21 de março de 2018

Fábula

é preciso conviver
com o mel
e com o ferrão

(ouviu-se
sem que ninguém
dissesse)
 
pois o outono começou
 
(mas o sol no lodo
verde tigre amando
o alaranjado marrom
disse)
 
ainda não

20 de março de 2018

O outro malfeitor

"Respondendo, porém, o outro, repreendia-o, dizendo: Tu nem ainda temes a Deus, estando na mesma condenação? E nós, na verdade, com justiça, porque recebemos o que os nossos feitos mereciam; mas este nenhum mal fez. E disse a Jesus: Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino." - Lucas 23:40-42

Não porque o sangue que despejei criou
uma nova pureza: de tal limpeza
só um sangue é capaz. Não porque
em um dia de paz sob céu ainda pequeno
menino corri, desconhecendo ali o epíteto
luzidio que teu olhar traz. Lembra de mim,
Jesus, quando retornar ao teu reino
após estes danos que não mais temo
lembra de mim apenas porque o amo
oh sol rasgando o pano do eclipse denso
porque eu o amo mas não o mereço.

17 de março de 2018

Talvez melhor habitar a guerra
com seus crepúsculos cruéis
cravejados de heroicas odes
do que este século perverso
ornado por latrocínios
que também pode
me enlouquecer

Talvez melhor ter
em outra trincheira
a face opaca dos inimigos
do que habitar entre eles
e não distinguir aliados

Ao menos tenho a poesia
(nela porventura habito)
e quem não tem nem isso?

Perfil

Prata límpida magoada de brejo é
o reflexo lunar no lago e nos olhos
o furor de dois touros (lago e olhar)
o furor adolescente do muito sofrer
crescendo como costelas no dorso
ao norte

Ela vem e lapida uma febre
de castelos escurecidos pelas guerras
ela vem e morde as libélulas restantes
na casa incinera a música no ar ela
(a pobreza) com malícia leonina os
calçados usados sob as barbas do dia

Eu sou um poeta pobre muito pobre
e mais do que de vossos aplausos
preciso pagar o aluguel pois a voz
extravagante que lhes trago só pede
que me paguem algo pelo itinerário
que vos descrevo

Me deem
algum dinheiro

10 de março de 2018

Relatório do protetor

O poeta passou o dia com sua musa. Riu, comeu, dormiu bem. Mas o poeta estava preocupado. Comeram goiaba de um pé, pé de goiaba branca, depois de outro pé, de outra cor, comeram goiaba. Hoje foi um dos dias mais felizes da até aqui curta vida do poeta. Ele, em muitos relances, sonhou com o colo de Você como algo muito assim o dia de hoje. Mas o poeta estava preocupado. "Em alguns meses, em alguns meses", ele pensou continuamente. E tentou não lembrar do despejo, do não poder pagar o aluguel. Fez sopa, a musa trouxe bolo. Enquanto a chuva os rodeava, o poeta jogava vídeo-game com a musa. Jogaram vôlei e basquete, após. Preocupadíssimo. "Os lírios do campo", ele buscava se dizer, e fracassava, e Lhe atribuía a covardia dele, e ansiava paz. A musa, porém, o envolvia a cada tremer de pálpebras, e o beijava, delicada. Um templo. Acaso foi o SENHOR quem a enviou também? 

9 de março de 2018

Para o deserto da multidão

Ainda
que eu falasse a língua dos homens
falasse a língua dos anjos e o amor
em volteios nascesse no meu hálito
como circulando um templo vocês
nada ouviriam

Ainda
minha língua fosse de Adonai o fogo
renovante no núcleo dos relâmpagos
som feroz que mesmo assim pousasse
leve nas aves uma piedade pura vocês
nada ouviriam

Ainda mais não tendo nada disso
ainda mais sendo isto o que sou

4 de março de 2018

Cordilheiral

Quando um amigo chora
quero fazer nos meus ombros
o acréscimo
da extensão nas cordilheiras

(para que a tempestade nele
repouse com conforto tamanho
e se ajuste ao pesar)

Quando um amigo chora
quero fazer neste meu peito
um adendo
a outro coração que doa

(para que a tempestade nele
confunda as vazantes do coração
entre doação dor e lamaçal)

Quando um amigo chora
quero a morte do tempo
para que ele chore chore chore
e não pense na hora mas

eu dou apenas a ele
o silêncio que me foi dado
o silêncio atento e calmo
(e oro para que ela unguente a tristeza
sagrada do amigo
em améns)
Um dia nós seremos os antigos
- os mortos sob o piso há séculos -
e será no percorrer dos nossos anos
que os vivos buscarão algum sentido.

No traço deixado por nossos remos
buscarão rumos, sem encontrar
leste para suas velas, tesouros,
só avistando este mar e dizendo
"eram tolos", com os lábios secos,
"tolos como somos e como seremos".

Nos campos que habitávamos
pensarão que o broto se fez tronco
e que, após morto, alimentou frutos
pois de si fez nutrir bom adubo.
Mas também nos campos nada haverá
e os vivos dirão "eram tolos"
com fome mas agora serenos
- sábios pelo nosso mau exemplo?

Tomara que na escassez futura
eles plantem e se façam menos tolos
do que somos, do que seremos.

15 de fevereiro de 2018

Canção de Inílio

Nossa terra tem grandes sonhos
à sombra da fúria do sol.
Os homens que em brasileiro sonham
não sonham como os outros, a sós.
Nossa vida tem mais dança
e também tem mais ladrões.
Nosso xadrez tem mais rainhas
mas também tem mais peões.
Quando cismamos bem sozinhos
cismamos a mesma cisma
enquanto o caminho que trilham
os nossos sonhos são vizinhos.
Se depreciamos é por amá-la
esta nossa terra em pó
restando-nos à sombra da fúria
não sonharmos sonhos a sós.
Não permita, Deus, se apague
esse nosso sol sonho em comum!
O que em brasileiro dizemos
e que não pode em outros termos
ser dito por qualquer um.

4 de fevereiro de 2018

esta pouca memória

esta pouca memória
é uma grande fortuna
dessalga o rancor
dos mares
retém dos males
a espuma

esta pouco memória
medida em mãos hábeis
não compõe a má resposta
porque não se lembra
da pergunta mas antes
compõe o sol
que enxuga as bocas
que me cuspam

que venha um tempo
inconsútil e teso
e minha carne roa

até lá já terei
uma mente pura
de pedra escavada
pela contínua chuva
desta pouca memória
reescultora
de velhas histórias

grande fortuna

31 de janeiro de 2018

Os estados da bananeira e a garoa

Antes

As extremidades verdes contra o sol são lábios
frescos ou membranas ou pálpebras translúcidas
elucidadas em amarelo. O que há com minha vida
que não é tão harmoniosa? O que houve de poda
em você também houve em mim, pelos machados
e por tempestades, bananeira, então por que
essa lacuna de formas entre nosso olhar?
Vem vindo um vento novo; vejo as longas folhas
quase asas asiáticas contra o avanço platina
da nuvem orgulhosa que vem pela tua sede.
Quem como tu mantém a solar índole
mesmo com tal avanço de sombras?

O fruto das nuvens ama o fruto da bananeira
como meu coração, fruto de mim, ama
o que na mulher amada encontro par
coração dela, fruto dela.

Durante

Um tamborilar chiando chaleiras
bem de manso.

Depois

Levei o bebê aos teus pés, pé de bananas.
Desfiando assim teus lábios respinguei
a memória da chuva em você sobre nós.
O bebê riu.

23 de janeiro de 2018

O profeta na noite

Chove.

Eis que a morte espalha medo e mágoa até nas feras
enrolando seus cabelos na água desabada em cólera.

Olhem:

dentro dela alguém cavalga rasgando véus soturnos
sob a lâmina do cajado puro que é sua flâmula e luz.

Troveja.

As montanhas se destacam desse negror tempestuoso
quando o raio feito osso rasga as entranhas da noite.

Vejam:

as torres longínquas tremeram ao sinal adormecido do
golem cujo destino é guardar o tempo no fundo do mal.

Venta.

Quem é esse que voa sem ter asas trazendo iluminadas
brasas na boca para que purifiquem sua língua seca?

Vejam:

o cavalo sob o ancião rasga a noite para fazê-la dia.

Troveja.

O profeta em sua montaria mescla o trovão à sua voz.

22 de janeiro de 2018

A angústia abocanha o nosso peito
porque há quem tenha o que não temos.

É a cidade.

Sempre prestes ao abismo
ou prestes ao maior fogo
sempre prestes à civilidade
ou à maior barbárie.

A culpa é dela.

Passa um carro. Passa um sorriso.
Passa um sonho ruínas de tão antigo.
Se não os temos, nada somos.
A cidade tem os cabelos
fatigados de fuligem
e um coração que não parece
ser, um coração que zomba.
A culpa é dela.

16 de janeiro de 2018

Passarinho

Azul um passarinho me disse
cansadinho e meio triste
"ah se eu pudesse não ter pouso!
ah se no voo houvesse um ninho
sem galho, orvalho de colocar
minhas asas dormindo no ar!"

Azul eu lhe respondi
também triste e cansadinho
"ah meu passarinho! você
não tem do que reclamar!
quem me dera um teto mínimo
mesmo no galho já caindo
mesmo rente ao vendaval!
tenho que pagar aluguel
alma entregue num papel
e não tenho como pagar!"

Azul a gente viu a tarde
ficar azul mais tarde
ele de dó então cantou
para que eu após chorasse
e eu chorei azul de dor
como quem choraria
mesmo se ele não cantasse

12 de janeiro de 2018

Lavrador

Você vai morrer. E os reis vão morrer.
Morrerão as leis, morrerá quem já morreu.
Os miseráveis também, e entre eles
eu. Porém, de nós, quem já é íntimo
do chão? Quem lavra com suor
a terra promissora de pão?
Todo homem sem calos
toda mulher sem dedos ásperos
está mais distante desse pó que é pia
batismal onde me banho e purifico
longe desse resquício marceneiro
crístico e longe desse brilho.
Das quinas, então, desses calos santos
sedimentos eu te canto: quando
for a minha hora
ao menos eu mesmo
terei cavado minha própria cova.

8 de janeiro de 2018

Mamom

"Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom." - Mateus 6:24

Quando eu grito, vossas famílias ao longe
se dissolvem ao meu encontro.
Enquanto eu falo, todos os demais
se calam. Quem sou? Quem
sou? Eu sou a razão do fogo em vosso olhar
sou verde vosso verdadeiro amor.
Os homens rastejam atrás da paz?
Pensam descomunais no conforto do amor?
Atrás de mim, é que rastejam.
É só em mim, que vocês pensam.
Será por que brilho? Por que douro?
Por que sois ásperos insetos sem luz
com a face a bater contra a lâmpada?
Quando eu sussurro, vosso ouvidos dilatam
vórtices ao redor para me ouvir melhor.
Quando eu cuspo, lançam-se
buscando apanhar no ar
minha seiva com a língua.
Quem sou? Imperador de todas
as almas, eu sou, eis
meu século! Quem sou? Não
reconhecem a face de vosso senhor?

5 de janeiro de 2018

A Saudade

para Michele Marcial

Um sol que não esquenta cresce ao longo das serras
e é a planície do coração sensível que se encolhe
é uma perversidade ante a gélida distância
uma mudez que avança é a falta
diante do dia que já não fogueia
são armaduras reluzindo cavaleiros
que há muito não as habitam em glória
são frutos prometendo gomos em sumo
podres na ausência de sementes férteis
o mal sal sobre a terra do lar se estende
onde ondas de frio sob órbitas longínquas
mineram o vazio que se enche é a falta
de quem aqui está sem estar
é o canto gregoriano é a lua minguando
de quem aqui está sem estar
porém
então
ela
diz
eu te amo
ah
relâmpagos de sonho
poderei assim sobreviver ao sol herético!

21 de dezembro de 2017

Em Sodoma

Alguém leal, agachado diante das brasas
triste em cumprimento ao seu próprio coração
percebe que a alma pesa mais em Sodoma
embora o corpo feito penugem embriagado voe.
Alguém leal, melhor, maior, constata
a gratidão e a honra como madeira e corda
de um arco sem flechas restantes. Compõe:

"a alma pesa mais em sodoma
arquétipo granito de egoísmo
contanto que tenha havido espírito
e seja soterrado pelo abismo
contanto que o olhar tenha sabido
experienciar o fogo dos sentidos
terremoto ígneo e difícil
em sodoma haver o peso dos vícios
sodoma eles te amam o peso
que em israel sequer haviam tido
sodoma tem muitos filhos
que nela ancoram fluidos aflitos"

O fogo nos estandartes queimados
em frente ao acampamento de batalha.
As bandeiras que estalam
espalhando o som da fogueira.
Em Sodoma quem tem alma
sofre diante das brasas.
Em Sodoma quem tem alma
não tem mais nada.

17 de dezembro de 2017

O livro de sal

A guerra já vem nos afastando por um ano.
Hoje consegui ligar para ela. Ela me disse
que só consegue ler quando solitária
ou quando próxima de mim. Disse
que no campo de refugiados é impossível
e que não ler torna tudo aquilo pior.
Será porque
a leveza entre nós dois é idêntica
a de quando alguém está em paz num eu?
Ela diz isso à distância
na distância que às vezes grandes almas têm
para que, faróis, iluminem áreas não sobrepostas.
Ela disse depois que tinha de ir. Disse
que me amava, sonhe com Deus.
Fiquei feliz por havê-la no mundo e desliguei.
Agora estou de guarda na noite
quase calma do litoral e posso sentir
que quem tem no coração o valor exato de tal amizade
terá as mãos firmes no timão durante a tempestade
terá o espírito calmo
quando explodir o trovão destinado
lendo no maior furacão
o livro de si. Troveja. Ou será a artilharia?
Troveja. Que venha a tempestade.

6 de dezembro de 2017

Michele

É natural a um homem de ouvidos cansados
a paixão por essa mulher de silêncio denso em noites
o olhar que à luz no escuro refulge laminar
seu abraço fogo apaixonar
quem suava frio

É natural porque ela lembra uma espada
desembainhada sob a lua
o triunfo exato do crepúsculo num regaço
qualquer eclipse ao meio-dia
o tato do sol nas bocas frias

Essa mulher de pouco dizer de muito cuidar
me lembra o que eu seria
se ao não ser o que sou
eu fosse mulher
uma floresta incógnitas trilhas
essa mulher que me esculpe de sonho