"Mas, para vós que temeis o meu nome, nascerá o sol da justiça, e salvação trará debaixo das suas asas." - Malaquias 4:2
Meu coração canta
a indizível alegria
- pois o Sol da Justiça
hasteou novos dias.
Já não há o não haver
nem haverá nostalgia.
Já não há o não haver
só há luz, água e vida.
Em vão discutíamos
mil séculos de poesia
- em vão invejávamos
os galhos da hierarquia.
Pois a carne se fez verso
e este verso nos habita
- já não há folhas de inveja
no canto das cotovias.
Meu coração canta belo
como nunca ele cantou!
Pois o Sol da Justiça veio
com suas asas de amor.
4 de setembro de 2019
2 de setembro de 2019
Um jardim visto de dentro
para Michele Marcial, quando faz 2 anos que nos conhecemos
Ter um corpo, jardim
visto de dentro
é isso:
Se eu colho
a flor vermelha
além das grades
colho
o que não é meu
mas que passa a ser
para quem eu der.
Porque quem ama quer dar pétala
que materialize, aroma, o seu amor
- e ter corpo que não é para amor
é não ter, jardim visto de fora, corpo.
"Eu te amo", disse o homem
que morava na rua "eu te amo
e tudo o que tenho
- esta flor que acabei de roubar
e quem a roubou -
são teus".
Ter um corpo, jardim
visto de dentro
é isso:
Se eu colho
a flor vermelha
além das grades
colho
o que não é meu
mas que passa a ser
para quem eu der.
Porque quem ama quer dar pétala
que materialize, aroma, o seu amor
- e ter corpo que não é para amor
é não ter, jardim visto de fora, corpo.
"Eu te amo", disse o homem
que morava na rua "eu te amo
e tudo o que tenho
- esta flor que acabei de roubar
e quem a roubou -
são teus".
30 de agosto de 2019
O vento antes da chuva
I
O melhor resumo
da expectativa que vivo
na vinda do meu noivo
é o raro vento fresco
nas dunas
o fresco vento que vem
antes da chuva
refrigério
habitual para mim
que sonho com sua lira
mas inédito
para esta areia antiga.
II
Nosso amor, nossos cabelos
no brancor do meu vestido
dançarão
perfume de água e terra
vento
antes da chuva.
III
Pois o meu amado
é esse hálito
que já estava comigo
à porta da casa
em que vivi criança
vendo
o céu nublar
a casa que hoje
mal recordo
oh céu distante
mas do vento
eu me lembro
antes da chuva.
Acorde, vento norte! Venha, vento sul! Soprem em meu jardim, para que a sua fragrância se espalhe ao seu redor. Que o meu amado entre em seu jardim e saboreie os seus deliciosos frutos. – Cânticos 4:16
O melhor resumo
da expectativa que vivo
na vinda do meu noivo
é o raro vento fresco
nas dunas
o fresco vento que vem
antes da chuva
refrigério
habitual para mim
que sonho com sua lira
mas inédito
para esta areia antiga.
II
O meu amado falou e me disse: Levante-se, minha querida, minha bela, e venha comigo. – Cânticos 2:10
Nosso amor, nossos cabelos
no brancor do meu vestido
dançarão
perfume de água e terra
vento
antes da chuva.
III
És a fonte dos jardins, poço das águas vivas, que correm do Líbano! – Cânticos 4:15
Pois o meu amado
é esse hálito
que já estava comigo
à porta da casa
em que vivi criança
vendo
o céu nublar
a casa que hoje
mal recordo
oh céu distante
mas do vento
eu me lembro
antes da chuva.
26 de agosto de 2019
Seu Zé
O vento é tão forte em agosto
e tão de azul-pipas o seu dorso
que o hálito de quem morreu
corta ligeiro o frio do céu
e chega ainda morno
no colo de Deus.
Era por isso
que a menina ria.
Ela ria porque via
no coração da tarde
o seu avô pipa.
e tão de azul-pipas o seu dorso
que o hálito de quem morreu
corta ligeiro o frio do céu
e chega ainda morno
no colo de Deus.
Era por isso
que a menina ria.
Ela ria porque via
no coração da tarde
o seu avô pipa.
22 de agosto de 2019
A Grande Hora
"O que fizeste com meu Espírito?"
como um aroma a voz de Deus diz
para o poeta, diante do juízo.
"Isto"
responde-lhe o poeta
"isto".
E o fogo experimenta as obras
do poeta, suas paixões de outrora
experimenta a ira de sua lira
e queima tudo, que não é Glória.
"O que fizeste com meu Espírito?"
renova-se o cheiro da voz de Deus
no ar, para o poeta, que responde
"isto"
com voz sedenta de fontes
e diz "eu cri
no Cristo".
Resta, então, de sua obra
esse pequeno verso
de toda sua obra
só ele soa eterno
na boca do Espírito
após o fogo da Grande Hora.
como um aroma a voz de Deus diz
para o poeta, diante do juízo.
"Isto"
responde-lhe o poeta
"isto".
E o fogo experimenta as obras
do poeta, suas paixões de outrora
experimenta a ira de sua lira
e queima tudo, que não é Glória.
"O que fizeste com meu Espírito?"
renova-se o cheiro da voz de Deus
no ar, para o poeta, que responde
"isto"
com voz sedenta de fontes
e diz "eu cri
no Cristo".
Resta, então, de sua obra
esse pequeno verso
de toda sua obra
só ele soa eterno
na boca do Espírito
após o fogo da Grande Hora.
16 de agosto de 2019
O medo da flor
"A relva murcha e cai a sua flor, quando o vento do Senhor sopra sobre eles; o povo não passa de relva." - Isaías 40:7
Medo, oh medo de esvair!
Onde encontrar claríssima
e imperturbável paz
consolo do jardim?
Nuvens circulam as torres
as portas, janelas, os homens.
Chuva em torno de mim.
Como os cavalos têm
o arreio entre os dentes
sonhei trazer a lua na boca
de minhas pétalas de marfim.
Mas rente às nuvens negras
sobre o dorso desse jardim
serei arrancada ou irrigada
quando essa tempestade cair?
Medo, oh medo de esvair!
Onde encontrar claríssima
e imperturbável paz
consolo do jardim?
Nuvens circulam as torres
as portas, janelas, os homens.
Chuva em torno de mim.
Como os cavalos têm
o arreio entre os dentes
sonhei trazer a lua na boca
de minhas pétalas de marfim.
Mas rente às nuvens negras
sobre o dorso desse jardim
serei arrancada ou irrigada
quando essa tempestade cair?
5 de agosto de 2019
26 de julho de 2019
A estação fora do tempo
O tempo, com longos dedos,
agarrará firme qualquer face.
Virá dessa mão o beijo
que faz flácidas as fibras
até os íntimos detalhes.
Ele, como quem grita segredos,
avisa no trovão dessa tempestade
enquanto suas unhas abrem-se
em covas, lápides, caixas no chão.
O tempo, com longas mãos,
irrigará palidez sobre as faces.
O tempo, com brancas mãos,
supõe sujar de tempo
a eternidade
- mas não.
Pois, oh neve, para ti
Deus reservou o verão.
agarrará firme qualquer face.
Virá dessa mão o beijo
que faz flácidas as fibras
até os íntimos detalhes.
Ele, como quem grita segredos,
avisa no trovão dessa tempestade
enquanto suas unhas abrem-se
em covas, lápides, caixas no chão.
O tempo, com longas mãos,
irrigará palidez sobre as faces.
O tempo, com brancas mãos,
supõe sujar de tempo
a eternidade
- mas não.
Pois, oh neve, para ti
Deus reservou o verão.
20 de julho de 2019
Lar e luz
Quando o amor de Deus
vem como chuva
Michele é meu açude.
Quando o amor de Deus
vem como vento
Michele é meu moinho.
Quando o amor de Deus
vem como noite
compreendo
o recolhimento proposto
e me volto ao colo
cabelos de Michele
- face castanha de um monte
anelado de ninhos
com cheiro de lar e luz.
vem como chuva
Michele é meu açude.
Quando o amor de Deus
vem como vento
Michele é meu moinho.
Quando o amor de Deus
vem como noite
compreendo
o recolhimento proposto
e me volto ao colo
cabelos de Michele
- face castanha de um monte
anelado de ninhos
com cheiro de lar e luz.
1 de julho de 2019
Os que estão em solo já queimado
"Portanto, agora não há nenhuma condenação para os que estão em Cristo Jesus." - Romanos 8:1
Quando um relâmpago vem à planície
Quando um relâmpago vem à planície
de mato ocre e seco que há no coração
- e nela o raio abre as pétalas das chamas
brotando crepitar fúria e medo no dentro
do seu chão - há quem fuja contra o vento
correndo, correndo para o fogo lhe alcançar
ignorando que a justiça ígnea corre mais
que o homem, e que é grande o seu lagar.
Quando um relâmpago vem à planície
trazer sua justiça sobre a terra - e quando
o fogo alastra rítmico sua pureza sem ilhas
e com luz nas crinas, tudo janelas - alcançai
o chão preto que o calor fez do outrora mato!
Pois o fogo não tornará a queimar
os que estão em solo já queimado.
15 de junho de 2019
Os frutos de todos os pomares
"Porque isto é bom e agradável diante de Deus nosso Salvador, que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade." - 1 Timóteo 2:3,4
Assim como o sol brilha
para justos e injustos
a água sacia
a sede de muitos: saciou o Nobre
à beira de um poço de Samaria
saciou eu, outrora sedento, que bebo
o suor de suas palavras matutinas.
Será que nossa vaidosa bondade
é maior do que a chuva que irriga
todas as herdades? Há quem diga
e sinta amar o assassino
de sua filha?
No entanto
grande é Aquele que sob e sobre
a totalidade dos prantos
faz crescer todos os pomares
e quer que todos se salvem.
Porque se há sol e chuva sobre justos
e sobre injustos
Ele pode fazer surgir de qualquer um
bons frutos.
Assim como o sol brilha
para justos e injustos
a água sacia
a sede de muitos: saciou o Nobre
à beira de um poço de Samaria
saciou eu, outrora sedento, que bebo
o suor de suas palavras matutinas.
Será que nossa vaidosa bondade
é maior do que a chuva que irriga
todas as herdades? Há quem diga
e sinta amar o assassino
de sua filha?
No entanto
grande é Aquele que sob e sobre
a totalidade dos prantos
faz crescer todos os pomares
e quer que todos se salvem.
Porque se há sol e chuva sobre justos
e sobre injustos
Ele pode fazer surgir de qualquer um
bons frutos.
2 de junho de 2019
Aos escarnecedores
Como o eco no útero dos túmulos
os risos de escárnio desse século
se acumulam. Riem da gordura
no olhar dos cegos. Riem da bondade
e sua arquitetura. Riem da luz
encouraçados de escuro. Paridas
da voz de ricos espúrios, enegrecem
fontes, as gargalhadas. Convertem
bosques em monturos. Besuntam
petróleo no branco das garças.
O ouro desta terra os faz rir. A
injustiça dessa terra os fez triunfar.
Mas tão certo quanto é bom o Senhor
o eco das hienas desse século
pro útero dos túmulos retornará.
25 de maio de 2019
O sono sob e sobre águas
"E eis que no mar se levantou uma tempestade, tão grande que o barco era coberto pelas ondas; ele, porém, estava dormindo." - Mateus 8:24
As línguas da chuva, estas colunas
de frio, abandono, fúria, a peneira
da chuva, chovia muito àquela altura
chovia muito sobre discípulos
e sobre o Justo, que ali dormia
no meio de injustos
que ele veio
justificar
ali dormia
um sono ensino
descansem tranquilos
irmãos pequeninos
um descanso sem sinos
e sem muros
eis aqui quem é
maior que o dilúvio
As línguas da chuva, estas colunas
de frio, abandono, fúria, a peneira
da chuva, chovia muito àquela altura
chovia muito sobre discípulos
e sobre o Justo, que ali dormia
no meio de injustos
que ele veio
justificar
ali dormia
um sono ensino
descansem tranquilos
irmãos pequeninos
um descanso sem sinos
e sem muros
eis aqui quem é
maior que o dilúvio
20 de maio de 2019
19 de maio de 2019
Diante do celeiro cheio
"Jó então se levantou, rasgou o manto e rapou a cabeça. Depois, caindo prosternado por terra, disse: Nu saí do ventre de minha mãe, nu voltarei. O Senhor deu, o Senhor tirou: bendito seja o nome do Senhor!" - Jó 1:20,21
Se houvesse menos que farelo
neste meu celeiro agora cheio
- deixaria o Senhor de ser bom
embora fosse má a nossa fome?
Vede: não é apenas na safra
verdejando os campos adiante
que Deus é bom. Quem sabe
se o tempo de fome não foi
um bom alimento? Quem sabe
se a fartura, naqueles dias,
não engordaria meu espírito?
Não uso o amor como escudo
apenas na fortuna, pois sei
da retidão do meu rei
- e arrastarei minha face
nas migalhas da fome ou
nos grãos da abundância
para agradecer.
12 de maio de 2019
Visão da tempestade no ninho
para minha mãe e para meu irmão
Após o quebrar da tempestade
só resiste o que há tempos
existe dentro da eternidade.
Meu irmão cuidou de minha mãe
nos dias de seu recolhimento
quando ao brincar com ele
ela quebrou os dedos - e eu
não estava lá, e nem estive
desde então
para vislumbrar o cuidado
novo e firme
do meu irmão.
O vento da tempestade
quando quebra o ninho
- e ao lançar ao solo
os pés quebrados
da mãe-pássaro -
também gera
a educação de cuidá-la
nos passarinhos?
Primeiro
a educação a partir do cuidado
e depois a educação por se tornar
o cuidador; primeiro
ouvir "amado", depois
agir como essência
de idêntico amor
e carinho.
Após o quebrar da tempestade
só resiste o que há tempos
existe dentro da eternidade.
Meu irmão cuidou de minha mãe
nos dias de seu recolhimento
quando ao brincar com ele
ela quebrou os dedos - e eu
não estava lá, e nem estive
desde então
para vislumbrar o cuidado
novo e firme
do meu irmão.
O vento da tempestade
quando quebra o ninho
- e ao lançar ao solo
os pés quebrados
da mãe-pássaro -
também gera
a educação de cuidá-la
nos passarinhos?
Primeiro
a educação a partir do cuidado
e depois a educação por se tornar
o cuidador; primeiro
ouvir "amado", depois
agir como essência
de idêntico amor
e carinho.
11 de maio de 2019
Azeite e limão
A junção do morno escorrer
com acidulado verde gotejar
e na boca: um berço. Limão
azeite, doce azedo, temperos
com perfume de Jerusalém
onde mais o gosto-casamento
que tens de uma ária de Bach?
com acidulado verde gotejar
e na boca: um berço. Limão
azeite, doce azedo, temperos
com perfume de Jerusalém
onde mais o gosto-casamento
que tens de uma ária de Bach?
9 de maio de 2019
ignoronte
todo mundo não sabe
junto
mas fala como se soubesse
- em harmonia
circulam em torno disso uma seita
- e chamam a isso sabedoria
ignorância mesmo, pura
quem a tem
nem desconfia
junto
mas fala como se soubesse
- em harmonia
circulam em torno disso uma seita
- e chamam a isso sabedoria
ignorância mesmo, pura
quem a tem
nem desconfia
7 de maio de 2019
A Vitória do Amor
Para Lourença, minha irmã
"E, quando Jesus tomou o vinagre, disse: Está consumado. E, inclinando a cabeça, entregou o espírito." - João 19:30
Não há com o que se preocupar. O amor
não apenas vencerá: o Amor já venceu.
Por isso, ao olhar os arames farpados
trazendo em muitos restos abertos
as vísceras em fogo dos salvos
não descreiam deste reino.
Não há
com o que se preocupar.
O Amor já venceu.
Rememorem aquela nuvem túnica
estendida em lar sobre a areia
nos tempos em que ela ainda cobria
do morenor futuro as faces israelitas
e "assim como Moisés levantou
a serpente no deserto
desse mesmo modo é necessário
que o Filho do Homem seja levantado".
Desse modo foi feito.
Devemos, pois, fazer
da paz o nosso leito
embora os dias sejam negros
de um negror almiscarado
e os dentes desta noite sorriam
- não se turve a limpidez
de vosso espírito nem ouse
descrer do que venceu.
Pois o Amor
já venceu.
"E, quando Jesus tomou o vinagre, disse: Está consumado. E, inclinando a cabeça, entregou o espírito." - João 19:30
Não há com o que se preocupar. O amor
não apenas vencerá: o Amor já venceu.
Por isso, ao olhar os arames farpados
trazendo em muitos restos abertos
as vísceras em fogo dos salvos
não descreiam deste reino.
Não há
com o que se preocupar.
O Amor já venceu.
Rememorem aquela nuvem túnica
estendida em lar sobre a areia
nos tempos em que ela ainda cobria
do morenor futuro as faces israelitas
e "assim como Moisés levantou
a serpente no deserto
desse mesmo modo é necessário
que o Filho do Homem seja levantado".
Desse modo foi feito.
Devemos, pois, fazer
da paz o nosso leito
embora os dias sejam negros
de um negror almiscarado
e os dentes desta noite sorriam
- não se turve a limpidez
de vosso espírito nem ouse
descrer do que venceu.
Pois o Amor
já venceu.
5 de maio de 2019
Amora
A Amora tem nome de fruto e é pequena
o que em si mesmo já vale
o azul da tarde - mas além disso
ela gosta de mim.
Ela anda
os passos de borboleta
a mãozinha gorda
procura a minha
pra atravessarmos a rua
"você gosta de auau?"
"eham!"
- no azul bem azul da tarde.
Às vezes
a gente acha que está
levando a afilhada
pra passear na praça
e na verdade está orando.
o que em si mesmo já vale
o azul da tarde - mas além disso
ela gosta de mim.
Ela anda
os passos de borboleta
a mãozinha gorda
procura a minha
pra atravessarmos a rua
"você gosta de auau?"
"eham!"
- no azul bem azul da tarde.
Às vezes
a gente acha que está
levando a afilhada
pra passear na praça
e na verdade está orando.
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