Algumas pessoas são belas se você olha pra elas por, digamos, 10 minutos. O contorno do nariz passa a fazer sentido com a linha superior da boca, como ilhas se tornando harmônicas quando nomeadas de arquipélago. Substâncias barrocas. Amadas substâncias barrocas!
Outras pessoas, logo quando recém vistas, revelam-se belas, isto é, abrem-se. Luz, imagina-se, luz. Mas ocorre que, se você olha para elas por, digamos, 10 dias, a beleza se desfaz onde não haja amor, gotejando, pois, oh neve!, para ti o Senhor reservou o verão.
Estas pessoas, todas as pessoas, o que fazer? O alimento dos olhos é a admiração contínua, esta é a água que os lubrifica. O que fazer? Nós precisamos escolher todo ano uma nova mulher mais bela do mundo porque não duram: os olhos, a beleza, a mulher, o mundo.
Todas as pessoas, escutai: quando vocês maquiam uma face, a vossa mesmo ou outro disfarce, vocês maquiam um cadáver, morto sob o punhal da vaidade. Retirem este punhal!, porém, e na ferida estará escrita a verdade: haverá Quem contemplemos, sem tédio, por todos os anos da eternidade.
16 de dezembro de 2018
9 de dezembro de 2018
O cansaço que tenho dos corpos no mundo.
O cansaço que tenho destes volumes de pó.
Fazei chover, Senhor.
Fazei chover sobre este cansaço.
E sobre o mundo, fazei chover.
Desmantelai os tijolos que os homens ergueram para tentar cobrir Vossa face.
Limpai do coração carbônico dos homens esta vergonha erigida em templos.
Fazei chover, Senhor, sobre nós a tristeza que só o amor perfeito tem.
Limpai a pele suja daqueles que os espelhos refletem limpos.
Limpai da terra os templos erguidos, fazei tombar a pompa dos tronos.
Limpai de mim, Pai, este ódio que por eles sinto.
Fazei chover, Senhor, adormecei sob águas este calor falso.
Alimentai de água o lodo que comerá nossas obras.
O frescor nas reentrâncias do navio que será necessário.
Fazei chover, Senhor, mansamente limpai.
O cansaço que tenho de todas as coisas que não são Você.
Fazei chover, Senhor.
Fazei chover, Senhor.
4 de dezembro de 2018
Instruções para dizer "amados"
para Michele e Deus
Dizer o "a":
este primeiro abrir a boca
deve ser
um dizer e ver ser
toda a boca fazer-se sopro
como se da garganta
sem fôlego
os pulmões clamassem
"oh coração
me dê mais espaço"
emulando em si
a primeira vertigem
ao ver a nudez do outro
ou ao recolher chuva
na polpa da língua
fazer-se
boquiaberto e orar
Dizer o "ma":
unir os lábios em unção
rememorando a união das bocas
a cadência mansa da proa
nas águas intermediárias
necessárias
desta palavra amada
unir os lábios em unção
exige pequena vaidade
exige grande coração
Dizer o "dos":
doação doação oh amor
doação é teu último nome
teu nome de casada
é doação oh vida
dizer contra os dentes
oh língua
o sobrenome desta palavra
e circular sibilante o fim
da plural doação
para fazer
nós três
distâncias mínimas
assim como é necessário
haver amor
para haver amados
Dizer o "a":
este primeiro abrir a boca
deve ser
um dizer e ver ser
toda a boca fazer-se sopro
como se da garganta
sem fôlego
os pulmões clamassem
"oh coração
me dê mais espaço"
emulando em si
a primeira vertigem
ao ver a nudez do outro
ou ao recolher chuva
na polpa da língua
fazer-se
boquiaberto e orar
Dizer o "ma":
unir os lábios em unção
rememorando a união das bocas
a cadência mansa da proa
nas águas intermediárias
necessárias
desta palavra amada
unir os lábios em unção
exige pequena vaidade
exige grande coração
Dizer o "dos":
doação doação oh amor
doação é teu último nome
teu nome de casada
é doação oh vida
dizer contra os dentes
oh língua
o sobrenome desta palavra
e circular sibilante o fim
da plural doação
para fazer
nós três
distâncias mínimas
assim como é necessário
haver amor
para haver amados
2 de dezembro de 2018
Hamlet feliz
Escrever, não escrever, eis onde estão
meus olhos, felizes, sob as marquises
do anseio de criar - mas como escrever
sem aflição, sem chorar outra angústia
que não seja a minha e a sua, como, se
nesta caneta suja a tristeza fez seu lar?
Vou inventar que morri
só pra poder ressuscitar.
29 de novembro de 2018
Nós, cuidadosos
"Por isso vos digo: não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o mantimento, e o corpo mais do que o vestuário?" - Mateus 6:25
Para quem se ancora
no vil cais do agora
- ser bom é difícil.
Pois longo é o ofício
e distante a aurora
dos dias propícios.
Para quem namora
com a presente hora
- ser bom é difícil.
Pois a sede engorda
a fome de ceticismo
que o ansioso arvora.
A quem não agrada
observar os lírios
- ser bom é difícil.
Mas boa será a glória
que fará futuro o riso
de quem agora chora.
Para quem se ancora
no vil cais do agora
- ser bom é difícil.
Pois longo é o ofício
e distante a aurora
dos dias propícios.
Para quem namora
com a presente hora
- ser bom é difícil.
Pois a sede engorda
a fome de ceticismo
que o ansioso arvora.
A quem não agrada
observar os lírios
- ser bom é difícil.
Mas boa será a glória
que fará futuro o riso
de quem agora chora.
24 de novembro de 2018
À voz de muitas águas
"Seus pés reluziam como o metal, quando é refinado em fornalha ardente, e sua voz como o som de muitas águas." - Apocalipse 1:15
Tua voz de muitas águas
Teu amor que a tudo lava
envolveu o meu cansaço
quando até este cansaço
de mim já se cansava
e com Tua larga harmonia
a me guiar sobre rio calmo
me guardou daquelas pedras
que do leito se destacavam
fez nascer um regato claro
onde antes a sede habitava
fez brotar um consolo novo
das margens do meu corpo
a Tua voz de muitas águas
Tua voz de muitas águas
Teu amor que a tudo lava
envolveu o meu cansaço
quando até este cansaço
de mim já se cansava
e com Tua larga harmonia
a me guiar sobre rio calmo
me guardou daquelas pedras
que do leito se destacavam
fez nascer um regato claro
onde antes a sede habitava
fez brotar um consolo novo
das margens do meu corpo
a Tua voz de muitas águas
19 de novembro de 2018
Bordado
para Michele Marcial, na ocasião do nosso primeiro aniversário de namoro
A mulher que amo
está bordando.
Faz belos campos e grutas
os frutos com mais sumo
e as histórias da chuva
ela borda
muito mansa lá fora
aqui dentro
a própria chuva.
Enquanto desintegram-se as horas
eu vejo sorrir meu amor, que borda.
E quando ela borda uma flor
esta flor dá testemunho do sol
pela fala aroma de seu amor
sem palavras.
E quando ela borda o traço fino
e azul do rio, a água testemunha
os peixes e o fim da sede
pela azuleza do seu fio
sem palavras.
Mas eu não sendo flor
e sendo pouco rio
dela dou testemunho
com as palavras
sob o mesmo amor
desta tarde águas.
Enquanto desintegram-se as horas
eu vejo sorrir meu amor, que borda.
Porém, esta tarde águas
também está bordando
a mulher amada.
A mulher que amo
está bordando.
Faz belos campos e grutas
os frutos com mais sumo
e as histórias da chuva
ela borda
muito mansa lá fora
aqui dentro
a própria chuva.
Enquanto desintegram-se as horas
eu vejo sorrir meu amor, que borda.
E quando ela borda uma flor
esta flor dá testemunho do sol
pela fala aroma de seu amor
sem palavras.
E quando ela borda o traço fino
e azul do rio, a água testemunha
os peixes e o fim da sede
pela azuleza do seu fio
sem palavras.
Mas eu não sendo flor
e sendo pouco rio
dela dou testemunho
com as palavras
sob o mesmo amor
desta tarde águas.
Enquanto desintegram-se as horas
eu vejo sorrir meu amor, que borda.
também está bordando
a mulher amada.
30 de outubro de 2018
A Hora Sexta
"E era já quase a hora sexta, e houve trevas em toda a terra até à hora nona, escurecendo-se o sol; E rasgou-se ao meio o véu do templo." - Lucas 23:44,45
Cada tempo pede a sua espada
que de espinhos cresça da aljava
seu corte contra o norte de amarras.
Cada tempo, sim, guarda sob capas
a fera a ser rasgada pelo ferro, afiado
em seu próprio tempo o corte cascatas.
Mas de todas as capas, de todos os véus
havia o maior, separando homem e Deus
e a espada que o rompeu, amarga lâmina
luz, tinha seu punhal em forma de cruz.
Cada tempo pede a sua espada
que de espinhos cresça da aljava
seu corte contra o norte de amarras.
Cada tempo, sim, guarda sob capas
a fera a ser rasgada pelo ferro, afiado
em seu próprio tempo o corte cascatas.
Mas de todas as capas, de todos os véus
havia o maior, separando homem e Deus
e a espada que o rompeu, amarga lâmina
luz, tinha seu punhal em forma de cruz.
Cada tempo tinha, terá, teve, mas houve
aquele que por amor a todos os tempos
sentiu os cortes do céu, espada
ele mesmo, ele mesmo o fio
da lâmina contra o véu judeu
nas milenares horas de breu.
sentiu os cortes do céu, espada
ele mesmo, ele mesmo o fio
da lâmina contra o véu judeu
nas milenares horas de breu.
22 de outubro de 2018
O Profeta - Alexander Pushkin
Num ermo, eu de âmago sedento
já me arrastava e, frente a mim,
surgiu com seis asas ao vento,
na encruzilhada, um serafim;
ele me abriu, com dedos vagos
qual sono, os olhos que, pressagos,
tudo abarcaram com presteza
que nem olhar de águia surpresa;
ele tocou-me cada ouvido
e ambos se encheram de alarido:
ouvi mover-se o firmamento,
anjos cruzando o céu, rasteiras
criaturas sob o mar e o lento
crescer, no vale, das videiras.
Junto a meus lábios, rasgou minha
língua arrogante, que não tinha,
salvo enganar, qualquer intuito,
da boca fria onde, depois,
com mão sangrenta ele me pôs
um aguilhão de ofídio arguto.
Vibrando o gládio com porfia,
tirou-me o coração do peito
e colocou carvão que ardia
dentro do meu tórax desfeito.
Jazendo eu hirto no deserto,
o Senhor disse-me: “Olho aberto,
de pé, profeta e, com teu verbo,
cruzando as terras, os oceanos,
cheio do meu afã soberbo,
inflama os corações humanos!”
poema de 1826, tradução de Boris Schnaiderman e Nelson Ascher
já me arrastava e, frente a mim,
surgiu com seis asas ao vento,
na encruzilhada, um serafim;
ele me abriu, com dedos vagos
qual sono, os olhos que, pressagos,
tudo abarcaram com presteza
que nem olhar de águia surpresa;
ele tocou-me cada ouvido
e ambos se encheram de alarido:
ouvi mover-se o firmamento,
anjos cruzando o céu, rasteiras
criaturas sob o mar e o lento
crescer, no vale, das videiras.
Junto a meus lábios, rasgou minha
língua arrogante, que não tinha,
salvo enganar, qualquer intuito,
da boca fria onde, depois,
com mão sangrenta ele me pôs
um aguilhão de ofídio arguto.
Vibrando o gládio com porfia,
tirou-me o coração do peito
e colocou carvão que ardia
dentro do meu tórax desfeito.
Jazendo eu hirto no deserto,
o Senhor disse-me: “Olho aberto,
de pé, profeta e, com teu verbo,
cruzando as terras, os oceanos,
cheio do meu afã soberbo,
inflama os corações humanos!”
poema de 1826, tradução de Boris Schnaiderman e Nelson Ascher
18 de outubro de 2018
O poetinha cansado
Seus olhos, seus olhos
são tão bonitos! Quão
difícil é dizer só isso
depois de tantos livros...
E vê-los por mim mesmo
sem enxugar a imagem
do negror de seus cabelos
na imagem fosca e boba
da poesia de outros tempos!
Seus olhos, seus olhos
são tão bonitos! E bom
é ter olhos para
por mim mesmo
livre de livros
vê-los.
são tão bonitos! Quão
difícil é dizer só isso
depois de tantos livros...
E vê-los por mim mesmo
sem enxugar a imagem
do negror de seus cabelos
na imagem fosca e boba
da poesia de outros tempos!
Seus olhos, seus olhos
são tão bonitos! E bom
é ter olhos para
por mim mesmo
livre de livros
vê-los.
15 de outubro de 2018
Morphine
O sopro no sax rasga
a noite e faz com que
do negro ventre aberto
com esse cetro
escorra a chuva branca
longa barba de estrelas
gotas de tristeza estética
antiga
esférica perfeita pérola
aos porcos
a noite e faz com que
do negro ventre aberto
com esse cetro
escorra a chuva branca
longa barba de estrelas
gotas de tristeza estética
antiga
esférica perfeita pérola
aos porcos
11 de outubro de 2018
Feriado na roça
para Michele Marcial
Quando te busco na cidade, amor, na cidade
que de mastigar meu coração o fez crescer
é fácil reconhecer a tua face doce
entre a multidão de faces
homogêneas pela amargura
e te distingo, amor, com a facilidade
solene e clara com que Deus conhece
cada um de nós
porém
quando mesclas
a tua substância bela de ser nas manhãs
e aos campos retiras o teu olhar melancólico
naturalmente o teu olhar bom
eu confundo a tua sombra com o hálito
morno dos cafezais florindo
eu confundo o toque fino do orvalho
com o teu sorriso
e é grande, grande
a confusão dos sentidos.
Quando te busco na cidade, amor, na cidade
que de mastigar meu coração o fez crescer
é fácil reconhecer a tua face doce
entre a multidão de faces
homogêneas pela amargura
e te distingo, amor, com a facilidade
solene e clara com que Deus conhece
cada um de nós
porém
quando mesclas
a tua substância bela de ser nas manhãs
e aos campos retiras o teu olhar melancólico
naturalmente o teu olhar bom
eu confundo a tua sombra com o hálito
morno dos cafezais florindo
eu confundo o toque fino do orvalho
com o teu sorriso
e é grande, grande
a confusão dos sentidos.
1 de outubro de 2018
"E ele estava na popa, dormindo sobre uma almofada, e despertaram-no, dizendo-lhe: Mestre, não se te dá que pereçamos? E ele, despertando, repreendeu o vento, e disse ao mar: Cala-te, aquieta-te. E o vento se aquietou, e houve grande bonança." - Marcos 4:38,39
Sejamos delicados, apenas delicados, pois
a planície é mansa no aninhar furioso
do raio
e o rio
aceita sem cólera o tropel muito
disforme da travessia do gado
mesmo que ele se pareça bravio
quando suas águas se turvam
de barro
Sejamos menos o raio, delicados
como a nuvem é delicada
no chuvisco sobre a casa
quase barcos
no leito calmo
assim sendo, mesmo cordeiros,
menos boiada, sim, sejamos isso
barcos cansados! que sobre
Água Viva habitam
e que tranquilos chamam
de banho
a pior das tempestades
Sejamos delicados, apenas delicados, pois
a planície é mansa no aninhar furioso
do raio
e o rio
aceita sem cólera o tropel muito
disforme da travessia do gado
mesmo que ele se pareça bravio
quando suas águas se turvam
de barro
Sejamos menos o raio, delicados
como a nuvem é delicada
no chuvisco sobre a casa
quase barcos
no leito calmo
assim sendo, mesmo cordeiros,
menos boiada, sim, sejamos isso
barcos cansados! que sobre
Água Viva habitam
e que tranquilos chamam
de banho
a pior das tempestades
23 de setembro de 2018
Farol
"Ele recolhe as águas do mar num vaso, e dos abismos faz reservatórios." - Salmos 33:17
Embora a quilha rente aos turbilhões
dance firmeza na coragem marinheira
e eu, tão salino quanto sul, pareça são
com a vela fina, firme, nas mãos presa
- é Você, ó Luz, que me firma no guiar
enquanto ondeado sofro quando avisto
haver tempestade no grande haver mar.
Embora haja gotas em demasia entre
o Teu leme calmo e meu suor, embora
pareça fria minha esperança ao Te ver
incendiado e tranquilo, Senhor, sei só
que a Ti vou. Meu
sol És. Em Teu
rumo estou.
Embora a quilha rente aos turbilhões
dance firmeza na coragem marinheira
e eu, tão salino quanto sul, pareça são
com a vela fina, firme, nas mãos presa
- é Você, ó Luz, que me firma no guiar
enquanto ondeado sofro quando avisto
haver tempestade no grande haver mar.
Embora haja gotas em demasia entre
o Teu leme calmo e meu suor, embora
pareça fria minha esperança ao Te ver
incendiado e tranquilo, Senhor, sei só
que a Ti vou. Meu
sol És. Em Teu
rumo estou.
22 de setembro de 2018
A Harmonia
"Deixo-lhes a paz; a minha paz lhes dou. Não a dou como o mundo a dá. Não se perturbem os seus corações, nem tenham medo." - João 14:27
Irmãos, se a cidade vos engolir
sob os véus de aço de sua língua
rememorem a harmonia: o calor
da mãe, as mãos do dia, as aves
do céu, a face amorosa da vida.
E se numa cela, irmãos, fizerem
com que desdancem sob caóticos
sons de soco tais vossos corpos
harmônicos, busquem neste dia
recordar a música, em silêncio
de paz, onde o coração não grita.
Pois lhes tirarão a honra, irmãos,
lhes tirarão os olhos. E, ante muito
riso neles, deceparão vossa alegria.
Será espesso, irmãos, o sangue
então a vos escorrer pelos poros.
Mas não lhes tirarão a Harmonia.
Irmãos, se a cidade vos engolir
sob os véus de aço de sua língua
rememorem a harmonia: o calor
da mãe, as mãos do dia, as aves
do céu, a face amorosa da vida.
E se numa cela, irmãos, fizerem
com que desdancem sob caóticos
sons de soco tais vossos corpos
harmônicos, busquem neste dia
recordar a música, em silêncio
de paz, onde o coração não grita.
Pois lhes tirarão a honra, irmãos,
lhes tirarão os olhos. E, ante muito
riso neles, deceparão vossa alegria.
Será espesso, irmãos, o sangue
então a vos escorrer pelos poros.
Mas não lhes tirarão a Harmonia.
20 de setembro de 2018
Os círculos de fogo
Quando eu era pequeno
quando eu era criança
minha vó à noite dizia
com a voz que ainda
em ninar me balança
- Que os anjos do Senhor
te protejam, amor,
em círculos de fogo
e que te protegendo
eles te abençoem
em nome de Jesus
e em círculos de fogo
E eu me sentia quente
mais do que ao meio-dia
se deseja algum poente
pois eu ali não apenas
sob o hálito do sol jazia
semelhante ao sentir alheio
que se tem ao ver
algo belo
Ali eu me sentia quente
como no se fundir ao fogo
a espada sonora-se ao martelo
ali eu me sentia quente e via
o dia se fazendo em torno
e jorrar de dentro da noite
íntimo a um grande trono
como as manhãs são íntimas
de roupas brancas e limpas
e meu sorriso se fazia
claro em tantos raios
quando eu respondia ali
infantil em luz
amém
amém
17 de setembro de 2018
Retorno
"E, levantando-se, foi para seu pai; e, quando ainda estava longe, viu-o seu pai, e se moveu de íntima compaixão e, correndo, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou." (Lucas 15:20)
De longe vejo o pai à margem da casa
onde a grama testemunha que choveu.
As longas vestes, a longa barba, o fogo
de suas palavras água, eu as vejo, trilhas,
mesmo longínqua sua silhueta alva e breu
como que tristíssima. Por que eu - fugi?
Do que precisa, além de tronco, um galho?
E as raízes, eu as diviso, ei-las aqui. E o
tempo, eu o reencontro, e ele me cala.
Meu pai, por que eu te abandonei?
Foi o mundo, com seus curvos caminhos
que turvou meu coração, sob as sombras
da muralha, sob os porcos e seus latidos.
Foi o querer ver além do campo de trigo
mesmo já nutrido pelos pães e pelo riso
da mãe em bom calor. Fui eu, meu pai,
mas retornei: pois como viver no reino
sem que eu me apresente diante do rei?
E eis que correm até mim o rei, o amor.
Meu pai, eu retornei. Teu filho retornou.
De longe vejo o pai à margem da casa
onde a grama testemunha que choveu.
As longas vestes, a longa barba, o fogo
de suas palavras água, eu as vejo, trilhas,
mesmo longínqua sua silhueta alva e breu
como que tristíssima. Por que eu - fugi?
Do que precisa, além de tronco, um galho?
E as raízes, eu as diviso, ei-las aqui. E o
tempo, eu o reencontro, e ele me cala.
Meu pai, por que eu te abandonei?
Foi o mundo, com seus curvos caminhos
que turvou meu coração, sob as sombras
da muralha, sob os porcos e seus latidos.
Foi o querer ver além do campo de trigo
mesmo já nutrido pelos pães e pelo riso
da mãe em bom calor. Fui eu, meu pai,
mas retornei: pois como viver no reino
sem que eu me apresente diante do rei?
E eis que correm até mim o rei, o amor.
Meu pai, eu retornei. Teu filho retornou.
12 de setembro de 2018
Uma jardineira
Viver sem arrogância
sob a índole das flores
em fluência harmônica
em um lirismo só cores
foi o que quis, ávida
entre lírios enfim feliz
querendo feito verme
viver quente a manhã
das pétalas e dos cheiros
das acerolas e das maçãs
mas não pude - pois que
pra visitar o cerne cheio
dos caules das maçãs
o veio aquoso do sol
mansa amarelada de sol
entre lírios sem arreio
precisava podar os dedos
relvosos dos meus cabelos
como se fossem espinhos!
Que bom minha mão deteve
as lâminas desta sede
de querer podar-me
para poder ser-me.
sob a índole das flores
em fluência harmônica
em um lirismo só cores
foi o que quis, ávida
entre lírios enfim feliz
querendo feito verme
viver quente a manhã
das pétalas e dos cheiros
das acerolas e das maçãs
mas não pude - pois que
pra visitar o cerne cheio
dos caules das maçãs
o veio aquoso do sol
mansa amarelada de sol
entre lírios sem arreio
precisava podar os dedos
relvosos dos meus cabelos
como se fossem espinhos!
Que bom minha mão deteve
as lâminas desta sede
de querer podar-me
para poder ser-me.
10 de setembro de 2018
Sobre a auto-ajuda, o meu problema é moral, pois nela é quase norma: se um autor quer vender bem, tem que falar a partir do ponto de vista que anuncia a felicidade estar em primeiro lugar.
Eu, porém, em verdade vos digo: existem centenas de coisas mais importantes do que a felicidade.
A amizade, a integridade, o respeito, a fé, o amor, pra começar, são mais importantes do que a felicidade. As memórias, o cuidado, a lealdade, a gratidão, vem logo após.
E há muito mais.
Há quem diga, como lei, "faça o que te faz feliz". Mas a um estuprador, o estupro deve deixar feliz. A um corrupto, a corrupção deve deixar feliz. A um traidor, a traição. A um cruel, o poder. O que te faz feliz, caro contemporâneo, é menor, se traz infelicidade para alguém, o que já rebaixa a felicidade em relação à empatia, pelo menos.
Ser feliz não é o que importa.
É um unguento santo, enquanto fazemos o que importa.
Eu, porém, em verdade vos digo: existem centenas de coisas mais importantes do que a felicidade.
A amizade, a integridade, o respeito, a fé, o amor, pra começar, são mais importantes do que a felicidade. As memórias, o cuidado, a lealdade, a gratidão, vem logo após.
E há muito mais.
Há quem diga, como lei, "faça o que te faz feliz". Mas a um estuprador, o estupro deve deixar feliz. A um corrupto, a corrupção deve deixar feliz. A um traidor, a traição. A um cruel, o poder. O que te faz feliz, caro contemporâneo, é menor, se traz infelicidade para alguém, o que já rebaixa a felicidade em relação à empatia, pelo menos.
Ser feliz não é o que importa.
É um unguento santo, enquanto fazemos o que importa.
Eleições
"E o diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o diabo: Dar-te-ei a ti todo este poder e a sua glória; porque a mim me foi entregue, e dou-o a quem quero." (Lucas 4:5,6)
Há um hálito por trás de todo trono
um fedor cuja alma é o riso insano
no ar esculpindo um punho pálido
no ouro em que se sentaram reis
e sábios - mas se do poder sentimos
o odor emergindo em torno uma ilha
há véus cobrindo a boca que lhe iça
Ah! dessa boca só sabemos
que o trono é sua língua
Há um hálito por trás de todo trono
um fedor cuja alma é o riso insano
no ar esculpindo um punho pálido
no ouro em que se sentaram reis
e sábios - mas se do poder sentimos
o odor emergindo em torno uma ilha
há véus cobrindo a boca que lhe iça
Ah! dessa boca só sabemos
que o trono é sua língua
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