o carinho da árvore, como que bregamente dizendo "não tenho dedos: acaricio com pétalas".
6. Que triste deve ser, vendo criação sem crer em criador, que tristíssimo deve ser colher um fruto e não sentir nascer o córrego da gratidão dentro do peito...
7. Folhagens mexendo, dançando no vento: o vento não vejo, mas seus efeitos.
8. Nervosas formigas ocupadas com nem-elas-sabem-com-quê.
9. Quanta misericórdia de Deus em haver manga!
10. A boca seca, a língua uma lâmina, os lábios rachados: calma, criação, daqui a pouquinho chove.
"A tua misericórdia, Senhor, está nos céus, e a tua fidelidade chega até às mais excelsas nuvens." - Salmos 36:5
Como abriste o primeiro céu, Senhor
no coração da presente tarde
para vencer com as mechas do sol
os cabelos rubros da tempestade
E como abriste a madre do vento
que dobrava o verde das pastagens
para nascer a mansidão do sopro
tranquilo em azul linguagem
Trocaste também, Senhor
o meu coração de nuvens
pelo sol da eternidade
Senhor, meu Senhor
que sabes de quantas gotas
uma rocha precisa
pra ter um ninho
em suas esquinas
dai-me o dom de saber
consolar um amigo
sob as pedras dos dias
Senhor, ah Senhor
que sabes
quantas lágrimas
chorarei
e em seu livro
as tens escritas
dai-me o dom de saber
estar em silêncio
diante da lágrima
amiga
Existe uma pronúncia de água
na boca nuvens
da mulher amada.
Deus pensava em rios
ao criá-la?