10 de outubro de 2019

O pão de cada dia, sim, o Pai dá
- que pão pro ano todo mofaria.
Que triste essa sina de acumular
em um só mês o de toda vida!

Pouca água, óleo, pouca farinha
- que pão pro ano todo vai mofar.
Feliz do que ganha no pão que dá
com trigo e suor a sua sabedoria.

9 de outubro de 2019

O Amor Espadas

Aquele que ama
este sim
conhece a Deus.

Vede na manhã verde os campos úmidos
pela saliva da noite, enamorada, vede
a paixão com que a semente rasga
a pele da seiva em busca de luz
e os filhotes aguardando seu quando.

Vede o bom fogo
no coração do santo.

Aquele que ama
este sim
por Deus é conhecido.

E aqueles que não amam
alastrando sua insânia
em cordel neste século hirto
estes
que vendem o sol e o quente
serão subjugado pelo amor, vede!

Cairão pelo Grande Amor em Deus
pelo Amor Espadas no Dentro
do Seu Peito

cairão pelo Amor
que conhecemos
e conheceremos.

6 de outubro de 2019

No século líquido, o mar com seu sopro
tempestuoso avança sobre meu corpo
de todas as partes. Avançai! Não temo!
Pois na tempestade do líquido tempo
meu porto fundei na Rocha Eternidade.

1 de outubro de 2019

A Cesta

"Eis o que me mostrou o Senhor: Vi uma cesta de frutos maduros." - Amós 8:1

Isto me deram para dizer ao mundo:
quando aquilo que é perfeito vier
deixará de existir tudo o que não é.

Pois o que os vãos guardam de escuro
nas quinas da noite o breu sem núcleo
virá à superfície, sob os brônzeos pés
que aqui andaram e pisarão o lagar
e que vêm enfim para iluminar tudo.

Que vêm enfim para iluminar tudo
também as mãos que virão colher
e tirar do lagar os frutos maduros.

27 de setembro de 2019

As curvas do Caminho Reto

"Porque eu sei que o meu Redentor vive, e que por fim se levantará sobre a terra." -  Jó 19:25

Se meus pés me levaram até Babilônia
antes de me levarem até Jerusalém
não amaldiçoarei os meus pés
- como poderia
se já não distingo a estirpe
dos pós
que minhas sandálias levantam!

Quem chora e semeia nutre a terra
(oh lágrimas com textura de suor)
mesmo que não saiba, mesmo que seja
a terra do caminho até Babilônia.

26 de setembro de 2019

Fragmento XL

Depois de dias de chuva, chegar a um campo com cheiro de após batalha. Andando pela terra, margeando um fio de água escorrendo vestígios de sangue, meu cavalo e eu estamos tomados pelo hálito apodrecido do banquete dos vermes. Paro, desço de Fogo e colho apressadamente algumas folhas de alecrim que tinha avistado, enquanto os vultos negros bicam e dilaceram os corpos pelas frestas das armaduras. Espremo as folhas entre meus dedos e esfrego nas narinas esse perfume familiar, vivo, e sinto o bom cheiro inundar meu coração até então atormentado por aquilo que atrai os corvos. Pai, também é assim lembrar de Ti neste mundo circundado pelo negror, é também assim saber que guardas os que Te amam, igual ao balsâmico cheiro cobrindo o fedor dos corpos apodrecendo. Falta pouco.

Trecho de "Fragmentos do Templário"

19 de setembro de 2019

Com as mãos

O elogio desta flor acerca do sol
ela diz pela boca de seu aroma.

O elogio deste rio acerca da chuva
ele diz pela boca de seu frescor.

O elogio destas aves acerca do céu
elas dizem pela boca de seus voos
pela língua das penugens alegres
sem palavras, sem fala, só asas.

Que todos estes
ensinem ao homem
o amor sem palavras.

Que falem da mãe com o sorriso
falem da esposa com os olhos
falem de Deus com as mãos.

12 de setembro de 2019

Elogio

Durou dez hojes
mas o arenoso ontem
acabou.

Esta lâmina de sol
este corte que atravessa
o coração da manhã
usaste no meu peito
Senhor.

Sabias
que eu sobreviveria.

Isto sim
é elogio
e amor.

10 de setembro de 2019

Tardezinha

Ter tristeza é uma inconformidade
com o vento pés na rede de setembro.
Mas eu tenho.

Ser criança é bom porque sabe-se a cor
dos momentos de chorar.
Um dia eu tive vontade cristalina de chorar
(periquitos rachavam a tarde
no verde de seus hinos estridentes)
e não chorei: achei que não era hora.
Ser criança seria saber que hora de chorar
é quando se tem vontade cristalina
e eu choraria - rente da beleza ipês
daquela tristezinha.

8 de setembro de 2019

Naqueles dias

"Naquela época não havia rei em Israel; cada um fazia o que lhe parecia certo." - Juízes 17:6

Naqueles dias não havia
não havia rei em Israel
e cítaras não abriam
o caminho até o trono.

Das oliveiras secara o oleoso
verde, bálsamo ao lábio seco
e tal era a sede daquele povo
e tal seu sedento abandono
que bebiam curvados diante
dos anéis em dedos humanos
como que diante de dez fontes.

Naqueles dias a areia penetrava
os idôneos idílios que cantaram
um dia para o rei que amávamos.

Pois rei, rei em Israel, não havia.

Naqueles dias rei não havia
e cada qual dos súditos agia
conforme sua própria fome.

4 de setembro de 2019

Pássaros no céu

"Mas, para vós que temeis o meu nome, nascerá o sol da justiça, e salvação trará debaixo das suas asas." - Malaquias 4:2

Meu coração canta
a indizível alegria

- pois o Sol da Justiça
hasteou novos dias.

Já não há o não haver
nem haverá nostalgia.

Já não há o não haver
só há luz, água e vida.

Em vão discutíamos
mil séculos de poesia

- em vão invejávamos
os galhos da hierarquia.

Pois a carne se fez verso
e este verso nos habita

- já não há folhas de inveja
no canto das cotovias.

Meu coração canta belo
como nunca ele cantou!

Pois o Sol da Justiça veio
com suas asas de amor.

2 de setembro de 2019

Um jardim visto de dentro

para Michele Marcial, quando faz 2 anos que nos conhecemos

Ter um corpo, jardim
visto de dentro
é isso:

Se eu colho
a flor vermelha
além das grades
colho
o que não é meu

mas que passa a ser
para quem eu der.

Porque quem ama quer dar pétala
que materialize, aroma, o seu amor
- e ter corpo que não é para amor
é não ter, jardim visto de fora, corpo.

"Eu te amo", disse o homem
que morava na rua "eu te amo
e tudo o que tenho
- esta flor que acabei de roubar
e quem a roubou -
são teus".

30 de agosto de 2019

O vento antes da chuva

I
Acorde, vento norte! Venha, vento sul! Soprem em meu jardim, para que a sua fragrância se espalhe ao seu redor. Que o meu amado entre em seu jardim e saboreie os seus deliciosos frutos. – Cânticos 4:16

O melhor resumo
da expectativa que vivo
na vinda do meu noivo
é o raro vento fresco
nas dunas
o fresco vento que vem
antes da chuva

refrigério
habitual para mim
que sonho com sua lira

mas inédito
para esta areia antiga.

II
O meu amado falou e me disse: Levante-se, minha querida, minha bela, e venha comigo. – Cânticos 2:10

Nosso amor, nossos cabelos
no brancor do meu vestido
dançarão
perfume de água e terra
vento
antes da chuva.

III
És a fonte dos jardins, poço das águas vivas, que correm do Líbano! – Cânticos 4:15

Pois o meu amado
é esse hálito
que já estava comigo
à porta da casa
em que vivi criança
vendo
o céu nublar

a casa que hoje
mal recordo

oh céu distante

mas do vento
eu me lembro
antes da chuva.

26 de agosto de 2019

Seu Zé

O vento é tão forte em agosto
e tão de azul-pipas o seu dorso
que o hálito de quem morreu
corta ligeiro o frio do céu
e chega ainda morno
no colo de Deus.

Era por isso
que a menina ria.

Ela ria porque via
no coração da tarde
o seu avô pipa.

22 de agosto de 2019

A Grande Hora

"O que fizeste com meu Espírito?"
como um aroma a voz de Deus diz
para o poeta, diante do juízo.

"Isto"
responde-lhe o poeta
"isto".

E o fogo experimenta as obras
do poeta, suas paixões de outrora
experimenta a ira de sua lira
e queima tudo, que não é Glória.

"O que fizeste com meu Espírito?"
renova-se o cheiro da voz de Deus
no ar, para o poeta, que responde

"isto"
com voz sedenta de fontes
e diz "eu cri
no Cristo".

Resta, então, de sua obra
esse pequeno verso
de toda sua obra
só ele soa eterno
na boca do Espírito
após o fogo da Grande Hora.

16 de agosto de 2019

O medo da flor

"A relva murcha e cai a sua flor, quando o vento do Senhor sopra sobre eles; o povo não passa de relva." - Isaías 40:7

Medo, oh medo de esvair!
Onde encontrar claríssima
e imperturbável paz
consolo do jardim?

Nuvens circulam as torres
as portas, janelas, os homens.
Chuva em torno de mim.

Como os cavalos têm
o arreio entre os dentes
sonhei trazer a lua na boca
de minhas pétalas de marfim.

Mas rente às nuvens negras
sobre o dorso desse jardim
serei arrancada ou irrigada
quando essa tempestade cair?

5 de agosto de 2019

Os homens mordem o mundo
e dos lados de seus lábios
escorre o sumo dos modismos.

Pai, ensina a mim o ser eterno.

26 de julho de 2019

A estação fora do tempo

O tempo, com longos dedos,
agarrará firme qualquer face.

Virá dessa mão o beijo
que faz flácidas as fibras
até os íntimos detalhes.

Ele, como quem grita segredos,
avisa no trovão dessa tempestade
enquanto suas unhas abrem-se
em covas, lápides, caixas no chão.

O tempo, com longas mãos,
irrigará palidez sobre as faces.

O tempo, com brancas mãos,
supõe sujar de tempo
a eternidade
- mas não.

Pois, oh neve, para ti
Deus reservou o verão.

20 de julho de 2019

Lar e luz

Quando o amor de Deus
vem como chuva
Michele é meu açude.

Quando o amor de Deus
vem como vento
Michele é meu moinho.

Quando o amor de Deus
vem como noite
compreendo
o recolhimento proposto
e me volto ao colo
cabelos de Michele
- face castanha de um monte
anelado de ninhos
com cheiro de lar e luz.

1 de julho de 2019

Os que estão em solo já queimado

"Portanto, agora não há nenhuma condenação para os que estão em Cristo Jesus." -  Romanos 8:1

Quando um relâmpago vem à planície
de mato ocre e seco que há no coração
- e nela o raio abre as pétalas das chamas
brotando crepitar fúria e medo no dentro
do seu chão - há quem fuja contra o vento
correndo, correndo para o fogo lhe alcançar

ignorando que a justiça ígnea corre mais
que o homem, e que é grande o seu lagar.

Quando um relâmpago vem à planície
trazer sua justiça sobre a terra - e quando
o fogo alastra rítmico sua pureza sem ilhas
e com luz nas crinas, tudo janelas - alcançai
o chão preto que o calor fez do outrora mato!

Pois o fogo não tornará a queimar
os que estão em solo já queimado.