14 de fevereiro de 2021

O moribundo

"O último inimigo a ser destruído é a morte." - 1 Coríntios 15:26

Enquanto a dor rasga meus músculos 
como pedras que cortam o cosmos
contemplei, oh morte
a tua escuridão.

Com olhos inutilmente abertos
apalpei teu olhar desfeito
apalpei meus ódios
e segredos
enquanto a ferrugem do rancor
mutilava
a escondida lâmina
do meu amor.

Por muito tempo, oh corpo
te julguei inútil
porque teu fim
me doía.

Mas não sei amar
meus irmãos
sem você, corpo meu.

Não sei cantar
a Deus
sem você.

Eu não sabia
que não és mau
embora de ti a dor me brote
cicatrizes
com suas raízes de câncer.

Embora, corpo, seja feia
a condição em que estás
tua beleza canta
- com a boca ferida
da maior sede
mas o coração ferido
da maior esperança.

20 de janeiro de 2021

O debatedor

Amplos eram os salões de debate
que frequentei, querendo agradar
o desprezo de opiniões sem asas
que voavam aos milhares, aves
espalhando o hálito amargo
dos debatedores meus pares.

Amplos eram, não sei se ainda
o são
os salões que eu frequentava
até que resolvi sair
ao colo dos campos
e encontrar
o reflexo do meu rosto
nas poças após a chuva
de verão.

13 de janeiro de 2021

Canção de tempo e vaidade

O tempo é a vitória
sobre toda vaidade.

A beleza e sua glória
a riqueza e suas grades
o tempo estraçalha
e vence
como se colhesse
uma cidade.

O tempo é a vitória
sobre toda vaidade.

O tempo é a memória
de rejuntar escombros
peneirar escórias
pra erigir da ferrugem
a sua joia de mofo
incrustrada na coroa
da História.

Quem de nós
não tombará diante
da cavalaria das horas?

Quem
em qual instante
ousará reerguer
do ventre cobre
as suas modas?

O tempo é vitorioso
e é algo que consola.

Porque o soberbo
se perde em seu seio
onde morre seu viço
e vanglória.

Só restará eternidade
nesta fogueira paciente
que temporalmente
devora.

1 de janeiro de 2021

Novo Ano

Bocejam doze flores na janela.
De novo! Mas em todas as pétalas
há, em miniatura, a primavera.

23 de dezembro de 2020

Maria, talvez

Maria, com ternura, talvez tenha enrolado
algum cachinho de Jesus entre os dedos
pensando levemente espantada
como um sussurro de águas
em um jarro
enquanto o amamentava

"Eis o Senhor
nos braços
dos meus beijos!"

Com os olhos entreabertos
de amor
e o sorriso terno
satisfeito
Maria talvez sussurrasse

"eis meu Salvador
a quem alimento com o leite
que Ele mesmo criou!"

Talvez Maria
tenha cogitado
o incompreensível
nisso
a loucura de Deus
como está escrito
refazendo, fio de azeite
a linhagem de Jacó
e Davi, em frente
enquanto passava os dedos
pelas bochechas de Jesus
quase dormindo, ressonando
tranquilamente

"Dorme, Senhor meu
meu filho amado
Jesus"
talvez tenha pensado
os olhos úmidos pela graça
Maria tivesse
os olhos molhados de amor
de água, de sal, de tempo
e o coração úmido de luz

15 de dezembro de 2020

Poema de agradecimento

obrigado, Senhor, porque me deste este coração de sofrer
e amar
estes olhos de chorar e esta boca de nutrir
obrigado por me sorrir limitado
pelas margens do corpo
como um rio raso, feliz de peixes, enlameado de vida
e iluminado de águas

obrigado pelo dom do arrependimento contínuo
em pensar nas vezes em que não agi com amor
pois ao ficar envolto em burrice e aprendizado
como o soluço magoado da criança
no mar
aprendo a mágoa apaziguada
do sal 

obrigado também
porque não vislumbro o futuro dos meus passos
mas por saber que estão guardados em Você
Senhor
igualmente ficam calmos o futuro e o passado
a lâmina da angústia dissipada
em obrigados

8 de novembro de 2020

Anotações camponesas

1. Haver chuva no tempo de chuva, haver sol no tempo de sol: as mãos da bondade de Deus abertas em amarelo, verde e azul.

2. Qual deve ser a cor favorita do Senhor?

3. A borboleta é o sorriso da flor.

4. A abelha é o trabalho da flor.

5. A flor é o carinho da árvore, como que bregamente dizendo "não tenho dedos: acaricio com pétalas".

6. Que triste deve ser, vendo criação sem crer em criador, que tristíssimo deve ser colher um fruto e não sentir nascer o córrego da gratidão dentro do peito...

7.  Folhagens mexendo, dançando no vento: o vento não vejo, mas seus efeitos.

8. Nervosas formigas ocupadas com nem-elas-sabem-com-quê.

9. Quanta misericórdia de Deus em haver manga!

10. A boca seca, a língua uma lâmina, os lábios rachados: calma, criação, daqui a pouquinho chove.

27 de outubro de 2020

A conversão das nuvens

"A tua misericórdia, Senhor, está nos céus, e a tua fidelidade chega até às mais excelsas nuvens." - Salmos 36:5

Como abriste o primeiro céu, Senhor
no coração da presente tarde
para vencer com as mechas do sol
os cabelos rubros da tempestade

E como abriste a madre do vento
que dobrava o verde das pastagens
para nascer a mansidão do sopro
tranquilo em azul linguagem

Trocaste também, Senhor
o meu coração de nuvens
pelo sol da eternidade

8 de outubro de 2020

mínima prece

Senhor, meu Senhor

que sabes de quantas gotas
uma rocha precisa
pra ter um ninho
em suas esquinas

dai-me o dom de saber
consolar um amigo
sob as pedras dos dias

Senhor, ah Senhor

que sabes
quantas lágrimas
chorarei
e em seu livro
as tens escritas

dai-me o dom de saber
estar em silêncio
diante da lágrima
amiga

26 de setembro de 2020

A boca nuvens

Existe uma pronúncia de água
na boca nuvens
da mulher amada.

Deus pensava em rios
ao criá-la?

5 de setembro de 2020

A fotografia primavera

Casei-me com uma fotógrafa campal; casei-me com uma bordadeira campal.

Com ela, quando chove, eu sorrio - porque sei que suas lentes verão o dorso do campo brilhar. Com ela, quando a seca chega, eu também sorrio - porque sei que suas agulhas copiarão o mato quarar amarelo sob o calor do sol.

Os olhos dela dizem ao pássaro para que não voe - pois será fotografado. Depois, os olhos dela dizem ao pássaro para que ele voe - pois será bordado. O pássaro, quase uma folha, obedece seus olhares - também meu coração os obedece e o coração dela aos meus.

Fotógrafa, bordadeira, campal, eu a amo. A boca, um fruto a ser descrito sobre um pano; o sorriso, as pequenas primeiras flores de uma fotografia primavera.

31 de agosto de 2020

As fibras do dia

Senhor: porque as fibras
dos meus braços eram ruínas
eu não poderia
trabalhar no teu campo.

Via os gomos do mar trigal
relembrava como naus
o seu gosto acre
nos trabalhadores
cantando distantes.

Senhor: porque a alegria
em mim desmanchava-se
fuligens e palha
eu não poderia
cantar no teu campo.

Mas recriaste em mim
com as fibras do dia

novas mãos
novo trabalho
novo campo

e nova garganta
com as fibras do dia
para novo canto.

30 de agosto de 2020

O cântaro de cânticos

para Michele

Você é bonita como um rio
fértil de peixes e luar
com sua palidez de sonho
e seu sorriso de maná.

Você é bonita como o campo
que floresce na colheita
as mãos de quem semeara
com suor a sua seiva.

Você é bonita como a casa
à qual se chega já cansado
encontrando sobre a mesa
comida quente, beijo, tato.

Você é bonita como encher
de água a palavra cântaro
e saciar-se no rio da vida
do qual Deus faz cânticos.

23 de agosto de 2020

A celeste cidadania

Eis o ponto de fundição
a têmpera no coração
dos estrangeiros:

estar sobre a terra
que se guarda para o fogo
dos últimos tempos.

A morte já não é inimiga
destes que trazem nas fibras
renovadas pelo vento
tal celeste cidadania.

22 de julho de 2020

Pregos em salvas

para o Kelson

Quando a carne do meu cérebro
rasga-se nas lâminas de um raio
e sinto o emprego dos martelos
começar em mim o seu ensaio

sinto seus dedos, sinto os pregos
rachando meu crânio dos lados.

Mas caso tal dor me ire
não permanecerei irado!

Pois sei que meu redentor vive
e sei que seu corpo foi rasgado
mesmo santo, para me ver livre
dos pregos dos meus pecados

e nele fui salvo do inferno
pelos pregos do calvário.

12 de julho de 2020

O inverso cadeado

Quando os que se amam
olham-se em olhar mútuo
fazem como se guardassem
um segredo

e fabricam dos olhos
algo com que beijam.

Mas os que se amam
quando olham-se mudos
sorriem como se abrissem
tal segredo

destrancam dos olhos
o calor que há dentro

e todos podem vê-lo.

20 de junho de 2020

Bilhete pro Pai

Senhor, eu gosto do frescor
de certos verdes que criaste
e gosto da poesia
de idêntica tranquilidade.

Senhor, eu não gosto
do barulho deste século
nem do ruminar contínuo
nas entranhas dos prédios.

Senhor, estou cansado.

Mas consolo-me no frescor
de certos azuis que criaste
e na poesia
de idêntica tranquilidade.

Obrigado!

15 de junho de 2020

A Segunda Vinda

O aroma da sede saciada
em reencontrar
quem se ama
tem o cheiro de chuva
na terra seca.

A água rejuntando
as vias exaustas
da terra
antes rachada dentro
agora eternamente
ribeiros.

25 de maio de 2020

Enquanto estivermos aqui

Irmãos,
vede: o azul estriado de nuvens
beijou a manhã e deu-nos maná.

E eis que o Senhor fez a manhã.

Irmãos,
sentis: o rubro orvalho da pele
jorra pelos cortes sob o chicote.

E eis que o Senhor fez a noite.

Meus irmãos: é necessário.
Meus irmãos: falta pouco.

8 de maio de 2020

Corona

O vento outrora das pipas
antes beijando as casas
agora desfia as fibras
de nuvens fragilizadas
- pois há um cavalo
dentro do vento
levando a morte
nas asas

e no áspero
de suas crinas
levando a coroa
quebrada

a coroa quebrada do medo
respirado
sob as máscaras.